Críticas a 18 Buracos Para o Paraíso, de João Nuno Pinto – Um Drama em Lume Brando

EquipaJunho 18, 2026

Após o triunfo crítico e popular de Mosquito (2020), o realizador João Nuno Pinto está de regresso com uma das grandes estreias nacionais do ano. Contando com um forte elenco, encabeçado por Margarida Marinho, Beatriz Batarda e Rita Cabaço, 18 Buracos Para o Paraíso segue a história de uma reunião de família numa herdade alentejana para a venda das terras herdadas do falecido patriarca. A aproximação da ameaça de um incêndio florestal leva a que a família seja forçada a encarar as tensões pessoais que a rodeiam. A estreia de 18 Buracos Para o Paraíso levou mais uma vez a Tribuna à sala, com as críticas de Lara Marques Pereira, Rita Costa e Maria Inês Opinião.

 

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Na paisagem do Alentejo, o drama de uma família sobre o futuro de uma propriedade outrora imponente e impactante transforma-se num filme político sobre a luta de classes, assimetrias sociais e até a sustentabilidade.

Três irmãos (Margarida Marinho, Beatriz Batarda e Jorge Andrade) reúnem-se na herdade da Lagariça para debaterem o que fazer com a propriedade que herdaram, em pleno Alentejo, numa altura em que o grande latifúndio está a ser explorado por gigantes da cadeia alimentar ou magnatas da hotelaria. A eles junta-se a personagem de Rita Cabaço, que regressa à quinta onde passou a infância e onde já trabalhou, para acautelar a situação das reformas da mãe e da tia, no cenário cada vez mais concreto da venda dos terrenos para um campo de golfe, com os tais 18 buracos do título do filme. O encontro de todos é atravessado por um gigantesco incêndio nas proximidades, que os deixa impotentes e sem recursos para travar as chamas, metáfora para um mundo a ser consumido de forma descontrolada. João Nuno Pinto junta todas as personagens num local, impedidas de sair, obrigadas a confrontarem-se com as chamas, uns com os outros e ainda com a decisão que vierem a tomar sobre o futuro da herdade. A história desenvolve-se a partir do ponto de vista das personagens femininas, que representam também os diferentes universos que se relacionam com a Lagariça.

Margarida Marinho é a irmã alcoólica que não suporta a ideia de perder o território que conforta o passado e que a protege de viver o presente. Beatriz Batarda não se relaciona com a vida do campo e está disposta a vender a quinta a quem a puder sustentar. Rita Cabaço é a empregada que cresceu na herdade, mas que nunca foi parte integrante da família, mesmo que todos lhe digam o contrário.

18 Buracos Para o Paraíso é um filme que desmonta a ideia de herança, quer seja do nome, do dinheiro, da posição social ou do território. É o mesmo ímpeto que levou o realizador a voltar ao passado, no filme Mosquito (2020), e ao peso da culpa sobre o colonialismo. Em Mosquito, a aventura de um jovem soldado enviado para a frente de batalha em Moçambique, durante a Primeira Guerra Mundial, permitiu uma releitura da presença portuguesa em África. E, já ali, João Nuno Pinto se revelava como um cineasta que procura o cinema como espaço de visibilidade e ampliação do mundo, como volta a acontecer agora em 18 Buracos Para o Paraíso, com o retrato tirado ao presente a partir de uma quinta na paisagem quente e seca do Alentejo. Também já foi assim com América, a estreia em longas-metragens em 2010, com uma história que cruzava drama e comédia, e que trazia para o cinema a Cova do Vapor e o pequeno crime organizado em torno da imigração ilegal que começava a chegar a Portugal. Agora, o realizador volta a ser meticuloso na forma como consegue encher as imagens de calor, do ar quente do fogo, da secura da terra onde não chove, mas também das frustrações das mulheres daquela família. O cinema de João Nuno Pinto é feito de ousadia técnica, com a ajuda de uma fotografia (Kamil Plocki) que sublinha dramaticamente os efeitos metafóricos do fogo na vida das personagens. Mas este é justamente e estranhamente o maior falhanço do filme: há fogo a mais e história a menos. Há uma deriva que não ajuda a compreender totalmente o que o filme propõe. Mas vale a pena sublinhar, ainda assim, um grande final, que merecia mais até ali chegarmos.

Lara Marques Pereira

 

Há qualquer coisa de podre naquela herdade ainda antes de o filme começar. A terra está seca, a família está partida, as relações parecem contaminadas por dinheiro, herança e ressentimento. 18 Buracos Para o Paraíso vive muito desse ambiente: um espaço fechado, quente, quase sufocante, onde ninguém parece realmente livre.

João Nuno Pinto filma a decadência de uma certa ideia de propriedade, de família e de poder. A possibilidade de um campo de golfe, quase absurda naquele cenário de seca, funciona como imagem forte de um país que continua a vender o pouco que ainda tem, mesmo quando já não há água, futuro ou vergonha. O melhor do filme está aí: na forma como transforma a herdade num território moral, e não a usa apenas num cenário. A seca, o fogo, a terra e a casa carregam um peso simbólico evidente, mas o filme consegue muitas vezes fazer com que esses elementos nasçam do próprio ambiente, sem parecerem apenas ideias colocadas em cima das personagens. Quando se concentra nos gestos, nos silêncios e na tensão entre corpos que já não sabem como habitar o mesmo espaço, ganha uma força seca e incómoda. Há aqui uma ambição que se sente e que raramente se torna gratuita. 18 Buracos Para o Paraíso fala de um país cansado, de uma classe agarrada aos seus restos e de um futuro que parece chegar já estragado. Pode não ser sempre subtil, mas tem matéria, tem atmosfera e tem uma ferida real por baixo da superfície.

É um filme de decadência, ressentimento e calor acumulado. Arde devagar, mas arde.

Rita Costa

 

O realizador João Nuno Pinto volta a lançar-se num universo caracteristicamente português, aquele da família de uma antiga classe alta cuja fortuna escasseia. A herdade do Alentejo encontra-se em estado degradado com os azulejos partidos da piscina, a sua cozinha muito antiga e a parca manutenção de uma grande propriedade. Os irmãos dividem-se entre o valor monetário e o emocional.

A quinta ocupa um lugar idílico: o afastamento da azáfama lisboeta, o regresso à vida familiar que ameaça extinguir-se com o título de propriedade. A questão da venda da propriedade deixa à vista os interesses dos irmãos Francisca (Margarida Marinho), Catarina (Beatriz Batarda) e Lourenço (Jorge Andrade) enquanto são confrontados com a própria moralidade por Susana (Rita Cabaço), a filha da caseira que, com a venda, ficaria sem qualquer tipo de compensação justa pelas suas décadas de serviço à família. São, ainda, contaminados por um incêndio florestal fruto da realidade ambiental que tem devastado o interior do país ano após ano.

João Nuno Pinto repete o dia do deflagrar do incêndio três vezes através da perspectiva de Francisca, que se recusa a vender a casa onde cresceu; de Catarina, que precisa desesperadamente de dinheiro; e de Susana, que pretende encontrar um lugar onde a mãe possa viver os seus últimos anos com dignidade. As três atrizes são absolutamente magnéticas, aproximando-nos e fazendo-nos torcer pelas suas personagens, nem que somente por um momento. Cada narrativa culmina com uma chuva de cinzas tão real que se torna metafórica na mente citadina, já que é acompanhada de situações inusitadas. Distante da piscina da herdade que a família indecisa frequenta (e como não relembrar Lucrecia Martel?) está Susana, também ela moradora da capital, que mantém o filme num plano concreto com o seu vínculo e preocupação com os habitantes da aldeia. O filme funciona neste antagonismo entre um individualismo patológico e uma noção comunitária aliada a uma vontade de vingança e pertença. Ainda que tropece por alguns lugares-comuns, 18 Buracos Para o Paraíso é uma boa sátira no retrato das dinâmicas de classe portuguesa que conta com uma excelente banda sonora e um registo de imagem muito interessante, ainda que alusivo a outras obras.

Maria Inês Opinião