Confidente, de Çagla Zencirci e Guillaume Giovanetti – A Mensagem é o Meio

Hugo DinisAgosto 27, 2026

Na sua intenção e abrangência, Confidente é um bom exemplo do tipo de artigo de consumo nos festivais modernos. No caso, a produção franco-turca foi exibida na Berlinale do ano transacto. Do ponto de vista da sua intencionalidade, Confidente coloca-se por inteiro ao serviço da sua mensagem de empoderamento feminino. Centrado no contexto de um centro de chamadas eróticas, a narrativa segue a luta de Sabiha (Saadet Işıl Aksoy), uma jovem mãe solteira a braços com um divórcio acrimonioso e uma batalha pela custódia do filho, a lidar com um pedido de ajuda pessoal após o terramoto de Istambul de 1999. A imagem da dupla de cineastas Guillaume Giovanetti e Çagla Zencirci concorre para este fechamento das paredes em torno de Sabiha. Percorremos longos planos fechados sobre a sua face, informados pela sua expressão crescentemente impotente para alterar aqueles que o rodeiam. Quando o seu destino se intromete com as suas boas intenções, Sabiha é sobretudo filmada enquanto vítima. Impotente, é certo, mas um reservatório de decência moral.

Os clientes vão do desespero ao macabro, mas estão longe de ser mais do que meros espectros que Confidente coloca ao dispor da moralidade de hoje. Se é possível julgá-los, Confidente faz alarde de não o fazer, não deixando de se colocar verdadeiramente à margem do centro de chamadas eróticas, populado por chefes abusadores e colegas indiferentes. Sabiha é apresentada como alguém sem exemplo neste meio, a única mulher que ambiciona um local de trabalho diferente perante o isolamento a que as outras operadores lhe sujeitam quando percepcionam algum tipo de favorecimento ou destaque pessoal por parte de um chefe reptiliano. Mas se Sabiha não pertence a este mundo, a mensagem, ainda que bem intencionada, acaba por ser um tiro à água e não ao porta-aviões. O rapaz que procura retirar dos escombros enfrenta a imoralidade corrupta de um responsável político de renome e uma rede de interesses obscuros em torno da forma como a sociedade turca encara o conceito de desejo sexual.

 

 

A imagem fecha-se ainda mais sob o rosto de Sabiha à medida que ela define o seu próprio destino, mais por uma série de felizes acasos que de genuínas opções, mas o preço a pagar pelas suas boas intenções é limitado e reduzido à sua exposição enquanto profissional da indústria do sexo. À saída do centro de chamadas, passa por uma sala comum, outrora cheia de colegas em permanente estado de intimidade plástica, Sabiha está sozinha. Uma mulher contra tudo. O herói hollywoodiano na sua jornada individual. A traição de um ethos feminino verdadeiramente comunitário e interseccional.

 

Hugo Dinis