A ingenuidade é uma coisa bonita, aliada à fantasia ganha sustento. Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain, de Jean-Pierre Jeunet, mostra-nos a ingenuidade (será mesmo?) e a fantasia emaranhadas num espaço psíquico e social que parece querer ignorar as durezas constituintes da vida. O título não permite enganos: o fabuloso e o destino são já dimensões que rejeitam, à partida, a perceção realista de uma comunidade em relação – a família, o trabalho, os amigos, o amor. E o filme enche-nos de peripécias narrativas e visuais que sonham mágica, colorida e pitorescamente um quotidiano marcado pela solidão e pela profunda necessidade de perscrutar os comportamentos e pensamentos do outro.
Estamos, então, perante uma composição em camadas: a aparente leveza das acrobacias de Amélie e os seus resultados; em paralelo, as subtis notas de um mundo secreto, embrutecido, por detrás da luminosidade. Ambas construídas a partir das teias que se vão formando entre os intervenientes, relações de (des)amor, curiosas mas fundamentalmente insípidas, tendo em conta o seu envolvimento onírico, desatento a tudo o que não seja romantização.
No entanto, não nos deixemos levar. Amélie cumpre, em parte, um seu possível papel ao atestar que há uma força humana que conduz os acontecimentos, uma força de bondade e altruísmo que se assemelha a uma força transcendental complacente. Mas falha na proposta dessa mão como apropriadamente unificadora estando, na verdade, a mistificar ainda mais o sucesso fruto de boas ações. Isto porque, para lá de todas as artimanhas amélienescas, das aparentes alegrias e reconciliações, encontramos um poço fundo, repleto de mágoas mascaradas.
Não é que nos esconda as incongruências de uma felicidade encantada. A questão reside nas mesmas serem silenciosas (silenciadas?), visíveis na medida em que conseguimos saber da sua existência sem as compreender, transformando a dor num pano de fundo vazio, sem empatia, um veículo para uma declaração algo fútil e superficial acerca da capacidade de atingir o que se espera – principalmente estando esta assente num caráter peculiar, tímido e receoso.
A pretensão, se é que existe, de testemunhar as dificuldades inerentes à vida fica-se pelos apagados resquícios de angústia – e não é como se nós, espectadores, pudéssemos, como o faz o filme, deixar pendentes as injustiças e a tristeza que assolam, por exemplo, Lucien ou Dufayel. A velhice, a incompreensão e mesmo a violência entre empregador e empregado ou entre (espécies de) casais são aspetos aqui menosprezados, balizares, de maneira a atingir um resultado esperançoso, positivo e humorístico.
Parece abrir-se um portal se concebermos que há um fio condutor passível de fazer comunicar todo este imaginário: o mundo do trabalho, simples, humilde. Seja um café, um pequeno mercado ou uma loja de filmes pornográficos, os seus ocupantes sonhadores desejam construir o amor com o outro, procuram a inventividade. Uma espécie de Aki Kaurismäki que, condimentado com um toque de Wes Anderson, não reúne a força carismática e conceptual para provocar a reflexão acerca de uma classe que tenta escapar. Talvez o melhor exemplo destes apontamentos, e uma das micronarrativas mais interessantes do filme, será o da enigmática figura que capta a atenção de Nino e Amélie: a aparição misteriosa feito graal, que se revela operário da máquina de fotografias instantâneas – o quão longe nos leva a quimera, ou o poder encerrado no mais comum dos mortais?
Apesar de tudo, o aparato formal que envolve Amélie torna-se, diversas vezes, tão encantador que, à revelia, nos faz esquecer a visceralidade deste mundo fantasiado. Os pequenos pormenores que alimentam os caráteres destas personagens são intrigantes e apelativos, ao mesmo tempo que, infelizmente, fazem com que sucumbam num conto de fadas que os despersonaliza.
À falta de um subtexto que desconstrua este acumular de maravilhas disfarçadas de conquistas, apreciemos a beleza despreocupada, equilibradamente, com a consciência de que estamos sob um olhar enviesado, desencaminhador e potencialmente perigoso se queremos dar algum significado à ação pública e transformadora.
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Le fabuleux destin d’Amélie Poulain passa dia 15 de Outubro, no Cinema Trindade







