Apesar de se situar cronológica e geograficamente no decorrer da Segunda Guerra Mundial, As Provadoras de Hitler (Le assaggiatrici) demonstra pouco interesse pelo conflito enquanto espetáculo histórico. A guerra não surge aqui como tema principal nem como força motriz da narrativa, mas como uma condição necessária para as histórias que o filme pretende contar. Não se trata de uma obra sobre estratégias militares, violência, confrontos armados ou grandes figuras políticas, mas sobre aqueles que vivem à margem dessas decisões e que, ainda assim, são obrigados a suportar as suas consequências. É uma abordagem ousada dentro do género, ao recusar tanto o ponto de vista dos soldados como o das vítimas diretas do conflito, para se focar precisamente naqueles que vivem no intervalo – obrigados a existir sob a guerra sem nunca ocuparem o seu centro narrativo. Um olhar corajoso que, no entanto, nem sempre se revela capaz de sustentar dramaticamente o seu próprio conceito.

A premissa é, por si só, reveladora dessa perspetiva: um grupo de mulheres é recrutado para provar cada refeição destinada a Adolf Hitler, numa tentativa de despistar possíveis envenenamentos, enquanto o perigo constante da sua situação serve como ponto de partida para uma exploração mais íntima das suas relações, preocupações e rotinas. Silvio Soldini, inspirado pelo romance histórico de Rosella Postorino, afasta-se assim dos tópicos habitualmente associados ao cinema de guerra e concentra-se nas experiências individuais destas personagens, utilizando o contexto histórico sobretudo como enquadramento para os seus dramas pessoais.
É precisamente nessa dimensão humana que o filme procura o seu rumo. As relações estabelecidas entre as provadoras ocupam o centro da narrativa e raramente perdem protagonismo para demonstrações de violência ou para explicações geopolíticas da situação vivida. O ambiente de suspeita permanente, a convivência forçada e a consciência constante da própria vulnerabilidade permitem a construção de uma tensão subtil que nunca depende do choque. As Provadoras de Hitler não teme silêncios, pausas ou desconfortos, encontrando precisamente nesses espaços uma parte significativa da sua identidade. Contudo, tal coragem não se mostra capaz de suportar o peso da sua estrutura. Apesar do excelente desempenho do elenco, marcado por uma contenção que evita excessos melodramáticos e contribui para a autenticidade das personagens, e do trabalho de direção de arte, figurino e set design, que desde os primeiros minutos estabelecem uma atmosfera imersiva, a narrativa raramente encontra uma forma igualmente eficaz de transformar essas qualidades em envolvimento dramático. Soldini mantém a sua câmara presa a estas mulheres e foca-se nas suas dinâmicas, na perceção dos seus medos e na importância das suas circunstâncias, mas acaba por sacrificar a construção de um percurso dramático capaz de nos arrastar emocionalmente do início ao fim.

A própria estrutura do filme contribui para essa sensação, sendo que os separadores temporais e as frequentes telas negras que assinalam elipses narrativas fragmentam a experiência e conferem à obra uma natureza quase episódica. Apesar da linearidade dos acontecimentos, o filme apresenta-se como uma sucessão de momentos e interações que coexistem sob um mesmo contexto, mas que nem sempre parecem contribuir para um objetivo dramático comum. Nota-se uma confiança excessiva no impacto individual de determinadas situações e diálogos que, quando observados como partes de um todo, acabam por expor uma certa falta de direção narrativa e de coesão dramática. Será esta fragmentação uma escolha deliberada destinada a reproduzir a monotonia, a incerteza e a sensação de suspensão vividas por estas mulheres? Ou será simplesmente uma limitação narrativa que impede o filme de atingir um impacto emocional mais profundo? Independentemente da resposta certa, o resultado acaba por ser pouco satisfatório.
Ao privilegiar as histórias humanas sobre o espetáculo da guerra, As Provadoras de Hitler encontra uma perspetiva invulgar dentro de um género frequentemente dominado por batalhas, heroísmos e grandes acontecimentos marcantes. No entanto, a subtileza com que observa as suas personagens nem sempre encontra um equivalente na construção da sua narrativa. Trata-se de um filme que caminha constantemente entre a contemplação e a estagnação – entre a sensibilidade e o tédio – e que nem sempre sai vitorioso desse equilíbrio delicado.
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