Alpha (2025), de Julia Ducournau: O pessoal (não) é político

Laura MendesOutubro 31, 2025

Tudo em Alpha é excessivo. Também o é a ambição de Julia Ducournau que tenta, numa única história, incorporar um sem-fim de camadas sobre trauma familiar, social e corporal. A metáfora parecia bem encaminhada, ainda que construída a partir de chavões há muito gastos: o universo desresponsabilizado dos adolescentes, em câmara lenta; a fatal tatuagem feita sabe-se lá porquê, avisando-nos de que a agulha seria o objeto primordial que nos guiaria nesta reflexão acerca da crise da SIDA.

A estrutura das personagens e o desenrolar da narrativa afunilam para um ponto crítico: a mãe médica, a filha infetada, o tio-surpresa também ele infetado, mas de caráter cínico, desacreditado. E talvez seja por isso que a emotividade protagoniza este filme – como expressão de um poço fundo sem retorno. No entanto, para além de ter surgido despropositada – o body horror inicial, atraente e disruptor, indicava que se seguiria por outros caminhos –, a avalanche emocional retira o núcleo a qualquer situação apresentada, acabando por ocupar todo o espaço visual e narrativo.

É penoso que tenhamos de falar desta forma sobre Alpha porque, entre toda a mixórdia, existem elementos que, passando despercebidos face ao aparato, ainda assim constituem o que este filme tem de melhor. Falamos da herança ancestral da família de Alpha, uma herança mística, repleta de rituais e crenças que visam compreender a vida e a morte. Não se percebe como é que esta referência permanece tão anónima e superficial, tendo em conta que o próprio desenrolar da narrativa vai convergindo para o lado mais esotérico, terminando, inclusive, com a alusão à areia vermelha, um mito que se perde entre tudo o resto.

Não é que queiramos que tudo nos seja dito, letra a letra – pelo contrário, o indizível fala mais alto que as palavras. E, por outro lado, é, sem dúvida, na lacuna que encontramos o que Alpha tem de mais profundo – o espaço que a metáfora abre para o símbolo universal. O problema está no reduzido espaço que Ducournau oferece ao povo e à cultura evocados – situa-os apenas na intimidade, ignorando as marcas públicas do colonialismo ao longo das gerações. Porque este almeja ser um conto acerca dos despedaçados – literalmente, pois a doença aqui retratada transforma o corpo invadido em pedra, uma escolha imagética interessante –, dos fustigados e dos violentados: não só os colonizados; mas os que resistem ao ataque da opressão social, como os vimos, obscuramente, nos momentos em que Alpha e o tio se aventuram na vida noturna. E lamentamos que mais não tenha sido dito acerca destas pessoas, dado o seu paradoxal protagonismo que acaba condicionado por uma visão pessoal levada ao extremo.

Um outro fio condutor – que acaba perdido – é o da memória. Neste caso, o seu mais fiel representante é Amin, um espectro que vagueia desconhecido e que acaba por encontrar um porto seguro na sua sobrinha. De igual forma, algo falha a respeito desta personagem. Indícios de um vício, um homem entre uma família maioritariamente feminina – faltam-nos peças fulcrais para desvendar o mistério por detrás da angústia de Amin, a sua presença cíclica e basilar.

O filme vai adensando a sua atmosfera labiríntica, com a memória coletiva da família a espelhar-se e despedaçar-se na mente de Alpha, passado, presente e futuro fundidos. A ideia é preciosa, visto ser ela a ponta do laço familiar, a que carrega o fardo acumulado. Mas essa acumulação é tal – o vírus de que é vítima, os desamores da adolescência, a figura paternal ausente, o desvincular das suas origens – que acabamos sem a exploração real de nenhum desses assuntos tão relevantes, tão desafiantes, especialmente porque inseridos no seio de um momento extremamente denso, negro e de luto na história coletiva.

A dimensão política é também maioritariamente velada por uma abordagem desadequada, por exemplo, ao zombificar uma massa de pessoas doentes, embora o filme reflita, entrelinhas, o estigma e o silêncio reais em torno da crise – a destacar, a troca de olhares entre Alpha e o professor, a única cena em que sentimos verdadeiramente a emoção pretendida, porque não somos a ela obrigada, surgindo naturalmente numa sala de aula barulhenta, onde o refúgio é o olhar de quem nos compreende.

Um filme que desiste das suas ideias, procurando uma (re)solução fácil para as problemáticas que apresenta e atira ao ar, até que alguém as apanhe.

Laura Mendes