Apocalipse nos Trópicos, de Petra Costa: A Teologia do Mito

Hugo DinisJulho 28, 2025

O Bem venceu o Mal, bradou o homem. A imagem de Petra Costa encerra o que a própria apelida de epílogo em Apocalipse nos Trópicos – a invasão do Palácio do Congresso Nacional em Brasília por um grupo de apoiantes do ex-presidente Jair Bolsonaro. A exultação maniqueísta, perante a perspectiva de vitória, ecoa a própria ideia de Lula da Silva quando confrontado com a reflexão sobre o crescimento do voto militante evangélico no seu contexto. Dizia o presidente-eleito que o neopentecostalismo oferece o conforto das respostas simples e a perspectiva de escape a partir do abraçar religioso. Antes, a voz off de Petra Costa, agora em inglês mas já característico na sua exploração da convulsão governativa em torno da destituição de Dilma Rousseff e ascensão do Bolsonarismo em Democracia em Vertigem, propunha a ideia da democracia enquanto criação única que força o confronto entre ideais díspares na mesma casa. O maniqueísmo exultante do manifestante oferece-nos o confronto em modo de encontro imediato. A atitude permanentemente expansionista da militância evangélica vem rasgar o acordo democrático e racionalizar a ruptura por meio da vontade divina. Afinal, perante a vilania do pecador, “aqui a gente destrói os caras”, diz o mega-pastor evangélico Silas Malafaia.

Malafaia é, de resto, figura central de Apocalipse nos Trópicos. Enquadrado como vulto controlador por detrás da emergência de Bolsonaro, Malafaia representa a introdução de uma agressividade renovada no movimento evangélico quer na forma quer no conteúdo. A crispação do discurso (levada ao ponto de discussões no trânsito) é casada com uma ambição intervencionista de base que eleva os seus ideais à projecção de um verdadeiro projecto de poder. São frequentes as suas reafirmações do peso político, eleitoral, e judicial da Igreja. Mas a condução de Petra Costa deixa no ar a verdadeira psique do homem por detrás do jacto privado.

A exploração das ambições de poder da igreja evangélica foi, mais recentemente, parodiada pelo absurdo de The Righteous Gemstones. A sitcom de Danny McBride satiriza a megalomania delirante de uma família de televangelistas vápidos e deslumbrados pela promessa de fortuna. Nos trópicos, contudo, essa sofreguidão assume contornos deliberadamente mais aspiracionais. É certo que Malafaia tem vindo a construir conta bancária em torno da sua posição de poder, mas a sua impulsão para a força política parece estar menos ligada ao seu conforto material do que ao seu anseio de ser visto como “kingmaker”, alguém cuja aprovação deverá ser tida como condição sine qua non para o exercício de poder no Brasil.

As prelecções de Malafaia em Apocalipse nos Trópicos, prontamente amplificadas pela montagem voluntarista mas algo desconexa de Petra Costa, funcionam sobretudo como espelho de uma sociedade na qual o obscurantismo é arma de controlo social. Malafaia é fundamentalmente sintoma e não causa. Mas enquanto que o enquadramento sociológico da condição religiosa tem aqui um tratamento sóbrio e exemplar, o mesmo não se pode dizer da exposição da verdadeira essência do fenómeno. A convocação das imagens de arquivo das homilias de Billy Graham em salões da Carolina do Norte até estádios de futebol no Rio, ou as invectivas do Papa João Paulo II perante a prostração do padre Ernesto Cardenal, pintam uma imagem clara do nascimento e perpetuação de um movimento de poder.

No entanto, o olhar de Petra Costa raramente se vira em definitivo para o “como?” dos resultados desse movimento. Uma breve incursão na vida de uma empregada de limpeza que afirma ir votar em Bolsonaro por este ser um “homem de Deus” é disso bom exemplo, de resto. Na verdade, a sua concordância com as ideias de Lula é marcada pela adesão a um conjunto de noções erróneas propagadas pela máquina evangélica em torno de Bolsonaro, desde a fé de Lula às ubíquas “casas de banho unissexo”. O olhar de Petra Costa é aqui bem vindo, mas não existe um verdadeiro esforço de desafio de preconceito na presença da sua lente. A sua admissão inicial de incompreensão dos motivos por detrás da adesão ao neopentecostalismo brasileiro é aqui evidenciada por uma relativa ausência de reflexão sobre as condições materiais, sociais, e culturais desta família. Como começar por desconstruir um movimento sem com ele dialogar? Apocalipse nos Trópicos abdica de abrir fronteiras para fornecer respostas, muito ao jeito da ideia de Lula sobre o voto evangélico. É também, por isso, ilustrativa a passagem pelo discurso de apaziguamento de Lula na sua “carta” aos líderes evangélicos. A narração de Petra Costa vê como explicativo o paralelismo com a sua missiva aos banqueiros no decurso da sua primeira eleição. De facto, a mudança no discurso político brasileiro surge como mais um sintoma do poder do movimento evangélico, mas não necessariamente das implicações da perspectiva de um candidato presidencial que vê essa concessão não só como uma necessidade, mas também como uma recomendação moral.

Apocalipse nos Trópicos pede, ao espectador, muito mais uma avaliação moral do que uma examinação do seu dilema. As imagens impecavelmente sobrepostas dos apoiantes dos dois candidatos na noite eleitoral são a ilustração oportuna de um país dividido entre linhas ténues. Ainda que divididos nas respectivas barricadas, estas pessoas encaravam a eleição como um evento religioso, uma prova de fé em serviço do seu candidato, cuja parada não poderia estar mais elevada. Nessa imagem, o êxtase em comunhão com o divino de uns só poderia significar a descida aos infernos de outros. E, perante essa realização, ao espectador só resta aceitar esse maniqueísmo tal como nos é apresentado. Como um qualquer jogo de futebol, as claques balançam entre o júbilo da vitória ou a amargura da derrota, mas é a perspectiva de vitória alheia que mobiliza. Neste apocalipse, está em jogo a democracia brasileira e as liberdades por ela conquistada, ou a vinda de Jesus Cristo à Terra, dependendo de quem estiver na posse do microfone de Petra Costa. O Bem, de facto, pode ter vencido o Mal. É apenas uma questão de perspectiva. Ou falta dela.

 

Hugo Dinis