That one, too fat! This one, too tall! This one… too symmetrical!
J. S. Steinman, BioShock
Algumas das reações virulentas ouvidas no final da ante-estreia de Bodyhackers , na última edição do Motel X, o consenso negativo formado rapidamente à porta do Cinema São Jorge e na praça digital das redes sociais, e ecoado pelas apreciações da generalidade da crítica “tradicional”, apontam na direção de um objeto à primeira vista falhado, rejeitado pelos demais quadrantes da cinefilia e que, face a tão extenso consenso, acabará por certo por passar despercebido junto de um nicho que, fosse outro o cenário, talvez o pudesse acolher.
Percebe-se, mas não deixa de ser uma pena. Percebe-se porque o novo protótipo de Carlos Conceição é sem dúvida desequilibrado, periclitante, prestes a afundar-se nas suas ambições, contradições e partes menores (um argumento frágil e a precisar de trabalho, atuações menos conseguidas, etc…). É uma pena ainda assim, pois é também um interessante exercício de cinema de género à escala e meios nacionais – devedor de Cronenberg, claro (o elo que liga este filme a Crimes of the Future já foi de resto discutido pelo realizador) mas também de Franju, os Olhos Sem Rosto de Joana Ribeiro a recordar Juliette Mayniel, com um gesto decisivo na direção do filme-ensaio, um tanto académico e intelectualizado mas não por isso menos eficaz na criação de uma atmosfera que, pelo menos nesta avaliação, eleva o filme acima de algumas das suas debilidades.

A beleza impossível das esculturas clássicas e o Homem Vitruviano de Da Vinci, que abrem o filme, têm qualquer coisa de nolaniano, estão para a narrativa de Bodyhackers como a bomba atómica para Oppenheimer, momentos de fundação e arautos do fim do mundo. Conceição liga aqui a nova carne e a obsessão com a perfeição do rosto e do corpo aos mesmos mecanismos que dilaceram o planeta – são o mesmo impulso, a mesma atração pelo abismo. Porque é de uma atração fatal que se fala: a de Denver (McCaul Lombardi) por Renée (Joana Ribeiro), mas também pelo mundo da clínica, pela promessa do “nascimento de uma nova civilização”. Pensamos mesmo que se deixa seduzir durante a festa no jardim (uma bela sequência), levado pela presença das sirenes Jenna Thiam e Alba Baptista. Ou pelo momento em que cai do cavalo à noite – em ambos o sangue, a sua pulsão vampírica, a tolerância e a submissão à dor só para se sentir alguma coisa.
Serão os humanos “vampiros” na Terra, consumindo tudo no seu caminho? É uma interpretação válida, uma de várias (por vezes a lógica do sonho entra em jogo e deixamos de ter a certeza). Há muito pano para mangas, de resto: a sugestão, inerente ao facto de o filme ser falado inteiramente em inglês mas explicitamente ambientado em Portugal, de um futuro próximo e de um fim lógico da globalização e do extremo-capitalismo; ou a própria clínica, um “paraíso” randiano onde cada um é absolutamente livre de “escolher o seu veneno” e morrer.
Admite-se que talvez seja demasiado, que para a maioria Bodyhackers seja um filme que se afunde no seu excesso de ideias e potencial por cumprir. As mensagens subliminares na publicidade, a puxar algo do They Live de Carpenter, elemento aludido e prontamente esquecido, a sugestão nebulosa de “segredos” escondidos da clínica, nunca inteiramente iluminados, e um final interessante mas a precisar de cozedura, resvalando por fim para um registo camp que talvez não fosse o desejado, são evidência de um projeto que teria beneficiado, ironicamente, de algum corte-e-costura. (É possível que algumas destas lacunas se expliquem pela montagem elástica do projeto, que ao que parece a certa altura ia bastante além dos atuais 83 minutos, mas também por isso talvez fosse necessária uma maior coesão interna).
Voltamos, apesar de tudo, àquilo que funciona: a espessura da sua atmosfera, a sua ameaça indizível e invisível, o culto da imagem e do corpo, o impulso grotesco do(s) seu(s) reflexos. As ultra-gráficas imagens de cirurgia plástica que pontuam o filme são de resto um confronto mas também um lembrete, de que não passamos de carne à espera de decompor. Renée, como Denver, é dona de uma beleza rara, aparente a todos menos a si própria. Mas o medo da morte fala mais alto.
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