Thunderbolts*, de Jake Schreier: Os Anti-Heróis Também Sentem

Carla RodriguesMaio 13, 2025

Em 2025, já ninguém vai ao cinema ver um filme da Marvel. Vai-se ver mais uma tentativa da Marvel. Depois de 35 filmes, várias séries e anos de conteúdo interligado, o Marvel Cinematic Universe está a funcionar por inércia. Mais do que gasta, a fórmula está esgotada. A avalanche de conteúdos e a necessidade quase burocrática de acompanhar dezenas de histórias cruzadas transformaram aquilo que era entretenimento em TPC. Ver um novo filme da Marvel deixou de ser um prazer para se tornar uma espécie de teste de fidelidade ao franchise. O resultado está à vista: seis dos últimos doze filmes do MCU ficaram aquém dos 500 milhões de dólares nas bilheteiras globais, números que, há alguns anos, seriam impensáveis para qualquer entrada neste universo.

É neste contexto de cansaço cinematográfico que surge o 36ª filme do MCU: Thunderbolts*, protagonizado por personagens secundárias, feitas de falhas, culpas e traumas mal resolvidos. Não são heróis. São os rejeitados. Os restos do catálogo. E talvez por rasgar, ainda que timidamente, com a convenção, o filme esteja uns quantos pontos acima dos últimos esforços da Marvel.

Thunderbolts* começa com Valentina Allegra de Fontaine (Julia Louis-Dreyfus, com um blazer e zero escrúpulos), uma sombria directora da CIA que, a braços com um processo de destituição, decide eliminar a equipa de mercenários que lhe tem feito o trabalho sujo. O plano? Fazê-los eliminarem-se uns aos outros, enquanto tenta criar um novo super-soldado para substituir os Vingadores. Mas reunir semelhante grupo de enjeitados acaba por resultar num cocktail de angústia existencial e sarcasmo que, contra todas as expectativas, os une.

Crítica Thunderbolts Marvel

Os desgraçados de serviço incluem Yelena Belova (Florence Pugh), uma assassina a passar por uma depressão; John Walker (Wyatt Russell), a meio caminho entre o Capitão América e um membro particularmente desequilibrado da NRA, Ava Starr/Fantasma (Hannah John-Kamen), Alexei Shostakov, mais conhecido como Guardião Vermelho (David Harbour em modo “mastiga o cenário”) e Bucky Barnes (Sebastian Stan), o único que parece ter um resquício de responsabilidade apesar dos seus traumas do passado. Sim, há paralelos com Guardiões da Galáxia na construção de um conjunto de desajustados unidos pela força das circunstâncias, mas este grupo está mais perto da sessão de terapia do que da salvação do universo. Ironicamente, é essa a sua força.

Crítica Thunderbolts Marvel

O realizador Jake Schreier faz o que pode com o material e o director de fotografia Andrew Droz Palermo (que já nos deu The Green Knight, um dos exercícios visuais mais ricos e atmosféricos da década) parece ter deixado a inspiração em casa. Thunderbolts* é escuro, plano e revela pouca ambição visual. Não há escala. Não há arrojo. E apesar de ser possível apreciar uma obra da Marvel mais pés-na-terra, não se consegue evitar sentir que se aproxima de uma estética made for TV.

Mas se é verdade que Thunderbolts* tropeça visualmente, encontra algum equilíbrio nas suas fundações narrativas. O guião de Eric Pearson e Joanna Calo não reinventa a roda, mas revela uma vontade clara de sair do piloto automático. Há aqui um esforço honesto de explorar temas densos; a depressão silenciosa, a culpa corrosiva, o vazio existencial que se instala quando já não se acredita em nada. O coração da narrativa está em Yelena, uma mulher quebrada, assombrada por decisões passadas e por uma solidão que se colou à pele. Já não confia em ninguém (muito menos em si própria) mas continua a avançar, cambaleante, à procura de qualquer coisa que se pareça com redenção. O sarcasmo que dispara não é escudo: é cicatriz.

São estas rachadelas emocionais que tornam Thunderbolts* uma entrada mais próxima da condição humana do que do escapismo habitual do MCU. Porque são os personagens frágeis e danificados que acabam por ressoar com os espectadores. Não os deuses, nem os mutantes de poder sobre-humano, mas aqueles que vivem com uma sensação de inadequação crónica. Os que se perdem, os que falham, os que sentem. Como não podia deixar de ser, Thunderbolts* tem as típicas cenas de ação, explosões e vilões com síndrome de excesso de exposição. Mas o que fica é a tristeza. A sombra da depressão a espreitar por trás de cada tirada acérbica. A tentativa, sincera (ainda que algo trapalhona), de falar sobre solidão, culpa e o que nos acontece quando nos isolamos, quando deixamos de acreditar em nós próprios.

Crítica Thunderbolts Marvel

Sem grandes surpresas para quem é familiar com o seu trabalho, Florence Pugh tem uma das interpretações mais fortes de qualquer entrada no MCU. Há mágoa nos seus silêncios, exaustão nos seus gestos. O mesmo não se pode dizer de boa parte do elenco: Wyatt Russell diverte-se e é divertido como John Walker, mas David Harbour exagera a tal ponto que parece andar à procura de uma comédia que este filme, apesar de tudo, não é; e Hannah John-Kamen é anulada por um guião que não sabe o que fazer com ela. A dinâmica entre os membros da equipa funciona aos solavancos. Por vezes há química, outras vezes não há sequer diálogo que valha a pena. A troca de picardias é irregular, muitas vezes forçada. Ainda assim, quando funciona, quando os membros da equipa se permitem ser frágeis em vez de engraçados, o filme ganha um peso dramático decente.

Crítica Thunderbolts Marvel

Claro que, no meio disto tudo, não podíamos deixar de ter um grande vilão. Que, por estranho que pareça, é o mais interessante em muito tempo neste universo de super-heróis. Não porque queira conquistar o mundo, mas porque, no fundo, é um personagem desfeito, para quem nada tem significado. É uma metáfora ambulante para a depressão: um ser que já não sente nada, que apenas quer arrastar o mundo para a sua própria escuridão. A metáfora pode não ser subtil (nada aqui o é) mas é eficaz. E, numa altura em que tantos blockbusters optam por um cinismo auto-paródico, há algo de admirável na seriedade quase ingénua com que Thunderbolts* trata os seus temas.

Thunderbolts* não é um grande filme. Não muda o rumo da Marvel. Não salva o MCU. Mas oferece uma coisa rara nestes filmes: humanidade. Por entre os tiros, os socos e o CGI, há momentos genuínos que nos lembram de que, mesmo nos filmes mais comerciais, ainda é possível sentir qualquer coisa.

Pode não ser o filme que vai redefinir o género. Mas é, talvez, aquele que nos recorda porque é que gostávamos dele, em primeiro lugar.

 

Carla Rodrigues