Ceux qui comptent (numa tradução literal, “aqueles que importam”) chega às salas portuguesas com o pouco inspirado título “Família à Força” e apresenta o encontro entre Rose, mãe de três filhos, e Jean, um homem solitário. A inusitada sequência de abertura deixa-nos adivinhar que Rose é uma mulher de personalidade forte e imprevisível, e que Jean, apesar de reservado, tem uma natureza impulsiva. Ambos lidam com dificuldades financeiras, ela de cabeça erguida, preocupada em dar aos filhos uma alimentação saudável, ainda que numa casa gelada, ele fechado no seu mundo, sem grande apetência para as interações humanas.

A história de um homem e de uma mulher que não tinham muito em comum e que, pelas circunstâncias da vida, acabam por se afeiçoar, num filme que ora nos salpica com traços de comédia, ora nos brinda com momentos de drama, não tem nada de novo. Apesar de não se encontrar nenhum elemento particularmente distintivo, quer nos diálogos, quer no enredo, Sandrine Kiberlain e Pierre Lottin trazem ao filme a personalidade que faltou ao guião. Este é um caso flagrante em que os atores conseguem elevar um filme banal, por vezes a roçar o enfadonho, para outro patamar, criando um vínculo forte entre o espectador e as personagens. Os três jovens que interpretam os filhos de Rose destacam-se também eles pela naturalidade da representação, sobretudo nas cenas mais exigentes.
Um dos aspetos mais conseguidos do filme está na forma como retrata a precariedade sem cair na caricatura ou no miserabilismo. Rose recusa ser reduzida à sua condição financeira e procura preservar uma sensação de normalidade para os filhos, apesar dos constantes malabarismos que isso exige. O filme encontra aí alguns momentos interessantes, ao mostrar personagens que tentam manter o sentido de identidade num contexto adverso, com alguma excentricidade à mistura.

Ainda assim, se o que está no papel dificilmente deixaria grande marca, a escolha dos atores acaba por dar ao filme a humanidade de que precisava. É através das interpretações que a mensagem sobre a importância das relações humanas consegue realmente passar. Aos poucos, damos por nós a torcer pelas personagens e a querer saber como irão lidar com as adversidades, esquecendo as fragilidades do filme graças à força do elenco.
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