Não é fácil escrever sobre algo que não tem nada a dizer. After The Hunt, o mais recente trabalho de Luca Guadagnino, sofre precisamente do voluntarismo cego do seu realizador em aceitar todo e qualquer argumento que lhe apareça. Nessa senda, resolveu fazer um filme que expressamente coloca ao centro da sua mensagem a ideia de uma grande declaração cultural sobre O Momento Actual. Ora nem O Momento Actual de que Guadagnino fala é o momento que actualmente vivemos nem Guadagnino parece ter o que quer que seja para dizer sobre ele. A emergência da cultura de cancelamento e do movimento MeToo é aqui tratada com uma vapidez tremenda, incapaz que estão Guadagnino e a sua escriba Nora Garrett de sequer descobrir as pessoas por detrás dos escândalos. O trio amoroso composto por Andrew Garfield, Julia Roberts e Ayo Edebiri navega numa maionese de tal forma espessa que chega ao ponto de retirar qualquer tipo de agência às suas personagens.
After The Hunt é o quarto filme nos últimos três anos de Guadagnino. Coloca-nos perante um ambiente académico de elite, daqueles que terão sido o epicentro das discussões sobre cultura de cancelamento e espaços seguros nos últimos anos, no campus da universidade de Yale. Aqui, Julia Roberts serve de peão central num conto de moralidade que parece menos interessado em explorar a multiplicidade ética das tomadas de decisão das suas personagens e mais adepto de criar situações em que se torna impossível discernir as motivações delas. Roberts e Andrew Garfield são dois professores em busca da incorporação definitiva nos quadros da universidade (o “tenure”). Pela sua identidade, Roberts é-nos apresentada como alguém extraordinariamente competente, resguardada pela necessidade de competir dentro de uma estrutura dominada por homens brancos. Já Garfield, abertamente mais expansivo, conserva uma admiração amorosa por Roberts de longa data que é ameaçada pela presença de uma jovem estudante negra e particularmente endinheirada, desempenhada por Ayo Edebiri, também ela fascinada com a figura da professora girlboss.

Numa cena que chegámos a assistir no trailer do filme, Roberts castiga Edebiri pela sua incapacidade de se impor pela luta pelo que deseja. Roberts pelo menos saberá o que quer. Na verdade, a sua personagem almeja o sucesso profissional pelo qual lutou toda a sua carreira, na forma do chamado “tenure” académico, mas a ideia de que isso tomará precedência sobre tudo o resto na sua vida é persistentemente negada por um argumento ziguezagueante. O seu casamento padece de uma frieza sentimental que se manifesta na falta de sexo. O seu flirt com Garfield, reconfortante mas repelente, e com Edebiri, superficial e narcísico, pinta uma figura com uma multiplicidade apenas sugestiva. Roberts é um amontoado de ideias desenhado para servir de poste de ricochete para os dramas pessoais de quem lhe rodeia. O tal Momento Actual em pessoa. Garrett e Guadagnino parecem retirar todas as lições e mais algumas das guerras culturais dos últimos anos, lançando temas e respostas aos magotes, com um respeito mínimo pelas suas personagens e por quem tem a responsabilidade de as representar.

Num vácuo, seria de esperar que After The Hunt, e em particular o argumento de Garrett, tivesse o condão de colocar as suas personagens em decisões morais que colocassem em perigo a sua coerência interna, ou pelo menos que as fizessem reflectir a elas e a nós enquanto público sobre a sua posição. Ao invés, este filme acaba por representar uma amálgama incoerente de artigos de opinião publicados por essa imprensa anglo-saxónica fora sobre a cultura de cancelamento. Também por isso, After The Hunt vai periodicamente confrontando-nos com uma série de deixas avulsas desenhadas para levantar da campa indignações académicas de 2020: “not everything is supposed to make you comfortable“, diz Roberts a Edebiri perante o desconforto desta. Ainda que esta linha do tempo aparente forçar o reaquecimento de disputas de redes sociais com anos de idade, o resultado acaba por ser um enorme encolher de ombros da parte de um espectador confrontado com o pouco que Garrett parece ter a dizer sobre eles, passando para os actores a responsabilidade de conferir outra dimensão ao material de origem.
Nesse sentido, seria sempre natural que recaísse em Roberts o ónus do magnetismo para a câmara de Guadagnino. E ainda que os seus esforços sejam admiráveis, não se pode propriamente dizer que tragam claridade à trama. After The Hunt acaba por não lidar com pessoas reais tanto quanto procura encontrar arquétipos de pessoas que ouvimos falar pela internet fora nos últimos anos. Os diálogos académicos e superpreenchidos por desdém ao elitismo do mundo do ensino superior colocam em evidência aquilo que a personagem de Garfield se queixa após a acusação de que é alvo: é tudo um enorme e enfadonho cliché. O enfado acaba por ser nosso.




