Competição Nacional IndieLisboa – Óculos de Sol Pretos: Uma Conversa com o Realizador

Rafael FonsecaMaio 1, 2026

João (Henrique Gil) e Clara (Júlia Valente) estudaram juntos na universidade. Ele está desempregado, ela trabalha em cinema. Um dia, Clara convida João para vir trabalhar com ela, enquanto assistente de produção, na rodagem de um filme. Estamos perante “O novo boy meets girl do Cinema Português”, diz-nos o poster. Veremos que a frase tem dupla leitura, naturalmente, num filme sobre filmes: é também no cinema português que se dá este encontro entre os dois. Segue-se “uma comédia melancólica” sobre as dinâmicas de uma equipa de produção, a travessia que percorrem, invariavelmente juntos.

Falamos de Óculos de Sol Pretos, primeira longa-metragem de Pedro Ramalhete, e que é um dos filmes mais aguardados deste IndieLisboa 2026.  Depois de uma estreia absoluta no Festival Internacional de Cinema da Província de Buenos Aires em Setembro, e depois de ter passado há pouco tempo em Vilnius, na Lituânia, para o início da competição itinerante Smart 7, de que o IndieLisboa também faz parte, Óculos de Sol Pretos tem a sua estreia nacional, em competição, marcada para dia 3 de Maio, no Cinema São Jorge. Quisemos ir ter com o realizador para uma conversa em jeito de antevisão, sem revelar surpresas, deste filme que tanta curiosidade suscita.

 

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Pedro, a pergunta de aquecimento: como é que surgiu este filme, ou quais são as origens que recordas deste projecto?

Entre assistente de realização, director de produção, assistente de produção, etc. tenho feito a minha vida pós-[Escola Superior de Teatro e Cinema] nessas funções, sou maioritariamente técnico de cinema. Quando chegou a pandemia, foi uma suspensão de tempo que me permitiu não ter desculpas para não escrever um filme — a tempo inteiro, não ter outra coisa para fazer senão estar diante das minhas ideias.  Há talvez um lado de complemento a uma terapia, no sentido de querer expurgar algumas coisas que fui vivendo enquanto técnico.

Mas trata-se de facto de uma comédia?

Nunca pensei no sentido de “vou escrever uma comédia”, “vou escrever um drama”. Acho que esse exercício de retrospectiva e de introspecção levou-me a aligeirar coisas que tinham um pendor mais forte, mais intenso para mim, a rir-me de coisas que, obviamente, são extrapolações e exageros de coisas que aconteceram verdadeiramente. Acho que a comédia está lá.

E como é esta história então? Um boy meets girl

Estamos a brincar com algumas expectativas, a criá-las, a subvertê-las. Talvez a ideia mais forte inicial era: queria fazer um filme cujo protagonista não tivesse a energia de um protagonista. Ele veste-se de preto, tem uma energia trapalhona, meio awkward. É o protagonista do filme e, ao mesmo tempo, não parece nada, podia ser um extra, um figurante. João também é um dos nomes mais comuns, se não o mais comum, portanto também dá essa ideia de banalidade naquela pessoa. Já a ideia de um boy meets girl remete para uma consumação. Se calhar não é a mais óbvia. E eu aí não quero ir mais adiante, deixo ao critério de quem vê que consumação é essa e o que é que ela significa.

 

 

Pois, o João é assim um gajo meio perdido…

Dei ao [Henrique Gil, actor principal], a ver o Kaurismäki, as personagens dele… Procurámos esse lado deadpan, meio perdido, melancólico: o mundo parece uma feira alegórica e os protagonistas são cinzentões, são pesados, e há um género de graça que levita daí. No Óculos de Sol Pretos, o mundo tem uma vida própria, e é bastante intenso, e o mundo interior do João é uma coisa muito para dentro, muito encerrada sobre si própria, o que quer fazer, os seus sonhos. O filme trabalha esta ideia de uma personagem super ingénua — essa palavra também esteve muito presente. Acho que é um filme bastante ingénuo. O João ainda tem uma doçura qualquer, uma crença no lado colorido do sonho, desta aproximação ao outro. Às vezes fala-se da ingenuidade como uma coisa má, e acho que está a fazer falta voltarmos a ser ingénuos — se quisermos agora falar um pouco do estado do mundo, da forma como lidamos uns com os outros.

Tem de facto os seus sonhos, quer escrever um argumento. O convite da Clara para vir trabalhar com ela em set ajuda-o nesse sentido?

A presença em set é o princípio da ligação ao lado mais real das coisas, em que o sonho acaba um pouco e a vida real ganha alguma matéria. Às vezes estamos três, quatro horas à espera para fazer um plano. Perdemos mais tempo a preparar do que propriamente a filmá-lo. Sonhar com o cinema parece uma coisa imediata. Fazer cinema é tudo menos imediato. Então, há essa ideia de ele quase esbarrar contra uma parede no sentido em que o sonho dele vai ter de acalmar, tem aqui uma parede no meio: é a vida real, são as pessoas, cada uma com a sua personalidade.

 

 

E os sets de rodagem geralmente têm muitos momentos tensos…

São horários muito intensos, muitas horas de trabalho, parece que é um contínuo. A folga serve para descansares um pouco mas não dá para desligares o chip, então estás sempre nesta nuvem mental do set. Há coisas no filme que são muito graves, se pensarmos, se aquilo acontecesse realmente, são coisas que são perversas, que dificilmente se voltaria a ser amigo de uma pessoa que fala de certa forma. O João tem de se provar, há muito esta coisa de, é o novato, tem de se provar de alguma forma para fazer parte do clã.

A própria rodagem deste filme, foi stressante?

Stress há sempre, acho que faz parte do trabalho, mas foi super feliz. Acho que ninguém me deixa mentir, e que todas as pessoas que fizeram o filme sentiram isso: uma rodagem onde o amor era assim um sentimento geral. Também vinha do início, da palavra escrita, da forma como lhes apresentei o projecto. Fiz também questão de falar pessoalmente com as pessoas que não conhecia, de ter o menos agentes a mediar a relação realizador-actor, para sentirem que havia uma proximidade, e uma vontade muito grande de fazer este filme e fazê-lo desta forma.

Entre colaboradores teus de projectos passados, colegas e amigos, o filme foi feito em família. Convidaste toda a gente, estilo uma grande reunião?

Estava um bocado farto de não ser feliz em rodagem. Já que tive a oportunidade de ser eu o maestro, de alguma forma, quis fazer um filme em que estivesse confortável. E não no sentido de estar sentado e dar ordens, mas de poder falar com as pessoas e sentir que elas confiavam em mim e que não me iam falhar, ou que se falhassem e estivessem inseguros havia a capacidade de diálogo. Há no filme muitos actores e não-actores que são meus amigos. O primeiro esqueleto de elenco e de equipa foram pessoas com quem já tinha trabalhado, ou que já tinham feito filmes meus, ou com quem já tinha ido à noite beber copos. Depois, também pessoas com quem eu queria muito trabalhar: o Marco Mendonça, por exemplo, a Vera Barreto. Por sorte, obra divina ou não, entraram muito bem no comprimento de onda do filme.

 

 

E os dois protagonistas?

Foi um processo de casting demorado e difícil. Houve muitos actores a fazer casting. Tive muita sorte com o Henrique e com a Júlia, ainda por cima no sentido de terem de carregar o filme às costas, de alguma forma. Foi também um toque divino.

O teu filme é também um filme de citações, desde uma projecção do Silvestre (João César Monteiro, 1981) na Cinemateca, à presença do actor Luís Lucas, a um grupo de marinheiros vestidos de branco em São Pedro de Alcântara…

Silvestre é um filme que eu adoro e é uma grande referência para mim. Tenho a sorte de ser amigo da Margarida Gil, e ela gentilmente cedeu-me o filme. Também tenho a sorte de ser um filme que começa com uma música, e que servia narrativamente para introduzir qualquer coisa ligada ao campo do onírico. Quanto aos marinheiros — nasci nos anos 90; não vivi Lisboa nos anos 90, mas sou de Lisboa, tenho familiares que viveram nessa altura. E percebo uma presença muito forte de marinheiros, nem que seja pela BDs que eles leram, do Corto Maltese, por exemplo. Esta presença de marinheiros que paravam em Lisboa, que estavam no Cais do Sodré, preencheu o meu imaginário, não só no cinema…  [Há em] José Álvaro Morais, o César Monteiro também tem, o próprio Miguel Gomes tem um marinheiro logo no primeiro filme, A Cara que Mereces (2004), se não é no primeiro plano, é dos primeiros. Há um lado de imaginário que eu nunca percebi bem, mas que sempre esteve muito presente. As pessoas que fazem de marinheiros no Óculos de Sol Pretos também são amigos meus, profissionais do cinema, por isso há uma confluência do mundo afectivo, pessoal, imagético.

Estás hyped para esta estreia?

Estou, super. É sempre muito bom mostrar à malta, aos amigos, à família, ao pessoal que faz cinema. Estou expectante em relação a encher a sala com profissionais da área. Acho que vai ser bom alimentar essa conversa:  falar do cinema português, não como ele se comporta nas salas, ou qual a sua relação com o público — mas enquanto craft. Trazer os nossos técnicos, as nossas pessoas à conversa. O meu plano preferido do filme, é um plano imperfeito, mas é um grande plano do Manuel Ramos, o Manuel dos Cavalos, um dos grandes maquinistas do cinema português. É um [momento] em que se junta uma coisa onírica, como uma personagem a ser transportada num chariot, com uma música que eleva o espírito de alguma forma. E há esse grande plano. Se há homenagem que consegui transmitir, acho que foi essa. E acho que os técnicos de cinema vão perceber isso. Foi uma maneira de os trazer para este lado da câmara.

 

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Óculos de Sol Pretos tem a sua estreia nacional no próximo dia 3 de Maio, na sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge, às 21:30. O filme volta depois a passar na Sala 3 do São Jorge, dia 6 de Maio, e no Cinema Ideal, dia 9. Irá posteriormente, como parte da competição Smart7, marcar presença em festivais homólogos em Espanha, Roménia, Polónia, Islândia e Grécia.

 

Rafael Fonseca