Competição Nacional IndieLisboa – Segundo Amor: Uma Conversa com o Realizador

Rafael FonsecaMaio 5, 2026

Durante o verão, Saura e Filipe, outrora profundamente ligados, começam a afastar-se. Enquanto tentam perceber o que resta entre eles, a sua linguagem muda e, com ela, o grupo de amigos que partilham: Segundo Amor teve a sua estreia mundial no passado Sábado, no Grande Auditório da Culturgest, e voltou a passar ontem, Segunda-Feira, no Cinema São Jorge, no âmbito do indieLisboa. Trata-se de um filme rodado de forma completamente independente. No seguimento das críticas de dois tribunos a esta primeira longa-metragem de Rodrigo Braz Teixeira, tivemos uma breve conversa com o realizador sobre este que é também um dos filmes com mais buzz nesta Competição Nacional.

 

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Rodrigo, temos de começar por uma coisa que salta aqui à vista, que é o teu background único enquanto realizador. Falaste-me há pouco que vens da Física.

É verdade, sim. Estou a acabar um doutoramento em Biofísica. Quando tive de decidir, que foi muito cedo, decidi estudar Ciências. Primeiro no ensino secundário, e acabei depois por escolher Física Teórica para estudar no ensino superior. Na altura estava um pouco indeciso entre Física ou Cinema. Apercebi-me que não haviam cientistas que não tinham estudado, mas havia bastantes realizadores sem educação formal nessa área. Como gostava das duas coisas, fazia mais sentido estudar Física.

A paixão pelas duas coisas estava presente desde cedo, então.

O cinema veio de uma forma muito natural. Com o meu melhor amigo, o Filipe Cates [protagonista de Segundo Amor], começámos a fazer curtas mesmo muito cedo, a brincar com a câmara — começámos a filmar no 5º ano. Desenvolvemos esse gosto e depois seguiu-se fazer coisas com mais tempo e mais atenção.

Na estreia do teu filme, mencionaste que começaram a filmar dois dias depois da tua curta Miraflores (2021) ter sido exibida nos Novíssimos do IndieLisboa desse ano. Fala-nos um pouco desta rodagem.

O filme foi rodado durante quatro anos. Foi uma coisa que se estendeu ao longo do tempo, o que teve a ver com a minha proposta inicial do filme: um que se ia fazendo cena a cena. Tinha uma ideia de onde é que íamos começar, onde é que íamos acabar, mas foi filmado de uma forma dispersa. Como o Filipe e a Saura [protagonistas do filme] vivem em Londres, quando os conseguíamos ter em Lisboa, filmávamos sempre. Calhava sempre por ser no Verão, também.

 

Miraflores (2021), de Rodrigo Braz Teixeira

 

Os intérpretes do filme são portanto o teu grupo de amigos. Dizes inclusive nos créditos que o filme foi escrito por ti e por eles.

Exactamente. Um dos meus maiores interesses era captar a linguagem própria deles. O filme, além de falar de um casal, fala de um grupo de amigos, que é real. São relações que duram há muito tempo, então têm muitas expressões e muitas coisas que fazem parte do nosso grupo. Queria muito captar isso. Achei que a melhor forma de o fazer era incluí-los no processo de escrita. Eu escrevia uma base e depois eles só diziam as coisas que lhes eram naturais, e que lhes soavam naturais.

É muito utópico teres colocado isso em prática, do fazer um filme com os amigos. Normalmente, falo da minha experiência, a malta corta-se às coisas…

Não foi fácil, e nem sempre é tão bonito quanto parece. Nem sempre é tão romântico. Mas conseguimos que funcionasse. Foi também um esforço colectivo, é um entendimento que se foi desenvolvendo. As pessoas que me ajudaram conhecem-me bem, e acho que percebem o que eu quero. Também lhes dei muito espaço para falhar, para dizer que não — houve muitas cenas que foram logo bloqueadas de início porque os intérpretes não se identificavam tanto. Foi sempre uma troca. Nunca exigi nada. Quer dizer, pronto, eles se calhar dirão de outra forma [risos], mas foi sempre uma coisa muito de respeito e de confiança. A proposta de fazer filmes com os amigos é uma coisa que toda a gente já pensou. Nem sempre é fácil de concretizar. Com tempo e paciência, aqui conseguiu-se.

Algum dos intérpretes tem formação, ou são todos não-actores?

O Filipe e a Saura têm formação profissional em representação, estudaram os dois em Londres. Os restantes são não-actores. Mas por nos conhecermos muito bem,  há uma comunicação mais fácil.

Sendo que também tu não tens formação profissional em cinema. Onde dirias que foste buscar uma “educação”, ou não sentes que isso seja uma questão?

Tentar fazer filmes e ver filmes, acho que são essas as minhas duas formas de aprendizagem. Agora começo a ficar cada vez mais curioso, em tentar perceber a parte mais teórica, por exemplo. Mas até agora foi muito tentativa e erro. Repetir até acertar.

 

Segundo Amor (2026)

 

O teu filme abre com um casal na praia, mas cortamos brevemente para o que parecem ser umas férias de um grupo de amigas. Só mais tarde é que percebemos aqui uma junção.

Acho que o Segundo Amor fala sobre dois tipos de relação: relações românticas e relações de amizade. No início somos um bocado expostos aos dois tipos. Ao longo do filme vai-se percebendo a relação entre as personagens. Inicialmente, muito inicialmente, estava a fazer dois filmes, um sobre o casal e outro sobre o grupo de amigas. Só depois decidi juntar tudo. Esta forma como o filme se foi desenvolvendo acabou por estar também espelhada na montagem.

O montador foi o meu irmão, sendo que eu estive presente no processo do início ao fim. Durou dois anos, se calhar. Foi muito tempo. Rodando um filme sem uma estrutura fixa, quando chegas à montagem é quando precisas de o fixar.

Houve muita coisa que ficou de fora?

Sim, mas a maioria foi no sentido de cenas que fomos repetindo até chegarmos onde queríamos. Muito do material são versões alternativas das cenas que temos. À medida que o filme se foi desenvolvendo e que fomos percebendo o que era, aconteceu menos, porque já estávamos a encaixar as coisas.

Quando mostraste o filme à produtora David & Golias, que te apoiou com a pós-produção, o tempo de duração era muito maior, certo?

Assim que tive o primeiro corte, que era outro filme, fui falar com a David & Golias. Tinha quase duas horas. A parte mais difícil do filme foi tentar fechar o corte. Como o processo de filmagem também se estendeu durante muitos anos, o filme teve bastantes ideias: no final tivemos de arranjar uma que funcionasse, ou poucas que funcionassem. O meu irmão aí foi muito importante. Como eu também tinha estado a filmar as cenas, tinha uma relação muito pessoal com tudo, e precisava mesmo de alguém que não a tivesse. O meu irmão entrou, viu o corte que eu tinha feito, começámos a falar do que é que eu queria, o que é que ele não percebia, o que podia ser feito. Na altura as histórias estavam um bocadinho mais separadas, daí o corte estar com duas horas. E estavam mais exploradas, também, mas acabavam por ficar mais dispersas. O filme abria muitas questões que depois não voltávamos a tratar.

 

Segundo Amor (2026)

 

Tens no filme uma participação especial de uma grande artista portuguesa, a Lula Pena.

Ela aparece no filme num momento chave — era uma coisa que eu queria muito que acontecesse. Já a conhecia porque admirava muito o trabalho dela. Uma coisa que gostei muito na ideia foi ter uma artista portuguesa a cantar uma música em espanhol — no filme, o rapaz é português e a rapariga é espanhola… há esta espécie de linguagem que eles têm entre um e o outro que é uma coisa entre as duas línguas. Fiz o convite à Lula Pena, ela estava a fazer uma residência na altura nos Açores. Tentei escrever uma carta para lá, mas acho que se perdeu a carta. Depois escrevi outra carta… chegou ao destino. Depois, foi filmar essa cena, que foi mágica. Gosto muito da Lula Pena, acho que ela é mesmo uma figura mítica, e acho que deu ali uma magia ao filme. Filmámos no Templo da Poesia em Oeiras, que é ali no Parque dos Poetas.

E és natural de Miraflores, localidade que deu o nome à tua primeira curta. Para terminar, sentes que nas duas partiste do mesmo poço criativo, digamos, ou houve aqui uma evolução?

Acho que o Segundo Amor começou exactamente do mesmo sítio onde o Miraflores começou. Isso foi uma das dificuldades que eu tive no início, não ter passado tempo suficiente para eu saber o que queria de diferente. Mas depois acho que houve uma evolução enorme, do sítio de onde eu quero que os filmes venham… Para os próximos também vejo uma diferença. Acho que nós esgotámos agora um bocado a nossa vida pessoal — fomos mesmo explorar isso e tentar fazer o filme mais pessoal que conseguimos. Agora tenho algum interesse em fazer um filme que tenha uma visão mais de social, de cultura, que não seja uma coisa tão de escavar e de trabalho interior, com uma visão exterior maior.

 

Rafael Fonseca