Críticas a 13 Dias, 13 Noites, de Martin Bourboulon – Fuga Para a Frente

EquipaMaio 22, 2026

Dois anos após o seu díptico de Alexandre Dumas, Les Trois Mousquetaires: D’Artagnan e Milady (2023), Martin Bourboulon regressa com uma nova dose de cinema popular. Desta feita, o objecto é a retirada das tropas ocidentais do Afeganistão em Agosto de 2021. A embaixada francesa mantinha-se como um dos derradeiros redutos antes do regresso ao poder por parte dos talibã, pelo que a tensão da saída dos seus derradeiros elementos evoca uma versão gaulesa de The Killing Fields (1984, Roland Joffé). Bourboulon filma uma sociedade prestes a mergulhar de novo no obscurantismo religioso, a partir da perspectiva de quem abandona e do desespero de quem procura uma nova vida após a ocupação americana. Maria Inês Opinião e Hugo Dinis foram conferir este 13 Dias, 13 Noites. Abaixo seguem as suas críticas.

 

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Volvidos que estão praticamente 25 anos do começo da invasão do Afeganistão, está na hora do cinema começar a reescrevê-la. 13 Jours, 13 Nuits é uma pequena fatia francesa dessa reimaginação, colocando-se ao lado dos responsáveis pela segurança da embaixada de França em Cabul no decorrer do inevitável regresso do controlo político do país aos talibã. Não que interesse particularmente a Martin Bourboulon explicar exactamente porque é que esse regresso é necessariamente inevitável, nem sequer tal seria expectável, mas não deixa de ser notável rever em 2026 um género de filme que se coloca firmemente na perspectiva dos forasteiros e se recusa a mover daí. Não obstante todo o orientalismo de 13 Jours, 13 Nuits – o filme alude na sua abertura e no seu final à dramática perda de direitos por parte das mulheres afegãs no regime talibã, mas nunca assume a perspectiva de qualquer uma das que mulheres que, de facto, ficarão no país – este lado francês representa um reaquecer de restos no microondas de The Killing Fields (1984).

Ao passo que o filme de Roland Joffé procurava colocar a parada dos acontecimentos num plano de perigo íntimo e imediato perante as hordas de nativos às portas da civilização, Bourboulon limita-se a operar os básicos de um filme Netflix como um livro de pintura por números. Na sua Cabul, mora uma profundidade de campo risível e um ror de efeitos especiais gerados por computador, mas raramente uma sensação de perigo real. Se o thriller era a intenção, a debandada francesa dos confins da sua própria embaixada confere muito pouco dessa vertente. 13 Jours, 13 Nuits segue de forma mais próxima o comandante Mohamed Bida (Roschdy Zem) nos seus esforços para levar consigo para França o maior número de inocentes e amigos possível, ainda que nem sempre estes dois grupos se conjuguem. Vemo-lo a resgatar um general do exército afegão (Sina Parvaneh) do seu refúgio num restaurante em Cabul perante a ameaça das milícias talibãs. Acompanhamos a sua amizade com uma jovem franco-afegã (Lyna Khoudri), trabalhadora numa ONG local, que procura levar a mãe consigo para França. E, claro, não podia faltar também aquela inconveniente repórter (Sidse Babett Knudsen) com quem Zem rapidamente passa a nutrir de desdém a amizade empedernida.

Num argumento que procura essencialmente manter-se fiel ao relato real de Bida sobre os acontecimentos que levaram ao abandono da embaixada francesa em Cabul, não deixa de ser desapontante que tantas personagens surjam aqui essencialmente pela rama. Onde 13 Jours, 13 Nuits consegue manter-se consistentemente interessante é sobretudo na forma como constrói o estado mental de Bida, um homem de família, prestes a ser avô a quinze dias da reforma, atirado para o pandemónio de uma situação caótica em que a preparação parece ter sido lançada às urtigas.

Nesse sentido, o melhor plano de todo o filme surge já no final, com Zem agarrado a uma bandeira afegã e a um punhado de terra local, que havia prometido ao amigo do exército afegão trazer consigo. Todo o peso dos dias que passaram conduz-nos até aí e Zem representa-o da melhor forma. Infelizmente, já tanto se havia reescrito do Afeganistão e do que este pobre povo havia sido sujeito nas décadas de ocupação e continuará a passar no domínio talibã. 13 Jours, 13 Nuits olha para esta gente da mesma forma que a personagem de Lyna Khoudri, da ONG francesa, no jipe que a leva ao aeroporto para a evacuar: apenas caras que olham de volta com a maior das impotências.

Hugo Dinis

 

A imagem do povo em desespero é forte. É difícil esquecer o manto colorido que forma uma multidão à frente do portão da embaixada francesa em Cabul. É difícil esquecer também a imagem da massa de gente que se amontoa perante os portões do aeroporto, onde só aqueles apadrinhados pela embaixada têm a oportunidade de passar. Martin Bourboulon sabe-o, portanto repete o seu uso. Ainda assim, a força da população não é suficiente quer perante as forças talibã, quer perante as da NATO. Mohamed Bida (Roschdy Zem) é o comandante argelino com carreira na polícia francesa em missão no Afeganistão que não fala persa, mas negoceia com os talibãs o transporte até ao aeroporto e a libertação daqueles que encontraram refúgio no edifício da embaixada. Trava amizade com Eva (Lyna Khoudri), jovem francesa e afegã que acaba por se tornar na tradutora desta negociação, uma posição de perigo por se tratar de uma mulher frente aos talibãs.

O filme afasta-se da ideia de um “salvador branco”, mas mantém a de um salvador distante que se aproxima de quem implora pela sua ajuda. Mohamed – Mo – representa o sistema, ainda que contra ele atue nesta sua última missão militar. Baseada num livro onde o próprio comandante relata esta salvação simbólica do povo afegão, surge uma obra fílmica onde este é parcamente desafiado e sempre honrado, com pouca necessidade de levantar a voz, já que vão surgindo indivíduos em sua defesa. Embora motivado pela necessidade de “agir bem”, é quando o militar-personagem pretende não o fazer que acaba por cair em si mesmo. Bourboulon consegue, no entanto, trabalhar ação e, principalmente, a tensão de modo a que exista uma atração à narrativa que compensa a personagem unilateral, mas apenas enquanto o filme decorre. É curioso que o título destaque a duração da missão, já que esta parece corresponder a, no máximo, cinco dias. Existe uma tentativa simbólica da parte de Bourboulon de desenvolvimento de personagens femininas, que são corajosas apesar das circunstâncias. Contudo, esta é, de facto, a história de Mohamed Bida pelo povo afegão.

Maria Inês Opinião