By Any Means, de Elegance Bratton – Martin Luther King e Malcolm X entram num bar

Hugo DinisSetembro 22, 2026

Pelas suas evidentes semelhanças a In The Heat of The Night (Norman Jewison, 1967) e a Mississippi Burning (Alan Parker, 1988), By Any Means, de Elegance Bratton, ostenta, logo à partida, o peso da colocação num nicho. No que toca a cinema afro-americano de preocupações com relações raciais, Elegance Bratton é mais um nome que poderá suscitar por aí encolheres de ombros. O seu filme de estreia nas longas metragens de ficção, The Inspection (2022) da A24, lidava igualmente com as questões de preconceito identitário que tem vindo a animar festivais, em particular os americanos.

 

 

By Any Means, por esse prisma, terá sido um registo relativamente fácil de vender aos estúdios. Bratton junta dois actores de nomeada em Yahya Abdul-Mateen II e Mark Wahlberg para recriar um policial de antíteses no deep south americano. Parte, pois, essencialmente da representação de ambos a enfatização dessas diferenças. Wahlberg é um hitman a trabalhar para a máfia italiana de Brooklyn que acredita que tudo se resolve à lei da bala e cuja paciência para tácticas de negociação se resume aos primeiros dez segundos de qualquer conversa; já Abdul-Mateen é um agente do FBI, dos poucos negros ao serviço do Bureau, profundamente envolvido com a sua comunidade local no Mississippi, a tentar criar uma vida em conjunto com a mulher (Nicole Beharie). A discussão de ambos sobre a mundividência de Martin Luther King, dada à reconciliação entre facções distintas, e a de Malcolm X, empregue em nome da violência enquanto acto expurgatório das correntes mais virulentamente intolerantes e sustentadoras das estruturas de segregação, revela o jogo e cria um fosso dissonante. Se daí decorre que o espectador é levado a optar pela rectidão de Abdul-Mateen, torna-se difícil de resistir ao Wahlbergianismo expiador.

É preciso dizê-lo, também: By Any Means torna-se um filme inteiramente distinto quando Wahlberg está no ecrã. O seu estilo beligerante e deliberadamente confrontacional, raramente, e inteligentemente da parte de Bratton, dado a grandes falas ou discursos eleva a um grau de absurdismo que By Any Means, com a sua relativa ausência de texturas e nuances, parece desesperadamente necessitar. Sem prejuízo para as diferenças entre as duas obras, o que une quer o trabalho de Parker quer o de Jewison é a forma cuidada com que recriam a tensão de uma época de ódios e um local onde eles se sublimaram. By Any Means, nesse aspecto, é um registo omisso. Grande parte da sua construção visual, em particular, não estaria fora de lugar numa comédia romântica ou num drama de época.

 

 

Contudo, a forma com que Bratton se encosta nas performances dos seus protagonistas para garantir multidimensionalidade é também ela claramente intencional. Onde a vida pessoal anódina e padronizada de Abdul-Mateen se confunde com o pano de fundo, a jactância de Wahlberg faz por trazer as decorrências ao campo do interessante. É discutível, pois, que By Any Means tenha muito para acrescentar aos seus antecessores, até pela forma como olha para o passado numa altura em que as relações raciais nos Estados Unidos da América se tornam a instrumentalizar em nome das estruturas de poder da sociedade, mas parece, pelo menos, ser um filme consciente das suas próprias limitações para influenciar o debate nacional.

 

Hugo Dinis