A edição 79 do Festival de Cannes está prestes a começar e merece uma reflexão mais demorada sobre o que mostra e não mostra, porque, como sabemos, Cannes nunca é só e apenas um festival com filmes lá dentro.
A imagem que o Festival de Cannes quer projetar para o futuro, sobre a edição deste ano, começa com o cartaz oficial, lançado há algumas semanas. Uma fotografia de rodagem de Thelma & Louise é a aposta do Festival em 2026. A fotografia a preto e branco, tirada por Roland Neveu, junta as personagens do filme interpretadas por Susan Saradon e Geena Davis, sentadas na carroçaria de um descapotável. Este foi o carro que, no filme, as levou numa viagem sem retorno, rumo à liberdade de escolha e à decisão de não quererem voltar às suas vidas dependentes dos homens ou onde permaneciam na sombra de uma sociedade que oferecia muito pouco às mulheres com vontade própria. A imagem foi escolhida para ser o cartaz oficial do Festival, quando passam 35 anos desde que o filme de Ridley Scott foi apresentado em estreia, em Cannes. Mais do que uma opção de iconografia do festival, a fotografia de Thelma & Louise representa a vontade de regressar a estas personagens, a este momento do cinema e a um filme que atravessa os tempos, para nos deixar um aviso: a emancipação das mulheres ainda não está plenamente conseguida e por isso, celebrá-la no cinema ou em qualquer forma de expressão artística é, ainda hoje, algo de muito revolucionário e intencional.

A decisão do Festival de Cannes, presidido pela alemã Iris Knobloch, é uma escolha que vai muito além da curadoria de cinema, é sobretudo reveladora de uma intenção. Cannes dá novamente palco a um filme que se sagrou como o primeiro do género road movie protagonizado por mulheres. São elas, em vez deles, que aceleram estrada fora, confrontam homens, apontam armas, tornam os homens em objetos (como eles tantas vezes fazem), e como fez Thelma à personagem interpretada por Brad Pitt num papel divertido de início de carreira, com uma personagem construída para satisfazer apenas os desejos de uma delas. A memória de uma história de afirmação de duas mulheres é o mote para continuarmos a refletir sobre a emancipação feminina e continuarmos o esforço para tentar apagar a herança preocupante que ainda subsiste de uma certa masculinidade tóxica. O cartaz oficial do Festival é o pretexto para voltarmos à estrada que estas personagens quiseram fazer rumo à liberdade e o que ainda falta percorrer algumas décadas depois. Obrigada, Cannes!

Hollywood está quase ausente num ano forte do cinema espanhol
A seleção de filmes candidatos à Palma de Ouro, composta por 22 filmes, continua a tentar ser um espelho de diversidade através do cinema, mas nem sempre a intenção é cumprida. Este ano, há duas evidências que saltam à vista. O cinema espanhol está representado com 3 filmes, o que nunca aconteceu até aqui. E o cinema americano tem apenas dois filmes a concurso, que representam a ala de produção mais independente. A ausência de grandes produções de Hollywood é, por isso mesmo, um dos temas de conversa de Cannes 2026. Em edições recentes, os estúdios norte-americanos aproveitaram a passadeira vermelha de Cannes para mostrar as estrelas e criar eventos a propósito de filmes como Missão: Impossível – Ajuste de Contas Final, Top Gun: Maverick ou Mad Max: Estrada da Fúria. Este ano, em abril, quando foi revelada boa parte da programação, o festival não apresentou nenhum título do chamado cinema de matriz popular, também conhecido como blockbuster, e só mais tarde anunciou uma sessão especial do filme Velocidade Furiosa, para assinalar os 25 anos da saga. A ausência de filmes norte-americanos de grande produção é sublinhada em conversas e foi, claro, tema para algumas perguntas a Thierry Frémaux, diretor artístico do Festival de Cannes. A resposta num primeiro momento foi quase provocadora e altiva – “quando os estúdios estão menos presentes em Cannes, estão menos presentes, ponto final.” Mas na conversa com os jornalistas que decorreu esta segunda-feira, na véspera do arranque do certame, Frémaux foi menos altivo na abordagem ao tema, lembrando que o festival tinha dois filmes americanos na competição principal e enumerando também os restantes títulos que, apesar de não terem capacidade de fazer furor nas bilheteiras, trazem selo de garantia pelos nomes envolvidos, como é o caso de Steven Soderbergh ou Ron Howard, que assinam dois documentários que serão exibidos em sessões especiais. Quanto às possíveis explicações para a ausência de grandes produções norte-americanas na edição 2026 de Cannes, algumas podem sugerir uma decisão influenciada pelo momento político, mas o Hollywood Reporter sublinha como justificação, os custos envolvidos para trazer a França os elencos e equipas de grandes filmes, mas também o facto de, em anos recentes, alguns blockbusters terem sido mal recebidos pela crítica presente no festival, comprometendo toda a operação de marketing e a garantia de conseguirem retorno financeiro com as receitas de bilheteira. Para o melhor e o pior, o Festival de Cannes é mesmo um dos maiores eventos de cinema do mundo! Ainda assim, a corrida à Palma de Ouro conta com dois americanos. James Gray apresenta o thriller Paper Tiger com Scarlett Johansson e Adam Driver, a garantirem algum frenesim na passadeira vermelha. Ira Sachs vai a concurso com The Man I Love, apresentado como uma fantasia musical passada em Nova Iorque durante os anos da Sida e que conta com a participação de Rami Malek.

Espanha em grande na competição oficial
A força do cinema espanhol ficou evidente no ano passado, o ano de Sirât, vencedor de vários prémios no Festival de Cannes, incluindo o prémio do júri e que fez caminho até conseguir duas nomeações aos Óscares da Academia. Oliver Laxe, realizador do filme, é francês de origem, mas mudou-se para Espanha e é a partir de Espanha que está a desenhar a sua carreira de contador de histórias no cinema. Sirât é um filme de uma força estranha, de uma beleza diferente, uma história comum num cenário improvável, um filme que nos apanha desprevenidos e despreparados para lidar com muitas das emoções que desfilam perante o ecrã. Depois de Sirât, podemos esperar de tudo um pouco do cinema espanhol, por isso nem sequer é surpreendente a presença forte no Festival de Cannes deste ano. Pedro Almodóvar apresenta-se na competição principal pela sétima vez, com o filme Amarga Navidad, que entretanto já estreou em Espanha. A Palma de Ouro é praticamente o único prémio de Cannes que ainda falta ao realizador espanhol, que já conseguiu vencer os prémios de melhor realizador e melhor argumento. Em outros festivais internacionais, já arrecadou um Urso de Ouro no Festival de Berlim, com A Lei do Desejo e foi galardoado no Festival de Veneza em 2024 com o Leão de Ouro para O Quarto ao Lado. Quem sabe, 2026 é o ano da Palma para o mais conceituado cineasta de Espanha e um nome de peso do cinema europeu. A delegação espanhola conta ainda com o filme La Bola Negra de Javier Calvo e Javier Ambrossi, uma dupla que tem feito um percurso maioritariamente televisivo, mas que passou para o cinema pela porta maior, ao conseguir lugar na competição principal de Cannes, com um filme que traz no elenco nomes como os de Penélope Cruz e Glenn Close. A terceira participação espanhola na corrida à Palma de Ouro é assegurada pelo filme El Ser Querido, realizado por Rodrigo Sorogoyen, que regressa a Cannes depois de em 2022 ter apresentado fora de competição o filme As Bestas, que deixava evidente a capacidade de o cineasta integrar a seleção competitiva e ter mais visibilidade, como agora se comprova.

Portugal está fora da primeira linha da competição mas está presente
Anunciado já depois de fechada a programação principal, Aquí, de Tiago Guedes, vai estrear na secção Cannes Première. O filme é uma adaptação da Trilogia de Jesus, do escrito J.M. Coetzee. Aquí é o regresso do realizador português ao festival, depois de em 2022 ter apresentado, também fora de competição, o filme Restos do Vento. No panorama das curtas-metragens, assinala-se o regresso de Daniel Soares, que em 2024 recebeu uma menção especial pelo filme Mau Por Um Momento e que agora apresenta o filme Algumas Coisas que Acontecem ao Lado de um Rio. Outra curta portuguesa é Onde Nascem os Pirilampos, filme de Clara Vieira, que integra a La Cinef, secção dedicada a filmes de escolas. Na competição Imersiva, secção competitiva criada há 3 anos, Portugal está representado por Lúcido, do artista multidisciplinar Vier, que integra o projeto coletivo The Dream Anthology, resultado de uma colaboração de seis estúdios de vários países, para promover experiências originais de realidade virtual.



