A existência saltimbanca é uma imagem recorrente da era muda. Muitos cineastas e produtores capitalizaram em títulos em torno da figura do hobo, homens e mulheres desempregados à procura de uma oportunidade através de um salto para o comboio, mas também criminosos e delinquentes a aproveitar a boleia para fugir para outro estado. Beggars of Life, último filme mudo de William Wellman, remete para este imaginário popular do início do século XX que, retrabalhado, bem nos poderia soar familiar. A vida nómada resultado de uma frustração económica e social. Nancy (Louise Brooks) e Jim (Richard Arlen) figuram aqui como representantes desta estirpe. Sem mais a perder, ela liberta-se de um tutor aviltante, já ele é mais um que só quer trabalhar. Saltam.
Recorrentes ao longo do filme, os planos das pernas e pés das personagens não são apenas indicativos de exaustão ou tenacidade, remetem para uma ideia de ritmo. Estes planos introduzem uma narrativa mais pausada, alicerçada na apresentação do espaço: a casa onde Arlen encontra Brooks, a linha férrea onde ele lhe ensina a caminhar como um hobo, nos fardos de palha. A dramaturgia surge apetecível nos contornos das performances. Ele aproveita para brincar, ela reage alinhando.
A locomotiva e a carruagem impelem para a fuga, para a tensão entre vagabundos, numa asfixia da ação com as personagens a quererem levar cada um a sua avante. Dá-se primazia aos rostos navalhados e macilentos de homens de casaca gasta e sapato esfarelado, em luta furiosa pelo temor dos restantes náufragos. Arkansaw Snake (Bob Perry) e Oklahoma Red (Wallace Beery) competem também pelos favores da rapariga. Brooks é aliás a única mulher da fita, primeiro disfarçada de rapazinho e já para o final em traje esmerado. No contracampo, os olhares que recebe não escondem o desenho de uma volúpia grosseira.
A filmografia de Wellman não é a de um campeão do romance. O companheirismo, sim, ocupa sempre o lugar central das suas histórias. De Wings a Good-bye, My Lady passando por Heroes for Sale, o que permanece é o elo de camaradagem mesmo que cortado pela morte, pelo destino, ou pela força da lei todas omnipotentes. Beggars of Life dá assim mote a uma discussão interessante: Brooks e Arlen estão ou não interessados um no outro? Os jump-cuts no início, aquando da descoberta da cena do crime por Arlen com o corpo morto por Brooks, ou já na cabana no meio de nenhures também com um corpo hirto em cena, desta feita de um companheiro de viagem mais débil, estabelecem o eixo da troca de olhares que inaugurariam um romance clássico. Há também outro impulso wellmaniano, o do enquadramento de uma personagem por outras duas, aqui os inseparáveis rapaz e rapariga contra qualquer rufião.

Fica por isso a ambiguidade, tentadora de decifrar e mais ainda de contemplar pela sua clareza. Porque é que Brooks falha o salto para o comboio, e sinaliza com os olhos uma vontade meiga em ficar com Arlen? No mesmo sentido, o rapaz questiona-se do porquê de lhe fazer as vontades, de a acompanhar – “You know you’re nothing to me… There’s no reason why I should stick with you”. Arriscaríamos o receio da solidão, mote tão querido à era muda e palpável nas angustiantes revelações de Sunrise – A Song of Two Humans (1927) ou Lonesome (1928), de não ter o parceiro de viagem.
Este companheirismo vê-se atravessado pelo objeto abstruso do sacrifício, que tal como em outros filmes de Wellman vem pela mão do malévolo vértice do (inexistente) triângulo romântico (ver Other Men’s Women, The Great Man’s Lady). Inseparável, o par é por mais que uma vez molestado pelos vagabundos, à cabeça Oklahoma Red que acaba por ter o gesto mais nobre do filme. A derrocada final da locomotiva à qual o (aparente) vilão voluntariamente se entrega, resolvendo o filme e ilibando o casal em fuga, tem um traço cómico. O velho aldrabão sorri no estertor como que recordando o catalisador da sua boa ação:“I’ve heard about it – but I never seen it before. I knew there was something wrong with you two”.

Beggars of Life vale pela cumplicidade entre estranhos ao relento. Pela dormida dentro do fardo de palha, privados da visão da noite e das estrelas o par suspenso numa catarse menina e moça – “Even them people in feather beds ain’t satisfied – we’re all beggars of life”. Comprimindo o espaço, a luz acaba por realçar os olhos de um e outro em desabafos que desabrocham numa noite descansada. Logo, por mais que a ambiguidade (da relação), a força da narrativa (a fuga), ou o ritmo proporcionado pela planificação, o filme move-se pelo despir do dramatismo. Entre o torvelinho das carruagens na linha e as engrenagens da encenação uma verdade inocente.
Beggars of Life é apresentado dia 3 de Janeiro, na Cinemateca Portuguesa como parte do ciclo “Viagem ao Fim do Mudo” – acompanhamento ao piano por João Paulo Esteves da Silva







