Arco, de Ugo Bienvenu – No fim do arco-íris

Clara Mendes PereiraJaneiro 22, 2026

Começamos com um som de um instrumento de corda, em acorde maior. Faz lembrar a banda sonora de Legend of Zelda, um jogo que, para quem teve o prazer de o ter nas mãos, inspira desde o primeiro momento um sentimento mágico: maravilha. É com ela que Ugo Bienvenue, artista de novelas gráficas, pretende pautar a sua longa metragem de estreia, Arco. Somos desde cedo introduzidos à personagem com o mesmo nome, um menino de dez anos que vive, literalmente, nas nuvens de um mundo onde a tecnologia e a natureza se fundem num equilíbrio perfeito. No horizonte vemos arco-íris ziguezaguentes, que o protagonista segue ansiosamente. Ao fim do arco-íris, o rapaz encontra a sua família que chega, de capas coloridas, de uma expedição ao passado. Nesta realidade, os arco-íris são um modo de crono-transporte, dos quais Arco, por não ter idade, não se pode fazer revezar. Desobedecendo às ordens dos seus pais, Arco fá-lo à mesma, indo parar ao mundo de Íris, uma menina da mesma idade que vive, em 2075, num mundo em que a tecnologia tem como propósito único proteger o ser humano de catástrofes naturais eminentes. É desta relação – entre as duas crianças, entre os dois mundos – que vive o filme.

 

 

Para um filme que não vem sem expetativa – a seleção oficial em Cannes, um estilo de animação sóbrio e colorido de influências nipónicas, uma temática premente e o aproveitar da dúvida milenar acerca do conteúdo final dos arco-íris – Arco não fica longe da desilusão. É um filme carinhoso e alegre, mas que não cuida do seu espetador. Se é um filme para miúdos e graúdos, peca pela superficialidade com que trata a sua narrativa, mundo, e personagens. Se é para crianças, comete o pecado mortal de não as entender.

Primeiro peca pela preguiça – não se gasta tempo nenhum a cultivar fascínio por estas realidades, criando a sensação de estranha inadequação pelo deslumbre das personagens vir sempre antes do nosso. O filme assume o deslumbre intrínseco do arco-íris, tratando o espetador, (e especialmente o mais novo) como o cão de Pavlov que reage cegamente aos estímulos. Este problema, de assumir que o público se convence daquilo que mostra, é uma maleita de que o filme padece de modo geral, fazendo com que a sua narrativa decorra não só previsivelmente mas sem profundidade como enredo ou veículo emocional.

 

 

Na realidade, o mundo deste filme é demasiado real, plausível, perfeitamente concebível como resultado de políticas públicas, para ser um mundo no qual uma narrativa para crianças se possa desenrolar. É um mundo de adultos com efeitos especiais, que deita para o lixo aquilo que poderia ser um veículo titânico para a sua mensagem de utopia perante a destruição do mundo e reconstrução para além da dor. O filme aproveita o tropo Ghibli – a negligência e o sofrimento infantil simultaneamente como obstáculo e pré-requisito de ser criança – mas falha em montar um mundo de fantasia onde as fronteiras entre o bem e o mal se dissolvem ao ponto da indissociabilidade, que é aquilo que em todos estes filmes consegue fazer redimir o sofrimento das personagens e lhes dá assertividade e criatividade para enfrentar a realidade, por muito assustadora e imprevisível que seja. Esta adultez vê-se logo na incapacidade do filme em atribuir obstáculos e vilões claros e multifacetados contra e com os quais os seus protagonistas navegam na sua aventura. É um filme demasiado ciente de poli-crises, da interligação de tudo, para fazer escolhas narrativas que consigam pôr a história de modo a caber nas mãos das suas crianças. Pior, escreve crianças que explicam demasiado bem o mundo em que vivem, que conhecem o seu lugar e que são meros peões do avanço circunstancial e incompreensivelmente mutável da narrativa que os envolve. O obstáculo não é a sua relação com o mundo e os outros, mas sim um incêndio, adultos que não os entendem, ou vilões que num ápice se transformam em grandes compinchas. Elas nunca participam, nem tocam, em nada maior do que elas. São apenas levadas.

 

 

Também se nota no seu diálogo. Talvez seja culpa da dobragem em português (praticamente a única versão disponível nos cinemas), mas é difícil não se ficar com a sensação de que este é um filme escrito por adultos que se esqueceram do que é ser crianças, achando que estas comuniquem apenas em fluxos intermináveis de dúvidas sem rumo (“onde achas que os pássaros se escondem na tempestade?”, entre outros). Isto nem sempre é um problema: serve para montar uma relação querida entre Arco e Íris, pautada pela curiosidade pela diferença. No entanto, comete o erro de não saber montar este diálogo sem dar um cunho proto-amoroso ao que constrói, reduzindo a relação.

Tendo dito isto, nem tudo é mau. O filme capta bem um futuro plausível para a nossa época, com Íris a residir num 2075 de fogos florestais constantes, babysitters robóticas, abandono infantil suavizado pela presença dos pais à mesa de jantar com videochamadas em holograma. A certa altura, ouvimo-la a perguntar: “achas que ainda existem desejos?”. Esta pergunta sublinha aquilo que é o ponto forte do filme, nomeadamente o de colocar na boca da criança a questão niilista dos tempos e conseguir, à medida que a narrativa avança, dar resposta indubitavelmente positiva à pergunta.

Arco, no modo como se resolve, dá plausibilidade a uma utopia que exista para além do estado a que chegámos. Dá-nos esperança que as nossas crianças, vivendo tempo suficiente na destruição e mantendo a sua capacidade inata de sonhar, entendam que é possível e vale a pena corrigir os nossos vícios morais, ambientais e tecnológicos e fazê-los jogar em conjunto para o futuro. Mas esta talvez seja uma reflexão demasiado adulta.