The Devil Wears Prada 2, de David Frankel – O Diabo Já Não é o que Era

Raquel SampaioMaio 20, 2026

Há sequelas que nascem para alargar um universo e há sequelas que nascem porque o original passa tantas vezes na televisão que se tornou uma espécie de filme de culto. The Devil Wears Prada 2 pertence claramente à segunda categoria, ainda que tente, com algum esforço, fazer-se passar pela primeira. Vinte anos depois do filme de 2006 que transformou o romance de Lauren Weisberger em fenómeno de cultura pop, David Frankel e Aline Brosh McKenna regressam à sua própria criação com o elenco quase intacto, alguns vestidos de cortar a respiração e uma ideia que, no papel, fazia todo o sentido: confrontar a Runway com a derrocada da imprensa tradicional. O problema é que, entre a premissa e a execução, perde-se quase tudo o que tornava o original memorável. Anne Hathaway volta a vestir a pele de Andy Sachs, agora jornalista séria, prestes a receber um prémio de carreira quando descobre que todo o seu departamento acaba de ser despedido por mensagem de texto. A cena é eficaz e dolorosamente atual. É também o melhor princípio que o filme poderia ter: Andy é arrastada de volta para a Runway, agora em queda livre, para tentar salvar uma revista que, nas palavras lapidares de Miranda, está “so thin that you can practically floss with it”.

 

 

E é aqui que Meryl Streep faz aquilo que se espera dela e, por momentos, um pouco mais. Esta Miranda Priestly não é a tirana inabalável de 2006. É uma mulher que percebeu que o mundo deixou de precisar dela e que o ofício a que dedicou a vida está a ser engolido pela tirania do “conteúdo” — palavra que o argumento, com humor, faz soar a praga sempre que alguém a pronuncia em voz alta. Streep joga essa derrota em surdina, sem nunca o sublinhar, e é nesses momentos de hesitação que o filme parece, finalmente, ter qualquer coisa a dizer. O problema é que nem Frankel nem McKenna parecem saber bem o que fazer com essa Miranda mais frágil: ora a amaciam, ora lhe devolvem a maldade do primeiro filme como quem cumpre um contrato com o público, e o resultado é uma personagem ziguezague, sem direção clara. O mesmo se aplica, infelizmente, a quase todos os outros. Stanley Tucci continua a ser Stanley Tucci e o seu Nigel é o único que parece ter atravessado vinte anos com coerência. Emily Blunt, agora a trabalhar para a Dior, tem alguns dos melhores momentos do filme, sobretudo no reencontro com Andy, que é descaradamente feito para o público fiel e ainda assim funciona. Já as novas adições — as assistentes interpretadas por Simone Ashley e Caleb Hearon, ambos com potencial — desaparecem nos esboços. Helen J. Shen, como a nova assistente que espelha a Andy de outrora, é uma presença bem-vinda, mas o argumento não lhe oferece arco verdadeiro.

O verdadeiro problema, contudo, está no motor narrativo. Andy quer uma entrevista com Sasha Barnes (Lucy Liu), bilionária em vias de divórcio que quer canalizar a sua fortuna para causas femininas, e que supostamente representa a salvação da revista. É a versão The Devil Wears Prada do manuscrito inédito de Harry Potter, mas sem a urgência narrativa que o primeiro tinha. Liu faz o que pode, mas a personagem nunca convence enquanto figura decisiva, e o filme apoia-se nela para sustentar um terceiro acto que, em rigor, não se sustenta. Os novos interesses românticos de Andy e Miranda, entregues respetivamente a Patrick Brammall e Kenneth Branagh, ficam-se pela boa-vontade: há atores em cena, mas não há actuação. E é aqui que o filme tropeça mais gravemente: na resolução. Onde o original tinha um gesto moral claro (Andy a libertar-se de um mundo que a estava a consumir), esta sequela escolhe o caminho mais ingénuo possível: uma bilionária “boa” a resgatar o jornalismo dos garras dos bilionários “maus”. Numa altura em que vemos diariamente o oposto a acontecer no mundo real, em que multimilionários compram, esvaziam e descartam jornais com a mesma facilidade com que mudam de iate, a fantasia soa não a esperança mas a fuga. É como se o filme, depois de ter começado a olhar de frente para a crise dos media, tivesse ficado assustado com o que viu e decidido fechar os olhos.

 

 

Visualmente, também se sente a perda. A sequência de abertura do primeiro filme, que apresentava Miranda quase como se fosse uma curta-metragem editada com bisturi, não tem aqui equivalente. Molly Rogers, que substitui Patricia Field no guarda-roupa, estabelece com competência o estilo amadurecido de Andy, mas há escolhas que confundem (uma camisa Dior com a marca em letras gigantes que ninguém na verdadeira Dior toleraria). O cerúleo regressa, claro, e há o prazer reconfortante de rever pessoas que conhecemos há vinte anos. Mas o reencontro, por si só, não chega. The Devil Wears Prada 2 não é um desastre. Há cenas que funcionam, atores em forma e momentos genuínos de melancolia sobre o estado da imprensa. Mas é um filme que parece ter sido escrito por um comité editorial em pânico: tenta agradar aos fãs, atualizar-se em relação ao tempo, dizer alguma coisa séria sobre o mundo e, ao mesmo tempo, oferecer uma fantasia confortável. No final, não cumpre nenhuma destas missões, mas a verdade é que tem funcionado junto do público, tendo amealhado mais de 500 milhões no box office contra um orçamento de 100. Duas estrelas, dadas sobretudo a Streep, Tucci e Blunt, que continuam a merecer um filme melhor do que aquele que aqui lhes calhou.