Bodyhackers, de Carlos Conceição – Encontros da nova carne

André Filipe AntunesSetembro 23, 2026

 

That one, too fat! This one, too tall! This one… too symmetrical!

J. S. Steinman, BioShock

 

Algumas das reações virulentas ouvidas no final da ante-estreia de Bodyhackers , na última edição do Motel X, o consenso negativo formado rapidamente à porta do Cinema São Jorge e na praça digital das redes sociais, e ecoado pelas apreciações da generalidade da crítica “tradicional”, apontam na direção de um objeto à primeira vista falhado, rejeitado pelos demais quadrantes da cinefilia e que, face a tão extenso consenso, acabará por certo por passar despercebido junto de um nicho que, fosse outro o cenário, talvez o pudesse acolher.

Percebe-se, mas não deixa de ser uma pena. Percebe-se porque o novo protótipo de Carlos Conceição é sem dúvida desequilibrado, periclitante, prestes a afundar-se nas suas ambições, contradições e partes menores (um argumento frágil e a precisar de trabalho, atuações menos conseguidas, etc…). É uma pena ainda assim, pois é também um interessante exercício de cinema de género à escala e meios nacionais – devedor de Cronenberg, claro (o elo que liga este filme a Crimes of the Future já foi de resto discutido pelo realizador) mas também de Franju, os Olhos Sem Rosto de Joana Ribeiro a recordar Juliette Mayniel, com um gesto decisivo na direção do filme-ensaio, um tanto académico e intelectualizado mas não por isso menos eficaz na criação de uma atmosfera que, pelo menos nesta avaliação, eleva o filme acima de algumas das suas debilidades.

 

 

A beleza impossível das esculturas clássicas e o Homem Vitruviano de Da Vinci, que abrem o filme, têm qualquer coisa de nolaniano, estão para a narrativa de Bodyhackers como a bomba atómica para Oppenheimer, momentos de fundação e arautos do fim do mundo. Conceição liga aqui a nova carne e a obsessão com a perfeição do rosto e do corpo aos mesmos mecanismos que dilaceram o planeta – são o mesmo impulso, a mesma atração pelo abismo. Porque é de uma atração fatal que se fala: a de Denver (McCaul Lombardi) por Renée (Joana Ribeiro), mas também pelo mundo da clínica, pela promessa do “nascimento de uma nova civilização”. Pensamos mesmo que se deixa seduzir durante a festa no jardim (uma bela sequência), levado pela presença das sirenes Jenna Thiam e Alba Baptista. Ou pelo momento em que cai do cavalo à noite – em ambos o sangue, a sua pulsão vampírica, a tolerância e a submissão à dor só para se sentir alguma coisa.

Serão os humanos “vampiros” na Terra, consumindo tudo no seu caminho? É uma interpretação válida, uma de várias (por vezes a lógica do sonho entra em jogo e deixamos de ter a certeza). Há muito pano para mangas, de resto: a sugestão, inerente ao facto de o filme ser falado inteiramente em inglês mas explicitamente ambientado em Portugal, de um futuro próximo e de um fim lógico da globalização e do extremo-capitalismo; ou a própria clínica, um “paraíso” randiano onde cada um é absolutamente livre de “escolher o seu veneno” e morrer.

 

 

Admite-se que talvez seja demasiado, que para a maioria Bodyhackers seja um filme que se afunde no seu excesso de ideias e potencial por cumprir. As mensagens subliminares na publicidade, a puxar algo do They Live de Carpenter, elemento aludido e prontamente esquecido, a sugestão nebulosa de “segredos” escondidos da clínica, nunca inteiramente iluminados, e um final interessante mas a precisar de cozedura, resvalando por fim para um registo camp que talvez não fosse o desejado, são evidência de um projeto que teria beneficiado, ironicamente, de algum corte-e-costura. (É possível que algumas destas lacunas se expliquem pela montagem elástica do projeto, que ao que parece a certa altura ia bastante além dos atuais 83 minutos, mas também por isso talvez fosse necessária uma maior coesão interna).

Voltamos, apesar de tudo, àquilo que funciona: a espessura da sua atmosfera, a sua ameaça indizível e invisível, o culto da imagem e do corpo, o impulso grotesco do(s) seu(s) reflexos. As ultra-gráficas imagens de cirurgia plástica que pontuam o filme são de resto um confronto mas também um lembrete, de que não passamos de carne à espera de decompor. Renée, como Denver, é dona de uma beleza rara, aparente a todos menos a si própria. Mas o medo da morte fala mais alto.

André Filipe Antunes