Haverá poucas missões mais nobres no cinema e na arte do que a de evitar romantizar a pobreza. Por entre correntes e contra correntes, o realismo andou pelo mundo cinematográfico a explorar a vida pelo que ela é. Mas ao passo que a pobreza é uma condição de vida, a sua representação é necessariamente performativa, exposta aos excessos e às insuficiências do seu meio. Takový je život (“Assim é a Vida“) é uma obra de arte apostada no retrato não necessariamente da pobreza, mas sobretudo do pobre. Assinado por Carl Junghans, realizador alemão que apenas encontrou oportunidade e financiamento para filmar na Checoslováquia por iniciativa do reconhecido actor Theodor Pistek, Takový je život é um filme abertamente confrontacional. A sua representação do quotidiano de uma família de classe trabalhadora de Praga espelha uma ferocidade e uma violência própria de um certo realismo de Weimar, não fosse Junghans alemão. Mas este não é um filme que se possa abertamente classificar de realista, seja como for. A sua evocação da obra de um cineasta como G. W. Pabst, na procura da Alemanha do pós-Guerra, responde a uma agressividade formal que é pouco reconhecível no puro realismo.
Takový je život encontra-se dividido e estruturado não por intertítulos, mas pela utilização de capítulos e motes representando sete dias na vida familiar. Assim é a vida. Do dia do pagamento ao do luto vão apenas sete, mas Junghans constrói um mundo de relações que oscilam entre o melodrama e a transitividade do dia-a-dia. Na sua cena de abertura, um par de mãos denunciam o calejamento do quotidiano e sobretudo a degradação do trabalhador. Aqui, o dia do pagamento representa a ligação de recompensa face à agrura de uma labuta incessante, mas também reforça a condição da mulher enquanto objecto de aproveitamento. O olhar de género de Junghans convoca o estabelecimento de uma realidade em que o papel da mulher é omnipresente na sobrevivência diária. Esse papel é maioritariamente encarnado pela matriarca da família (Vera Baranovskaia), uma lavadeira que percorre a opressividade da Ponte Carlos com um penetrante plongée que evoca o Calvário perante o olhar das figuras de culto que o rodeiam. São dela as mãos que denunciam o sofrimento de mãe.

Mas a vida do quotidiano não é apenas a vida do miserável, e Junghans coloca a carga festiva na narrativa pela introdução do folclórico. Takový je život é pontuado por duas festas que tanto evocam a ideia de comunidade como se fazem contrastar entre si. No “dia da festa” que Junghans imagina, a família reúne-se para celebrar o aniversário da mãe, mas o marido (Theodor Pištěk) aproveita a confusão para se escapar para o bar onde a amante (Valeska Gert) dança em cima das mesas. As duas ocasiões são trespassadas como um bailado entre o sagrado e o profano que une as duas casas. Até os momentos de lazer são retratados com esta dualidade: a expansividade das cenas de piquenique no que Junghans descreve como dia de descanso regressam ao encafuar dos momentos na taberna entre a família.

A necessidade de um corte com o mundano catapulta também Takový je život para uma dimensão melodramática que se expressa a partir da “segunda feira negra”. Nela, pai e filha perdem o emprego e refugiam-se no pequeno espaço doméstico que serve de pano de fundo para a labuta diária da mãe. Em Junghans parece estar sempre uma noção norteadora que repete os diversos mecanismos de violência que é infligida à família. A montagem cumpre um papel expressionista a evocar a influência soviética, mas é o apelo da imagem e da simbologia de Junghans que melhor apela ao dramático do quotidiano. Veja-se a cena em que o marido regressa a casa após uma saída alcoolizada na sequência do abandono do seu trabalho. A discussão conjugal é mediada pelos cortes súbitos e repentinos, mas também pela agressividade enérgica das imagens. Os olhos tresloucados de Pistek, os cacos de louça espalhados pelo chão, aos pés da mãe, o abandono que se segue.
Takový je život é uma obra marcada por uma brutalidade tremenda. A crueldade está ancorada nos contextos, mas é fruto de um mundo corrompido, de um deslaçar do elemento de comunidade. Da vida. O penúltimo dia é aquele que Junghans apelida como sendo o do destino. A ideia de fado está sempre inerente à pobreza, seja por força da razão religiosa, no seu apelo ao destino divino, seja por predestinação social, um povo entregue à sua sorte do berço ao leito de morte. O acidente que vitima a mãe recupera a violência e a urgência das imagens dos confrontos relacionais entre mulher e marido, mas sobretudo entrega Takový je život a um plano de desespero pessoal que tão cedo não nos larga. No seu encalce, a visita à mulher acamada por um marido a sentir o peso da culpa e da afectividade recupera a força simbólica das imagens de Junghans. A agitação da realização de morte ilustrada pela retumbância da água dá lugar à acalmia de morte. O fim do confronto, do sofrimento, da labuta, é apenas o fim da vida. Assim ela é.
Porém, também o luto faz parte dela. No leito de morte, é a reunião que surge como forma de pesar. Também aqui a comunidade é a boia de salvação. As pessoas refugiam-se nas pessoas. Nascemos sozinhos mas morremos com companhia. Junghans regista, pois, como Ford viria a mostrar, a força dos rituais como forma de identificação colectiva. A cerimónia fúnebre evoca uma convivência entre o macabro e o mundano que reforça não apenas a noção de morte como extensão da vida, como a de comunidade como prolongamento do indivíduo. Mais uma vez, é na força dos seus simbolismos que reside a singularidade do trabalho de Junghans. O céu, outrora utilizado para ilustrar a liberdade do “dia de descanso” à beira do rio, é agora recuperado para empurrar a finalidade da vida que conclui. A água, colocada antes ao serviço da impassividade mortal, reflecte o ocaso do sol. O fim do dia, o fim da vida.
O que significam todas estas imagens para o espectador de hoje? Takový je život é uma obra de trabalho sobre trabalho. Certamente que o seu legado não será estritamente o do realismo que movimenta na sua narrativa. À parte dos seus protagonistas, este é um filme de colaboração amadora, com a presença de inúmeros figurantes e actores de ocasião marcados pela sua muito real condição de pobreza. Junghans foi buscá-los aos confins da sua visão, no voluntarismo de uma ideia. E acaba por ser também por aí que Takový je život se faz entender aos olhos de agora. A codificação do realismo é, no fundo, apenas um pretexto para a simbologia de Junghans. A vida é, de facto, assim: o dia do pagamento, o dia do descanso, o dia de festa, o dia do destino, o dia do luto. O resumo é tão simples quanto cortante. E não podia ser mais universal.
Assim é a Vida (Takový je život) é apresentado esta quinta-feira, 9 de Outubro, na Cinemateca Portuguesa como parte do ciclo “Viagem ao Fim do Mudo” – acompanhamento ao piano por Daniel Schvetz




