Aelita (1924), de Yakov Protazanov – Amanhãs que lutam

Hugo DinisMaio 25, 2026

Aelita. Apenas a menção do nome evoca algo de sedutor, algo de exótico. A provocação, no contexto de uma Rússia a caminho da Grande União Soviética, na ressaca da falência da Grande Rússia czarista, era simplesmente irresistível para o grande público. Aelita falava de uma esperança indizível, na força de um projecto político que, ainda imberbe, sublinhava a necessidade não de heróis, mas de ideias. Aelita (Iuliia Solntseva) é, na verdade, o nome da filha do rei de Marte, e o objecto dos sonhos de Los (Nikolai Tseretelli), um engenheiro soviético encarregado da reconstrução de uma pátria devastada pela I Grande Guerra. Aelita é, também, na pena de Alexei Tolstoy, o autor do romance no qual este filme se baseia, o luar que desvanece, na língua marciana, um espectro de uma Lady Macbeth cujo olhar sufoca mundos e galáxias.

 

 

Poucos cineastas terão uma visão mais privilegiada da transição da produção cinematográfica russa no pré e no pós-revolução do que Yakov Protazanov. Exasperado com a carreira em engenharia para a qual tinha sido empurrado pelos pais, um jovem Protazanov estabeleceu-se em Moscovo numa loja de aluguer de filmes estrangeiros a um público russo. O contacto com o métier adensou-se e cedo estava a realizar o seu primeiro registo, muito antes da eclosão da guerra, em 1911 com Pesnia Katorzhanina (The Convict’s Song). A sua ligação à produtora Thiemann & Reinhardt permitiu a Protazanov aproveitar a proibição de entrada de filmes de fora do país após 1914, com adaptações de grande sucesso popular de Tolstoi e Pushkin. A revolução trouxe Protazanov ao Ocidente, primeiro a França e depois a Berlim, mas também revelou nomes rapidamente identificados pelos críticos a Oeste como uma nova vaga no avant garde soviético. Eisenstein, Pudovkin, Vertov ou Dovzhenko; todos representavam uma nova visão de um futuro vibrante, aquele de que John Reed falava em Ten Days That Shook the World (1919).

Protazanov, para o Ocidente, representava o passado. Um resquício de um cinema acomodado e burguês, com todos os vicíos do antigo czarismo. Aelita, um tremendo sucesso junto de audiências e críticos soviéticos, trouxe consigo a reabilitação de um cineasta capaz de florescer em mundos dramaticamente distintos. Mas também a noção inesquecível de que este futuro deixaria para trás uma geração no rasto de um amanhã ideal. “Nós, jovens no final do século passado”, dizia Protazanov a propósito de um debate sobre o cinema pré-revolucionário promovido pelo Instituto Cinematográfico Soviético (VGIK) em 1945, “não tivemos a oportunidade de nos preocuparmos com a nossa escolha de profissão; responder à pergunta “o que serei eu?” que tanto preocupa a juventude soviética de hoje era um destino que apenas estava reservado a uma minoria privilegiada”. Aelita tem a particularidade de ser um filme declaradamente onírico, ou não contasse a história de um sonho de um engenheiro que anseia por ir a Marte, mas também profundamente aspiracional dentro daquilo que é o mito fundacional do regime soviético.

 

 

Aelita é o primeiro filme realizado por Protazanov após o seu regresso à União Soviética. A fama que conquistou pela sua promoção ocidentalizada, com ênfase nos faustosos e futuristas designs de um planeta Marte similarmente marcado pela prevalência de fenómenos de classe, deixou espaço a Protazanov para alterar fundamentalmente o romance de Tolstoy, complexificando relações, realçando a veia melodramática dos acontecimentos, e, necessariamente, infundindo a narrativa de um conteúdo propagandístico que tem tanto de aspiracional como de mundano. Os designs, esses, a cargo de Isaak Rabinovich and Aleksandra Ekster mantêm-se deslumbrantes ao dia de hoje. A mecânica de um curioso objecto capaz de observar a o planeta Terra à distância de Marte convida-nos a um mundo angular e marcadamente estranho. Com ele, Aelita, a filha do rei, observa o trânsito assoberbado de Londres, as multidões apressadas em Nova Iorque, mas sobretudo o beijo entre Los, o engenheiro, e Natasha (Valentina Kuindzhi), a responsável por um centro de gestão de refugiados e provisões de guerra e noiva do protagonista. Assim, as imagens que Aelita vê da terra vão do industrial, ao citadino ao intensamente pessoal.

 

 

Os sonhos marcianos de Los adoptam um papel secundário perante a política pequena dos terrestres. Cedo, Natasha conhece Ehrlich (Pavel Pol), um especulador e contrabandista de bens de luxo, representativo daquilo que Protazanov apelida de “furto” ao povo soviético. O seu estatuto enquanto burguês, saudosista de outros tempos “quando os modos das pessoas eram finos e delicados”, é deixado sob a condição de parasita. Ehrlich infiltra-se na residência dos recém-casados Los e Natasha, e procura seduzi-la com visões de chocolate e festas de gente distinta. Numa cena sublime, Natasha segue com Ehrlich para o baile da burguesia, em que os convidados despem os disfarces populares para revelar trajes opulentos, sapatos de gala e vestidos formais. A sua traição de Natasha é também a corrupção moral que carrega consigo aos olhos de Los, mas são os olhos fantasmagóricos da sua mulher que ecoam o verdadeiro desespero e desvario da sedução burguesa.

Os sentimentos de traição de Los são alimentados pelo seu destacamento de seis meses na construção de uma central energética, em mais uma demonstração do fulgor industrial da sociedade soviética nascente. O retorno de Los gera um ataque de ciúme e este alveja Natasha, e disfarça-se de Spiridonov (também Tseretelli), o seu companheiro de pesquisa, dedicando-se à construção de uma nave espacial para concretizar o seu sonho marciano. O que Protazanov nos apresenta no sonho de Los é a função do onirismo enquanto elemento renovador da experiência soviética, algo que surge como desconstrutor de ideias e reconstrutor de uma identidade individual dada à entrega a impulsos pessoais.

 

 

A palavra livre de um homem livre”. Assim nos apresenta Protazanov a revolução em Marte. Liderada pela palavra, propagada pelas ideias. O engenheiro Los, intoxicado pela princesa Aelita, revê na exploração dos líderes de Marte a sua própria luta pelo igualitarismo soviético terreno. O seu acto de expiação pela morte da amada é o legado que deixa o seu sonho. Uma sociedade liberta de líderes, mas também despojada de sonhos. O regresso à realidade é, para si, a garantia do seu futuro, muito para além dos ângulos obtusos das construções futuristas do planeta Marte. Um presente de luta e um amanhã que não lhe faltará. Uma efabulação notável de Protazanov, o retornado.

 

 

Aelita é apresentado esta terça-feira, dia 26 de Maio, na Cinemateca Portuguesa como parte do ciclo “Viagem ao Fim do Mudo” – acompanhamento ao piano por Filipe Raposo.

 

Hugo Dinis