Ciclo Shimizu Tardio: Entrevista ao programador Miguel Patrício – Mestres Japoneses Desconhecidos

David BernardinoAbril 14, 2026

Os anos recentes da exibição de cinema em sala em Portugal foram marcados de forma indelével pelos ciclos programados por Miguel Patrício juntamente com a produtora e distribuidora The Stone and the Plot, conhecidos por Mestres Japoneses Desconhecidos, onde deram a conhecer diversos nomes da realização daquele país dos anos 50 e 60 tais como Yasuzo Masumura, Tomotaka Tasaka, Kirio Urayama. Houve também espaço para uma retrospectiva de 6 filmes realizados por Kinuyo Tanaka, mais conhecida pelo grande público através do seu trabalho como actriz em obras como “Ugetsu”, de Kenji Mizoguchi, “O Barba Ruiva”, de Akira Kurosawa ou “A Flor do Equinócio”, de Yasujiro Ozu.

Após um hiato de pouco mais de um ano, a iniciativa está de volta com o novo ciclo “Shimizu Tardio“, onde serão exibidos três filmes inéditos do mestre japonês por descobrir Hiroshi Shimizu: “O Idiota Sentimental” (1956), “Crianças à Procura de Mãe” (1956) e “A Dançarina” (1957). Serão ainda revisitados “O Som do Nevoeiro” (1956) e “Imagem de Uma Mãe” (1959), duas obras primas de Shimizu que fizeram correr tinta em 2023 quando foram considerados por algumas publicações alguns dos “melhores filmes do ano” por via da sua estreia inédita em sala no nosso país.

Os cinco filmes estarão em exibição a partir de dia 16 de Abril em Lisboa, no Cinema City Alvalade, com sessões diárias ao longo dos dias, incluindo 3 sessões especiais com a presença do programador Miguel Patrício. Três dos cinco filmes podem também ser vistos no Cinema Medeia Nimas em Lisboa; na Casa do Cinema de Coimbra; nos Cinemas Castello Lopes Sintra, Santarém, Maia, Guimarães; e nos Cinemas NOS Amoreiras, em Lisboa, e Cinemas NOS Alameda, no Porto.

David Bernardino reuniu-se com Miguel Patrício, programador do Ciclo Shimizu Tardio, para uma conversa sobre estes realizadores japoneses desconhecidos, Shimizu em particular, o processo de programação e as suas dificuldades, e ainda a relação destes ciclos com um público português cada vez mais atento.

 

Miguel Patrício durante o Screenings Funchal em 2023

 

Os Mestres Japoneses Desconhecidos regressam a Portugal após um ano e três meses com o ciclo Shimizu Tardio. Porquê tanto tempo para o regresso?

Embora desde 2021 tenhamos apostado (eu e o Daniel Pereira da The Stone and the Plot) na chancela “Mestres Japoneses Desconhecidos”, trazendo filmes nunca ou raramente exibidos fora do Japão, e realizando até agora quatro edições, a verdade é que não consideramos este novo ciclo, “Shimizu Tardio”, um quinto tomo dessa empreitada. Ele nasceu, é certo, da experiência de programar dois filmes do Hiroshi Shimizu, em 2023 e 2024 (Mestres Japoneses Desconhecidos III e IV), filmes que agora também repomos por terem sido pequenas revelações junto do público. No entanto, há um conjunto de características que este ciclo não partilha com os “Mestres Japoneses Desconhecidos”, a começar logo pela evidente quantidade subsumida em ambos os títulos. Se os “Mestres” implicam uma pluralidade de visões, estilos e até temporalidades descontínuas, “Shimizu Tardio” aponta para a singularidade de um autor num período de tempo também ele específico. Neste sentido, podemos estar mais próximos aqui de outro ciclo japonês que organizámos em 2023, a “Integral Kinuyo Tanaka”, mas também esse era diferente por varrer a curta (mas intensa) filmografia de uma cineasta. Com o Shimizu não o poderíamos fazer dada a extensão da sua obra…

Através da experiência de programar “O Som do Nevoeiro” e“Imagem de uma Mãe” achei que era necessário desenterrar os outros filmes que correspondem aos últimos anos da carreira do Shimizu, cuja inacessibilidade, até para mim, os envolvia numa aura misteriosa que está na base de qualquer sedução: seduzimo-nos pelos vestígios daquilo que não conhecemos. Quando conhecemos, mortificamos, embalsamamos. A ignorância tem muito poder, sobretudo porque ela não fica quieta ou envergonhada num canto qualquer de uma sala com orelhas de burro. Pelo contrário, move-se subterraneamente e está sempre parasiticamente colada às nossas costas, fabricando conhecimento. No caso dos cinéfilos, como dos virgens apaixonados (e eu defendo que vive um virgem anisoso em todo o cinéfilo), o desconhecimento de um filme que não vimos mas que nos desperta interesse facilmente se converte num rêverie fantasiosa onde um fotograma nos acicata o espírito ou um cartaz nos faz projectar imagens em movimento que são, aliás como todas as outras, miragens da nossa mente, um pouco como acontece quando se fazem aquelas associações febris e indevidas no momento em que nos apaixonamos: os olhos de uma mulher que obrigatoriamente ostentam os seus hábitos refinados de leitura, um silêncio ecuménico que se interpreta como profundidade absoluta, etc.

A extensão da minha resposta talvez conceda uma pista em relação à pergunta da demora entre ciclos. Não estou só dependente da minha vontade para montá-los, e mesmo se só dependesse dela, demoraria o tempo proporcional ao da minha resposta agora. Na verdade, esta questão do tempo é fundamental: qual o tempo que faz justiça às coisas? Para nós, um ciclo de três filmes por ano sempre nos pareceu uma afinação apropriada porque, para além de termos de obedecer aos calendários dos apoios e da distribuição/exibição (o vento inconstante e traiçoeiro que possibilita o nosso barco velejar), acreditamos que a concentração promove a atenção.

Muito se tem falado no decréscimo da qualidade e do tempo da atenção numa era cercada pela oferta e pelo fantasma substitutivo dos avanços tecnológicos. Penso que contrariar essa tendência equivale necessariamente a subscrever a máxima do Mies van der Rohe de que menos é sempre mais. Há, sim, qualquer coisa de desumano na multiplicidade infinita, é um chapéu que não nos serve. Reduzir, sintetizar, decompor, são esses os sapatos que calçamos – infelizmente não damos para mais. Duvido que consigamos mudar este dano irreparável que se faz sentir não só na maneira como “consumimos” cultura, mas principalmente no modo como lidamos uns com os outros. Resistir é sempre um caminho, sobretudo para aqueles que temperamentalmente não têm muito mais escolhas. O espectador contemporâneo de cinema é alguém que tem imensos amigos mas não tem tempo para escutar, conversar, dedicar-se a nenhum deles. Não acredito em jantares de grupo com mais de seis pessoas, assim como não acredito em festivais de cinema com mais de cem filmes.

 

O Idiota Sentimental

 

Que dificuldades sentiram e como é o processo de concretização deste ciclo?

Em certo sentido, as dificuldades são sempre as mesmas desde o primeiro ciclo dos “Mestres”. Qualquer programador (não só em Portugal) dirá que exibir cinema japonês é um desafio constante: pelos preços praticados (mesmo para filmes antigos como os nossos), pelas dificuldades de comunicação, diferenças culturais e por um franco desinteresse nos mercados e no espectador internacional. O Japão, devido à sua insularidade, sempre foi auto-suficiente na sua cultura e reticente na sua partilha e miscigenação: basta ler um pouco de História para dar conta dos traumas aquando das várias aberturas ao exterior, e mesmo hoje em dia, um termo como gaijin (estrangeiro) é usado corriqueiramente em contextos sociais sem qualquer pudor discriminatório. Um cineasta como Yasujiro Ozu foi visto, durante décadas, pelos próprios japoneses como demasiado japonês para os ocidentais decifrarem e isso explica o atraso na sua difusão e aclamação mundial. Sei que sou suspeito, dada a minha obsessão quase monomaníaca nesta cinematografia, mas considero que, entre todos os cinemas mundiais, o japonês é aquele que ainda guarda mais segredos e cujo acesso permanece mais vedado, por estas e outras razões. Costumava dizer que escolhi o pior cinema para trabalhar, mas agora digo que foi ele que me escolheu. Só isso pode explicar a insistência nesta “carreira” quixotesca que pressupõe romantismo, inconsciência, ou ambos.

Para além disso, devido a circunstâncias que fogem ao nosso controlo, a realização deste ciclo será feita sem quaisquer apoios. Esta foi, sem dúvida, a maior provação por que tivemos de passar e, após várias conversas, decidimos, eu e o Daniel, avançar mesmo assim. Se for o caso deste ser o nosso último ciclo de cinema japonês, queríamos ao menos fechar portas com o Shimizu, cineasta de uma finura lancinante, conhecido pelos seus finais tristes, filmados muitas vezes em travellings infinitos (como n’”O Som do Nevoeiro”) que desaguam na escuridão do ecrã, desacelerando mas não parando. Espero que não – mas foi um pouco como escolher o bouquet de flores mais bonito para pousar sobre o caixão que nos há de finalmente acolher.

Enquanto programador sente que o público está cada vez mais à espera dos ciclos? Como tem sido a adesão e recepção ao longo dos anos?

A adesão tem crescido de ano para ano, sem dúvida. Para mim, comove-me qualquer espectador que, de livre vontade e sem compromissos afectivos, se desloca a um cinema para ver filmes japoneses nunca estreados a preto-e-branco. Sobretudo, se tivermos em conta as pessoas que todos nós somos e os hábitos do mundo em que vivemos (julgo, talvez erradamente, que a segunda ordem de coisas é consequência da primeira, e não o contrário). Do ponto-de-vista dos exibidores, as intenções contam pouco e os espectadores são números numa folha de excel, e claro que essa dimensão é importante para medir o impacto que os filmes poderão ter tido e a sua continuidade em sala, visto que não podemos entrar na cabeça de uma multidão (parafraseando o Lichtenberg, é impossível carregar a tocha da verdade numa turba sem queimar umas barbas). No entanto, o espectador comum que vai à descoberta, fora da lógica algorítmica, solipsista, ou da especialização intelectual, calculista, é o que mais me fascina, talvez por ser uma espécie em vias de extinção e, paradoxalmente, o garante da salubridade de todo o sistema. Estudar na FCSH e ter hábitos culturais e uma mundividência não conta para a equação: só isso hoje já é um luxo, mas deviam ser os mínimos olímpicos para se fazer parte da tribo. Mais raro ainda é um engenheiro, um empregado de mesa, um limpador de casas-de-banho que lê, vai ao cinema, e não quer fazer disso a sua profissão. É plenamente leitor, espectador, sem querer fazer carreira ou pôr-se em bicos de pés para ter uma opinião, validada ou censurada pelos seus pares, em linha, conectado com o mundo. Sempre que me deparo com espectadores fiéis assim descritos, que foram ver todos ou quase todos os filmes japoneses, reforço a minha confiança periclitante no sistema de distribuição comercial de cinema, o lugar privilegiado onde este tipo de espectador devia proliferar.

 

Crianças à Procura de Mãe

 

Porquê um ciclo focado na fase tardia de Hiroshi Shimizu?

Como referi anteriormente, pareceu-nos lógico continuar a dar a conhecer o cinema do Shimizu. Em primeiro lugar, porque a sua fase tardia, os seis filmes finais que rodou para a Daiei de 1956 a 1959 (dos quais apresentamos cinco, mas eventualmente planeamos trazer o sexto noutros moldes) eram, até há uns anos, completamente invisíveis e mesmo no Japão não eram celebrados ou reconhecidos, a despeito do Shimizu ser um nome por lá respeitado. No único catálogo japonês publicado sobre ele no início do milénio, na listagem de longas-metragens, o “Som do Nevoeiro” vinha com um outro título, “Para Lá do Desfiladeiro”. Vê-se bem como mesmo os cinéfilos japoneses desconheciam esta fase tardia ao ponto de se enganarem no nome de uma das suas obras-primas…

Com o Shimizu acontece algo nos antípodas de um Ozu ou Mizoguchi: a sua obra prematura era a única conhecida e mostrada e inquestionavelmente representa a sua fase mais vibrante e indomável. Relembro que um filme como “Crianças ao Vento” entrou no Festival de Veneza em 1938 e foi amplamente elogiado pelo seu espírito selvagem e improvisado, muito antes do “Rashomon” do Kurosawa ter vencido o Leão de Ouro em 1950 e ter aberto a porta para a internacionalização do cinema japonês. Só durante os anos 50 é que Mizoguchi, no ocaso da sua carreira e aproveitando do balanço de Kurosawa ou Kinugasa, se cimentou como o grande mestre e foi mostrado contemporaneamente à saída dos seus filmes. Com o Ozu, tivemos de aguardar pela sua morte, mas foi sempre a sua fase pós-”Primavera Tardia” que mais se viu e celebrou.

Sendo um ávido admirador desses primeiros filmes do Shimizu (alguns dos quais foram editados pela Criterion em DVD em 2009), sempre me questionei da razão de ser deste desprezo pelos últimos filmes, que deviam representar, na teoria, um culminar e um amadurecimento estético. A verdade é que esta incursão pela Daiei foi mal recebida pela crítica japonesa e considerada um capítulo quase embaraçoso de um outrora grande mestre, desconexo com o seu tempo, que tinha perdido o toque de génio e rodava filmes para um público que já não existia. Quando vi “O Som do Nevoeiro”, por recomendação do programador Clément Rauger que tinha montado a integral Shimizu na Cinemateca Francesa em 2021, não pude deixar de discordar fortemente dessas opiniões. Achei-o (acho-o) um exercício de depuração ímpar, talvez o melhor que alguma vez programarei, um claro caso de um filme que se vê como se assiste a um milagre.

Outra razão, mais circunstancial mas não menos importante, é que sinto que está em curso uma re-avaliação da obra do Shimizu. Prova-o a retrospectiva integral da Cinemateca Francesa em 2021, a retrospectiva americana em 2024, já depois da nossa estreia em 2023 d”O Som do Nevoeiro”, e a que virá brevemente para a Cinemateca Portuguesa, um projecto de uma envergadura inigualável, mesmo para uma instituição como a Cinemateca. Trazer “O Idiota Sentimental”, “Crianças à Procura de Mãe” e “A Dançarina” permite-nos abrir a cortina um pouco mais e participar desta operação colectiva de re-avaliação.

Considera Shizimu um dos grandes nomes do cinema japonês ao lado de Ozu ou Mizoguchi?

Agora que finalmente consegui ver as mais de quarenta longas-metragens do Shimizu que sobreviveram, posso garantir que ele é tão importante como os nomes habitualmente referidos no cânone clássico: Kenji Mizoguchi, Yasujiro Ozu, Mikio Naruse e Akira Kurosawa. Estou mesmo convencido de que, à medida que a sua obra for sendo mais editada, difundida e vista, acabará por ser reconhecido como o quinto mestre conhecido do cinema japonês. Quando esse dia chegar, darei por concluída uma das minhas missões.

 

A Dançarina

 

O que podemos esperar dos três novos filmes e sobre que temas se debruçam?

“O Idiota Sentimental”, primeiro filme rodado para a Daiei a convite do Kenji Mizoguchi é um shot de uísque: curto, directo, moderno, noctívago, na esteira dos noirs americanos. É um falso-melodrama moral cuja premissa é insistentemente absurda e cujo desfecho não deixa de ser surpreendente apesar da sua previsibilidade meio trágica, meio patética.

“A Dançarina”, partilha com “O Idiota Sentimental” o tema da mulher fatal, são faces inversas do mesmo espelho. Se no segundo, a personagem da cantora de cabaré é alguém fatalmente salvífico, no primeiro, a dançarina que dá título ao filme é fatalmente caótica e impulsiva, semeando uma discreta destruição por onde passa. Os homens, num e noutro filme, são tolos mortiços, agentes passivos mesmo nas suas acções mais deploráveis – lembram-me alguns dos personagens masculinos que vão pontuando o cinema de Naruse. Escrito pela Sumie Tanaka, a argumentista que colaborou com a Kinuyo Tanaka no “Para Sempre Mulher” e “Mulheres da Noite”, filmes também do nosso catálogo, “A Dançarina” é um retrato melancólico dos saltimbancos, da gente dos bas-fonds e dessa boémia sem alegria, uma boémia imposta como condição de vida. Mas a câmara do Shimizu nunca se entrega à euforia: é como se o Dreyer filmasse a vida do Casanova.

“Crianças à Procura de Mãe” é uma revisitação de uma obsessão autoral que Shimizu não voltaria a retomar: o papel das instituições na sociedade, no caso, um orfanato que acolhe crianças abandonadas. Já anteriormente, Shimizu tinha feito uma trilogia muitíssimo importante com órfãos que eram actores e também aqui os meninos adquirem uma realidade que extravasa a simples ficção: muitos deles tinham sido realmente abandonados e reencenam os seus traumas num melodrama coral que tem as paisagens brilhantes da Prefeitura de Nagano, local onde no mesmo ano, se filmaria “O Som do Nevoeiro”.

 

Crianças à Procura de Mãe

 

Vão também voltar a ser exibidas duas obras primas: “Som do Nevoeiro” e “Imagem de Uma Mãe”. O público desta vez estará mais atento para não os perder?

Espero que as duas reposições possam ser motivo de descoberta para uns e revisitação para outros. Mas, em relação a considerações sobre o público, reitero aquilo que afirmei há pouco, reformulando um pouco a coisa. No sector da cultura, hoje, ser simplesmente espectador é a coisa mais difícil. Ser artista de instagram, curador de karagarga, crítico de letterboxd ou activista de twitter é tudo o que está aí no nosso horizonte para sermos de acordo com a nossa autenticidade, o único valor que parece ter sobrevivido quando todos os outros caíram. É certo que todas estas actividades pressupõem ser espectador primeiro e é por isso que facilmente tendemos a considerar esse estádio como primário e menos importante, um simples proforma para se transitar para outra coisa mais digna. Estamos demasiado presos a formas de participação que nos esquecemos do poder subversivo de não participar em coisa alguma. Sempre achei que aspirar a não ser nada é a forma mais digna de ser toda a gente e que (como consta naquela citação mal atribuída ao Cioran) ler biografias devia ser suficiente para perder a vontade de ter uma.

Quais são os planos para o futuro? Gostaria de continuar a programar a este nível? O que podemos esperar?

Como já dizia o velho Schopenhauer, o presente é sempre inadequado, o passado irreconciliável e o futuro incerto. Mas também dizia que o homem pode fazer o que quer, mas não pode querer o que quer. A minha relação com o cinema japonês é da ordem desse fatalismo, a despeito da variabilidade das previsões meteorológicas, do júri do ICA e das minhas finanças pessoais.

 

A Dançarina

 

David Bernardino