Críticas a 28 Years Later: The Bone Temple, de Nia DaCosta

EquipaJaneiro 21, 2026

O universo criado em 2002 por Danny Boyle e Alex Garland ganhou no ano passado novo fôlego com 28 Years Later que esteve em projecto quase 20 anos, o primeiro filme de uma nova trilogia. Realizado em paralelo, este 28 Years Later: The Bone Temple, o segundo volume, é assinado por Nia DaCosta e já está a ser apelidado por muitos como o melhor filme do franchise e um dos filmes do ano. Centrado na misteriosa personagem interpretada por Ralph Fiennes, Dr. Kelson, e no seu relacionamento com uma figura inesperada, observamos em simultâneo o jovem Spike vivendo um pesadelo junto do clã do sádico Jimmy Crystal. Raquel Sampaio, David Bernardino e Pedro Bastos Oliveira foram ver o filme às salas e tiveram experiências diferentes. Se por um lado Raquel Sampaio considera o novo filme um nível acima do anterior, David Bernardino considera-o abaixo. Já Pedro Bastos Oliveira não ficou convencido de todo. As críticas completas:

 

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28 Years Later: The Bone Temple confirma que esta saga nunca esteve verdadeiramente interessada em zombies, mas sim no que sobra quando o mundo acaba: fé, poder, culpa, propósito. Se 28 Years Later funcionava como um filme fragmentado, quase em decomposição, este segundo capítulo, agora realizado por Nia DaCosta, é mais sólido, mais contemplativo e, paradoxalmente, mais inquietante. DaCosta tinha tudo contra si: herdar uma trilogia sem princípio nem fim claros, ocupar a cadeira de Danny Boyle e fazer o “filme do meio”, esse território ingrato por definição. Mas a verdade é que se sai melhor do que Boyle saiu o ano passado com 28 Days Later. A realização é mais clássica, sim, mas também mais musculada. Aqui sente-se o peso da ameaça constante. Nia DaCosta pega num mundo em colapso e filma-o com prazer, nunca abdicando da reflexão.

O coração do filme está na relação improvável entre o Dr. Ian Kelson (Ralph Fiennes) e Samson (Chi Lewis-Parry). Ralph Fiennes transforma Kelson numa das figuras mais estranhas e cativantes da saga: um homem que escolheu sobreviver num ossuário que é arquivo, templo e bunker emocional. O seu trabalho obsessivo com os mortos é uma forma de resistência. Fiennes está magnífico – irónico e lúcido – e dá ao filme uma energia vital inesperada, Samson, por sua vez, é um Alpha (subespécie evoluída dos infetados maiores, mais fortes e mais inteligentes do que os infetados comuns) que DaCosta se recusa a tratar como mera ameaça. A relação entre os dois (alimentada por morfina, curiosidade e um silêncio carregado de sentido) é das ideias mais interessantes do filme. Não se trata de humanizar o zombie, mas de sugerir que a passagem entre consciência e inconsciência pode não ser assim tão estanque. DaCosta filma essa possibilidade com uma frontalidade poética, mas sem sublinhados excessivos.

Em paralelo, seguimos Spike (Alfie Williams) do filme anterior, agora capturado pelos Jimmys, uma seita que trocou a fé tradicional por um culto performativo de violência. E aqui entra Jack O’Connell, que parece estar a especializar-se – e muito bem – neste tipo de vilões carismáticos. Sir Lord Jimmy Crystal é um delírio messiânico de fato de treino, colares e anéis dourados. Um líder de culto que mistura infantilismo e crueldade. O’Connell está perturbadoramente à vontade neste registo (mesmo que continuemos a guardar uma predileção especial pelo seu Remnick de Sinners). Funciona como contraponto perfeito a Kelson: onde um encontra sentido na memória, o outro encontra-o na destruição ritualizada. O filme acerta ao mostrar como, em contextos extremos, a crença, qualquer crença, pode ser tanto âncora como arma. Aqui, DaCosta é particularmente eficaz: nunca ridiculariza estas figuras, mas também nunca as desculpa. E a música, finalmente, entra como descarga elétrica. Duran Duran e Radiohead irrompem como ecos nostálgicos de um mundo perdido, injetando divertimento e melancolia em cenas que podiam cair no mero grotesco. No final, Iron Maiden fecha o filme com uma gargalhada negra.

O desfecho é algo tímido, resolvendo conflitos importantes fora de campo e recusando um confronto mais frontal com as suas próprias ideias. Falta um último gesto de risco. Ainda assim, essa contenção pode ser lida como coerência: The Bone Temple não quer respostas definitivas, quer insistir na pergunta e, quiçá, abrir terreno para mais… No conjunto, é um filme mais maduro e mais interessante do que 28 Years Later. Menos impressionado consigo próprio, mais atento às relações humanas e às formas tortuosas que a fé assume quando o mundo colapsa. Destaca-se sobretudo pela realização segura de Nia DaCosta e por Ralph Fiennes, que transforma um personagem excêntrico num dos retratos mais inesperadamente humanos do cinema pós-apocalíptico recente.

Raquel Sampaio

 

The Bone Temple é um filme muito diferente do seu antecessor lançado em 2025, que polarizou opiniões. Essa diferença começa desde logo na realização. Em 28 Years Later (2025), Danny Boyle regressou à realização da saga que criou em 2002 com uma abordagem conscientemente diferente daquilo que o espectador, sobretudo o fã do original, provavelmente esperaria. Em vez de uma história crua e pragmática sobre o planeta 28 anos após o apocalipse causado por este vírus brutal, Danny Boyle e o argumentista Alex Garland optaram por uma narrativa de escala mais pessoal, centrada na experiência do jovem Spike, de 12 anos. Na primeira metade, um thriller sobre um ritual de iniciação masculina ao lado do pai; na segunda metade, um melodrama familiar que envolve a mãe e o misterioso Dr. Kelson, interpretado por Ralph Fiennes, o filme piscava o olho a uma certa fantasia onírica e a uma imagética pastoral. Filmado com um iPhone, as imagens de 28 Years Later eram imediatas, cruas e anárquicas, recuperando o espírito do filme original de 2002, deliberadamente rodado com câmaras de mão de baixa resolução que refletiam a urgência e o realismo da ação. 28 Years Later perdeu realismo ao substituí-lo por essa visão de fantasia onírica, mas ganhou autoria enquanto filme corajosamente audaz.

Nia DaCosta, que assina este The Bone Temple, sequela direta do anterior e filmada mais ou menos em simultâneo, remove os elementos que tornaram o filme de Danny Boyle tão especial. A realização é mais conservadora e, por isso, menos interessante para a estética a que a saga nos habituou e, sobretudo, menos distinguível do que é habitual neste género (e com tantos zombies por aí, bem precisamos de realizadores com maior audácia). Ao focar-se agora na iniciação de Spike no violento grupo satânico liderado pelo sádico Jimmy Crystal (mas também no Dr. Kelson de Ralph Fiennes, a que já iremos), torna-se rapidamente claro que The Bone Temple pretende aumentar os níveis de violência, insanidade e imediatismo face aos seus antecessores. Existem algumas cenas que aparentam ter sido pensadas para causar um forte impacto no espectador, mas esse impacto acaba por soar atabalhoado e pouco enquadrado devido ao olhar puramente secundário de uma personagem que antes era protagonista: o jovem Spike. Ainda assim, a nova dinâmica protagonizada por Jack O’Connell no papel de Jimmy Crystal cria bases suficientes para assumir uma estética própria, ainda que menos subtil, trazendo de forma mais explícita para cima da mesa temas como a religião e a loucura coletiva. Por outro lado, temos a delicadeza da história do Dr. Kelson, interpretado por Ralph Fiennes, e a sua interação com o zombie alfa avantajado introduzido no filme anterior. A re-humanização após a desumanização do ser humano, mas sobretudo a incursão (uma novidade da autoria de DaCosta) por momentos de comédia simultaneamente absurda e ternurenta, são escolhas temáticas e emocionais que aplaudimos.

A sequência em que estes dois mundos de caos e paz colidem será certamente uma das mais icónicas de 2026, com toques de George Miller e do seu Mad Max aqui e ali, e poderá, por si só, ser suficiente para fazer deste mais um filme de culto a juntar a 28 Days e Years Later. A icónica banda sonora dos Young Fathers, que tão bem definiu a identidade do filme de 2025, é aqui deixada de lado em favor da escolha mais segura de Hildur Guðnadóttir acompanhada por temas bem conhecidos de Duran Duran, Radiohead ou Iron Maiden. Diferente, sem dúvida, mas talvez igualmente eficaz. Seja como for, os dois filmes não funcionam como se fossem um só e certamente não funcionarão como um todo único quando chegar o terceiro capítulo da trilogia 28 Years Later. As escolhas estéticas, tonais e temáticas são suficientemente diferentes para confirmar The Bone Temple como um filme menos arriscado, menos autoral e menos rico, por vezes a piscar o olho ao genérico, e assim menos interessante do que o seu antecessor. Apesar disso, nunca deixa de ser, claro está, um belíssimo thriller, com temáticas habilmente escolhidas e um elevado valor de revisitação. Estará certamente na lista dos melhores do ano de muita gente, por mérito próprio.

David Bernardino

 

24 anos depois do primeiro filme, e meio ano depois do capítulo anterior, voltamos ao universo criado por Danny Boyle, realizador “punk” de Manchester, e Alex Garland, cineasta de ficção científica. Tudo começou com câmaras de vídeo, planos à mão – tremidos – e Cillian Murphy, correndo, coxo, com roupa de internado e saco de plástico na mão, numa Londres vazia, pré-distópica, repleta de mortos vivos velozes (uma novidade). Fala-se que Cillian Murphy será protagonista no terceiro e último capítulo desta trilogia 28 Years Later, mas até lá, contentamo-nos com uma nova história: a sidequest de Spike, um rapaz que cresceu numa ilha protegida pelo mar do apocalipse e sua interação com Dr. Kelson e Sir Lord Jimmy Crystal, interpretados respectivamente por Ralph Fiennes e Jack O’Connell. 28 Years Later: The Bone Temple continua essa história, mas sem a consistência temática ou arrojo da realização da encarnação anterior onde Boyle filmou com um Iphone, assumindo e trabalhando essa estética. Neste filme, essa abordagem é abandonada por planos genericamente compostos.

Alguns dos conteúdos mais populares do século XXI, desde televisão (The Walking Dead), videojogos (The Last of Us, ou Call of Duty: Black Ops 2), a bandas desenhadas ao cinema são sobre, ou melhor, contêm zombies. Estas histórias nunca são sobre monstros, mas sobre humanos – a materialização possível do nosso confronto com a morte, e o medo que isso suscita. O filme de Nia DaCosta abandona a jornada de Spike, mas foca-se nas reações dos personagens à Morte e ao Apocalipse – um abaixamento das sociedades, um hipotético regresso a uma “estaca zero”, ficcionado (como em “Senhor das Moscas”). Por outras palavras, de que forma nos comportamos sem instituições ou organização? DaCosta dá algumas pistas: um médico solitário que procura dar um significado espiritual, e possível, ao desaparecimento da sua espécie; jovens-adolescentes, os “Jimmies”, obcecados pela violência, acreditando serem filhos do Diabo; e um zombie alpha, Samson, redescobrindo a sua humanidade. Todas estas propostas são interessantes no papel, mas arrastam-se de forma infindável, com demasiada repetição em relação ao filme anterior – embora o templo de ossos seja visualmente interessante, esse deslumbramento não dura mais de vinte minutos.

O filme batalha entre um naturalismo seco, que caracteriza Nolan ou Villeneuve, e um camp presente em muitos outros exemplos do género. O resultado é uma imensa dificuldade do espectador em reagir, por exemplo, à violência desmedida do filme – nunca sabemos se é divertidamente exagerada ou agressivamente chocante. Neste descompromisso, a entrega de Fiennes é evidente, mas nem isso, nem a música dos Iron Maiden, salvam a estranheza que sentimos – muito pelo contrário.

Pedro Bastos Oliveira