Um romance improvável… ou inevitável. Uma viagem a dois, mas também interior, pelas fissuras do passado. A Big Bold Beautiful Journey, terceira longa-metragem de Kogonada (depois de Columbus e After Yang), junta Margot Robbie e Colin Farrell numa narrativa que acompanha duas personagens em ajuste de contas com as suas rotinas e certezas. Rodado entre paisagens que funcionam como espelho das suas transformações, o filme explora a ideia de movimento – tanto físico como emocional – e a possibilidade de encontro em momentos de perda. Pedro Barriga e Hugo Dinis assinam as críticas.
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Joe Hisaishi, Kogonada, Margot Robbie e Colin Farrell. Um grande compositor, um corajoso realizador e um belo elenco. E, no entanto, que desastre.
Um road movie em que os nossos co-protagonistas embarcam numa viagem que é tudo menos os três adjetivos do título. Estas personagens, de uma sem graça descomunal, não se assemelham de todo a pessoas reais. Pelo contrário, tratam-se apenas de megafones sem alma, cujo único intuito é o de transmitir os temas que o argumentista Seth Reiss pretende abordar. O resultado não é a análise desejada destes temas, mas sim um guião enfadonho e demasiado longo, infestado por um tom irritantemente fofo.
É uma pena que, na filmografia de Kogonada, A Big Bold Beautiful Journey se tenha seguido ao promissor After Yang (2021), um filme que de forma tão interessante explorava temáticas como a tecnologia, a privacidade e a mortalidade. Kogonada, por favor, volte a realizar argumentos assinados por si.
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Pedro Barriga

Para um filme de Kogonada, A Big Bold Beautiful Journey é estranhamente construído em torno de um romance tão provável quanto inevitável. Na verdade, não é difícil de o apelidar como o registo mais simplista e directo da sua ainda curta filmografia. Journey é quase desarmante na sua honestidade, não apenas aqui e ali, mas em todas as escolhas narrativas que toma. O que, para um filme sobre uma paixão entre duas personagens que passa o tempo em interlúdios de memória dos dois, alude logo a um patamar comparativo com The Eternal Sunshine of the Spotless Mind. Journey pega nessa base e inverte o papel da memória: aqui, o par intervém pessoalmente em múltiplos cenários do seu passado pessoal para ilustrar o mútuo conhecimento que acompanha o primeiro date. Mas é precisamente essa inversão que faz de Journey um trabalho muito menos subversivo e desconcertante. Travando conhecimento num casamento, Margot Robbie e Colin Farrell formam uma parelha forçada pelas circunstâncias impostas por uma estranha agência de aluguer de carro. As composições mágicas que procuram assistir o apaixonar de ambos colocam Journey num permanente registo delicodoce do qual apenas se desvia para uma suposta revelação dos demónios interiores de cada um.
A surpresa de Kogonada e Seth Reiss (The Menu), contudo, é que nenhuma destas pessoas possui verdadeiramente qualquer demónio de registo. Na verdade, nem sequer têm real personalidade própria digna desse nome. Robbie está marcada ainda pela morte da mãe e resiste ao compromisso com receio do inevitável sofrimento da perda. Farrell seguiu à letra os carinhos dos pais sobre a sua própria excepcionalidade e fechou a porta a amantes por inteiro. Mas nenhum deles resiste ao prazer da busca, de facto, apesar de todos os protestos de Robbie. E é isso que esta jornada de ambos no fundo é. Algo que já percebemos como acaba e que, tal como o GPS no Saturn alugado de ambos, nos vai indicando vários pontos de passagem obrigatórios. Os diálogos entre Robbie e Farrell são frequentemente centrados em Grandes Temas e populados por deixas supérfluas que pouco nos dizem da personalidade de ambos. Tudo isto acaba por fazer das histórias laterais de Journey mais interessantes que a jornada de ambos propriamente dita. Kogonada rejeita agora o tom orgânico de Columbus, por exemplo, para apostar na artificialidade da mise en scène. Journey é certamente grande, em (breves) momentos bonita, mas nunca verdadeiramente audaz.
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Hugo Dinis



