A crítica mais comum que é feita ao franchise Avatar é a do privilégio da forma sobre o conteúdo. Desde a sua criação, há já dezasseis anos, Avatar coloca-nos perante a cinematografia de uma simples premissa anticolonialista muito própria de cineastas da geração de James Cameron. A génese das palavras e dos códigos deliberadamente maniqueístas em torno da História de Avatar criou este monstro que é simultaneamente simples de explicar, mas aparentemente capaz de se complexificar nas suas múltiplas sequelas. Esse desconstruir foi, de resto, um dos pontos fortes de The Way of Water, a segunda parte da franquia. Ali, Cameron mostrou uma paciência notável para colocar em evidência não apenas mecanismos narrativos que tornaram a história verdadeiramente multifacetada, mas também o chamado world building cada vez mais realista. Pelo menos tão realista quanto poderá ser um filme sobre gente azul animada.
Avatar tem sido um sucesso de bilheteira gigante durante todos estes anos. Mas ao passo que a aclamação popular tem vindo a ser uma constante da carreira de Big Jim Cameron, Avatar tem suscitado críticas em torno da sua falta de impacto cultural. De facto, não se pode dizer que personagens como Jake Sully (Sam Worthington), o herói humano e salvador tornado parte da tribo, ou Neytiri (Zoe Saldaña), a mulher que inspira a deserção e a força por detrás da convicção de um povo, façam propriamente parte do imaginário cultural colectivo. Mas esse imaginário já não é aquele que era em 2009, por altura do primeiro filme. A atomização cultural relativiza e terraplana. Cameron, contudo, não procura esse tipo de consciencialização. O que motiva Big Jim é a mensagem de Avatar, não as personagens que habitam o seu mundo. Quando questionado sobre se um cineasta da qualidade técnica de Cameron estará possivelmente a perder o seu tempo enterrado num mundo de gente azul computadorizada, a resposta de Jim é fácil e pronta: “It’s my decision, not yours. It’s none of your business”. Na verdade, Avatar, e em particular o seu ideário de conservação dos mares, foi o que manteve Cameron na realização quando este pensou em desistir no longo hiato após Titanic.
Dizia Jacques Rivette que Titanic era um “film nul”, mas que Cameron “n’est pas un méchant, ce n’est pas une ordure comme Spielberg”. O pendor de Cameron para a construção de grandes e genuínos espectáculos sempre denunciou o respeito do canadiano pelo grande cinema das origens de Hollywood, com DeMille à cabeça. Avatar: Fire and Ash é uma bela homenagem a essa herança. É um filme de grandes espectáculos e enormes espalhafatos, de impecável e meticulosa construção visual, e de texturas extraordinariamente ricas em torno de algo tão artificial como estes seres azuis são. Onde The Way of Water foi paciente, quase moroso na sua construção, delicado na criação de mundos, e deliberado na forma como se ia desfraldando na frente do espectador, Fire and Ash transmite não apenas uma continuação das estruturas narrativas do seu antecessor como também uma maior propensão para as negar no meio de tantas incidências. Dito de forma mais simples, Fire and Ash é um filme de acção quando The Way of Water era cinema de aventura. Há, aqui, uma diminuição evidente do impacto do sentido infantil de descoberta que The Way of Water tão bem colocou na tela, em prol de um reforço do teatral, do aparatoso.
No que toca à sua narrativa, Fire and Ash é novamente transparente, ainda que iterativo face a The Way of Water. Continuando directamente a partir do anterior capítulo, Cameron conta a história de uma tribo construída a partir do rancor do abandono em torno do elemento do fogo. A alegoria da relação entre este povo do fogo, liderado por Varang (Oona Chaplin), e a ameaça representada pelos humanos, a terrível força RDA (Resources Development Administration), é imediatamente aparente na lógica da geopolítica actual. Na verdade, Fire and Ash é uma peça também muito mais política do que qualquer dos seus antecessores. A tribo de Varang constitui uma ameaça ao estilo terrorista face à paz idílica do povo de Sully e Neytiri, e a sua colaboração com os humanos coloca-o ao nível dos inúmeros exemplos da história recente americana na qual a união entre forças imperialistas e nativos colaboracionistas acaba por se tornar nefasta para ambos os lados. Mais do que inconveniente, esta aliança é destrutiva e niilista. O regresso à acção do Quarich de Stephen Lang exemplifica isso de forma ideal: as suas motivações são finais e os fins justificam qualquer tipo de meio.
Mas esta colaboração também encerra em si um falhanço narrativo da parte de Cameron no que toca à desumanização do povo de Varang. A sua pulsão destruidora é imperativa e total. Retira-lhe profundidade e dimensões. Há aqui uma curiosa ironia no meio disto tudo: enquanto que a colecção de significados construídos nos últimos dois filmes levou a um aprofundar do mundo de Avatar, e à libertação de Cameron daquela premissa simplista do primeiro filme em particular, o retirar de profundidade e complexidade a toda uma tribo parece desde logo trair este trabalho.
Uma das primeiras cenas de Fire and Ash retrata Sully a instar a sua tribo a pegar em armas para se defender de eventuais invasores apenas para ser censurado pelos seus líderes por “tocar no metal” do armamento. A cena é naturalmente profética e concretizar-se-á nos limites do terceiro acto de Fire and Ash, mas a ideia de resistência armada em detrimento do pacifismo redutor face aos poderes imperialistas é um velho debate no qual certamente Cameron já terá participado. Esta complexa realidade política que Cameron constrói é simplificada perante o espalhafato do desenlace de Fire and Ash. Retornam os pontos narrativos da conclusão de The Way of Water e, sobretudo, resvalam as explicações para mecanismos facilitistas. O deus ex machina com que Cameron se desfaz da narrativa em torno do povo do fogo, ou o complexo de salvador branco (white savior), aqui representado inabilmente pela personagem de Jemaine Clement, biólogo marinho, profissão tão querida ao próprio Cameron, traem os procedimentos de uma peça visual tão intencional e escrupulosa. A aceitação de Sully e Neytiri face a Spider (Jack Champion) concretiza o principal arco narrativo que aqui se torna essencial. Fire and Ash faz-se valer do impacto familiar, da inclusão de um relativo estranho no núcleo de Sully e Neytiri. E não será isso o que a saga Avatar é na sua essência? Uma história de tolerância e de aceitação da diferença. Um espectáculo que se desenrola de forma tão bela na face de tanta destruição e violência.
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