A imagem do Palacio La Moneda em chamas após o golpe de estado militar em Santiago do Chile a 11 de Setembro de 1973 é uma das mais fortes do século XX. Apenas três anos antes, Salvador Allende havia sido eleito presidente enquanto cara de um movimento unitário esquerdista, a Unidad Popular (UP). A imagem é tão forte, de facto, que o documentarista Patricio Guzmán escolheu-a para servir quer de abertura quer de fecho às duas primeiras partes do seu filme La Batalla de Chile (1975-79).
A força do movimento democrático havia-se esfumado perante o bloqueio parlamentarista da oposição, repartida entre democratas cristãos e nacionalistas, e a intervenção de Washington. Mesmo assim, Allende escolheu morrer. No dia 11, o mesmo em que havia planeado anunciar um plebiscito para dar voz aos eleitores, recusou sair da casa da democracia chilena e abdicar da via eleitoral pelo que entendia ser o imperativo de “pagar com a vida a dívida de gratidão com o povo”. Durante três horas, 40 civis resistiram à força impiedosa dos bombardeamentos aéreos e das munições de tanques e armas automáticas.

O documentário de Guzmán, falecido esta semana em Paris, é hoje um pedaço de história. Não apenas pelo registo do sentimento daquele tempo, mas sobretudo pela forma como explica o que levou estas pessoas a este ponto e o que trouxe este homem à decisão da sua própria morte. O golpe havia vindo a ser construído durante anos e contrastava com o engajamento público que assistimos não apenas nas três partes de La Batalla de Chile, mas sobretudo em El Primer Año (1972), a primeira longa documental de Guzmán. Ao vê-lo em acção aí, sentimos uma câmara em permanente manutenção de balanço, colocada com a mesma curiosidade nas faces de povos indígenas que, com Allende, viram a redistribuição de terras tão temida pelos grandes latifundiários, e nas bocas de uma população cujo privilégio enquistado lhe permitia uma torrente de raiva perante a possibilidade de alteração social profunda.
Guzmán foi, de resto, alguém perfeitamente criado para sobreviver no caos social e político. Após a enormidade dos planos de um La Moneda em chamas, Guzmán muda de eixos em direcção ao que parece ser uma multidão em alvoroço político. Ali, todos parecem estar politizados e todos usam o microfone para mostrar um notável sentido de ligação social. Em Janeiro de 78, a crítica Pauline Kael admirar-se-ia com a articulação dos mais variados populares entrevistados em La Batalla de Chile (“No one seems apathetic, not even the middle-class women, who speak vigorously about how much they hate Socialism. Has there ever been a more articulate culture?”). Aos ouvidos de hoje, tempos em que a mais pequena consideração social é vista como pronunciamento revolucionário, esta admiração só se poderá tornar em estupefacção.

O que se perdeu ao longo dos anos, sobretudo aqueles em que o Chile se viu mergulhado na longa noite da ditadura militar, foi a prova do sucesso desse golpe. Guzmán esperou trinta anos para mostrar La Batalla de Chile no seu país. A ocasião seria, até, aproveitada pelo próprio para produzir Chile: La Memoria Obstinada (1997). Esta militância que vemos nos entrevistados, intervenientes políticos ou simplesmente cidadãos, é a mesma de Guzmán. O rigor na produção de La Batalla de Chile é, a todos os títulos, notável, e não se resume à simples exaustividade borbulhante do microfone que vemos sendo empunhado por um homem imponente e de barba farta nas ruas de Santiago. Kael emprega, aqui, porventura depreciativamente, o termo “disciplina marxista” para classificar o aturado trabalho de uma equipa composta por uma mão cheia de profissionais na obtenção das imagens que hoje até já restauradas num cristalino digital se encontram disponíveis.
A fotografia de Jorge Müller Silva, um bom exemplo dessa disciplina, orquestrada pela sua câmara de 16mm em permanente seguimento dos acontecimentos, procura sempre centrar pessoas e expressões faciais com o intuito de explicar os movimentos de massas que vamos vendo. A Batalha seria também pelo futuro do seu filme. Guzmán e os seus companheiros sabiam que teriam de pagar o seu preço para o garantir, da mesma forma que quase todos os entrevistados pareciam ter a plena consciência de que o golpe seria sempre inevitável.
No final da primeira parte de La Batalla de Chile, intitulada de La Insurrección de la Burguesía, vemos as últimas imagens captadas pelo fotojornalista argentino Leonardo Henrichsen, durante a intentona de Junho de 73 que viria a servir de preparação para o golpe de Setembro: um grupo de soldados desce de uma carrinha militar para se dirigir a La Moneda; pelo caminho, um deles identifica a câmara de Henrichsen por entre a multidão que procurava abrigo; o soldado tira a sua arma do coldre e, calma e friamente, aponta directamente para nós e atira; a imagem transforma-se num imenso indecifrável nevoeiro. Pouco mais de um ano após as imagens de Henrichsen, Jorge Müller Silva, o único homem da equipa de Guzmán que havia recusado abandonar o Chile, foi capturado pela DINA, a polícia secreta de Pinochet e Manuel Contreras, e acabou aí o seu rasto. La Batalla de Chile é a ele dedicado.

O que Guzmán nos mostrou não apenas na sua Batalla, mas também em El Primer Año, foi a forma como a ditadura se instaurou enquanto escolha política profundamente consciente. Muito embora com a participação decisiva de Washington através da sua School of the Americas no Panamá (cujos alunos incluíram Manuel Noriega, Hugo Banzer ou Jorge Videla), a ditadura fascista foi instaurada para gaúdio de grande parte de uma classe média aterrorizada pela ideia da ameaça vermelha. As congregações em escolas católicas restritas e os movimentos sindicais fabricados para desestabilização do governo de Allende filmadas pela lente de Müller e Guzmán são cabais nesse aspecto. Guzmán nunca se furta a esta ideia do cinema enquanto produto de construção social. A força dos eventos nunca surge por si própria, mas sim como um resultado de mecanismos em movimento perpétuo.
Patricio Guzmán foi detido pelo regime e torturado no mesmo estádio onde, no Mundial de 1962, o Chile havia assinado a mais bela página na história do seu futebol, o Monumental de Santiago. A equipa da casa apenas viria a ser eliminada nas meias finais pelo génio de Garrincha e Vavá. Na bancada estava Guzmán, à data um jovem de 20 anos de idade. Até ao final, o realizador recusou divulgar a localização das bobines que lhe haviam sido enviadas por Chris Marker para filmar La Batalla de Chile. A convicção é hoje uma qualidade que parece assistir sobretudo os mais ignaros, mas a história do cinema, uma das mais magníficas conquistas culturais da humanidade, está construída sob os sacrifícios de homens e mulheres como Guzmán. A sua obstinação não existia sem preço a pagar. O que vemos em filmes como La Batalla de Chile é o produto de uma consciência do que ficou para trás, de uma memória que importa preservar para que a convicção não seja apenas dos mais ruidosos, mas de todos.



