“A tristeza, em termos criativos, é uma coisa difícil de apurar”: Carolina Serranito, co-diretora do festival Triste Para Sempre

As idas ao cinema de Carolina Serranito e António Simão raramente geravam consenso, com uma exceção: os filmes tristes. Amigos do circuito dos festivais lisboetas, começaram a pensar organizar um evento próprio, e foi aqui que a temática da tristeza se acabou por impor. “Percebemos que estas narrativas nos apaixonam muito”, explica à Tribuna do Cinema a co-fundadora e co-diretora do festival Triste Para Sempre, que de 10 a 12 de julho celebra a sua sexta edição – e a primeira no Cinema São Jorge, “capital” do cinema português e a mais emblemática sala do país.

 

 

“Foi sempre a nossa ambição (…) e apesar de tudo aconteceu mais rápido do que pensámos”, confessa Carolina, para quem o festival começou como uma brincadeira que foi ganhando seriedade com o passar dos anos. Ainda que admita a dificuldade de montar um evento de nicho como o ‘Triste’ perante o enormíssimo caudal cultural da cidade de Lisboa, refere que o que distingue este festival é justamente a intimidade que proporciona ao espectador, na criação de um espaço coletivo para explorar sentimentos e sensações que por norma temos como demasiado íntimos. “Não somos um fórum de indústria como o Indie, o FEST ou o MotelX. Somos um cantinho reconfortante que convida toda a gente a estar lá um bocadinho, no seu melhor ou no seu pior, e tenta criar uma experiência agradável dentro de sentimentos de desagrado”.

A tristeza, como o cinema, reconforta e vivifica quem se permite a experimentá-la; é esse o mote abraçado pela organização, e pela escolha dos cerca de 40 títulos (na sua maioria curtas-metragens, mas também inclui longas) que constituem o programa deste ano. Quem os quiser descobrir poderá fazê-lo de sexta a domingo, na Sala 3 do São Jorge – sempre com uma lágrima e, quem sabe no final, com um sorriso no canto do olhar.

 

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Como surgiu esta ideia de fazer um festival focado na temática da tristeza?

Surgiu em 2018, com base numa amizade entre mim e o António Simão (co-fundador do Triste Para Sempre). Começámos a conhecer-nos dentro do meio dos festivais de cinema e queríamos muito participar num destes projetos, até que pensámos “olha, vamos fazer o nosso, o que é que poderia ser”? Mais como uma graça do que outra coisa qualquer, pensámos que este tema podia ser interessante e decidimos fazer uma experiência. Correu muito bem e a partir daí temos desenvolvido a ideia com muito mais detalhe e ambição. Tornou-se uma coisa muito séria para nós procurar a tristeza, procurar símbolos e ligações de curadoria entre a tristeza no cinema e noutras áreas — por exemplo este ano, com a tristeza nas tradições — e desenvolver isto com cada vez mais elementos externos e internos também, para colocar a nossa identidade no projeto. No fundo o que procuramos é abrir um espaço para os finais infelizes, sem que seja uma coisa depressiva ou horrorosa, mas que se torne numa coisa bonita e com dignidade.

Porquê especificamente a temática da tristeza? Sentiam que estava em falta noutros programas?

Também. Há filmes tristes muito bonitos. Eu e o António temos backgrounds um bocado diferentes e vemos muitos filmes juntos, mas só concordávamos naqueles que eram tristes. Se fôssemos ver um filme de ficção, um documentário, o que fosse, ele gostava e eu odiava, e vice-versa, mas sempre que a temática era triste conseguíamos encontrar-nos a meio. A partir daí começou este interesse mútuo e decidimos enveredar por aí. Depois o tempo foi passando e percebemos que estas narrativas nos apaixonam muito. Todos os anos recebemos filmes mais bonitos, mais regeneradores… há muita coisa para fazer com este tema. Temos tido a experiência de todos os anos conseguirmos juntar x filmes e aplicá-los a uma sessão sobre a paternidade, outra sobre viagens, o que for.

Como é feita a programação? Sei que há blocos temáticos, mas que lógica seguem?

Efetivamente é por blocos temáticos. Somos cerca de seis pessoas na programação, em duas equipas de três. Temos o open call aberto durante cinco meses, e durante esse período a Equipa A vê x filmes, a Equipa B vê os outros e depois trocam, e fazemos assim a triagem. Depois temos de decidir o que é que aqueles filmes têm em comum: desafiamos os programadores a tentar ver o fio condutor entre os filmes e a colocá-los num bloco de 90 minutos. Acaba por ser uma experiência gira de reflexão e curadoria. Cada pessoa faz o seu trabalho mas às vezes és surpreendido por aquilo que as pessoas trazem. Este ano, por exemplo, cada programador trouxe sugestões temáticas, e depois todas juntas decidiu-se onde é que os filmes encaixavam.

Ao todo vêem quantos filmes?

Nesta última edição acho que chegou a 300.

E quantos estão na programação final?

42.

Ainda é uma seleção bastante vasta. Falaste há pouco sobre o tema da ruralidade e das tradições, que serve como fio condutor à edição deste ano. O que é que destacas em concreto na programação de 2026?

Destaco a sessão “Para Onde Foi a Mãe” (sáb. 11 de julho, às 17h00). O drama familiar e a experiência entre pais e filhos é uma coisa que acontece todos os anos, mas este ano foi específica ao papel da mãe – presente, ausente, morta, a figura maternal da ama –, as voltas que pode ter. É muito interessante porque cada filme te faz uma pergunta completamente diferente. Temos pessoas que nos ajudam a fazer a tradução e só vêem os filmes quando estão a traduzi-los, que nos disseram que certos filmes lhes partiram o coração e não estavam nada à espera.

Recomendo muito também uma sessão chamada “Corações Partidos (dom. 12 de julho, às 16h15), sobre relações que chegam ao fim seja por desgosto, por desencontro, porque as pessoas se afastam, pelo luto, o que for. É uma sessão muito bonita, muito sensível e muito cuidadosa com este tema. Há também uma sessão muito original este ano, “O Corpo Estranho” (dom. 12 de julho, às 14h15), com filmes que abordam a temática do corpo, da disforia, com algum terror até. É uma tristeza mais inesperada, relacionada com vivermos no nosso corpo e o facto de isso nem sempre ser uma experiência agradável.

 

 

Desde a primeira edição, em 2019, têm passado por várias salas e espaços culturais de Lisboa. Este ano estreiam-se no São Jorge – é para vocês um sinal de afirmação, sendo esta a grande sala emblemática da cidade?

Estamos muito felizes por podermos ter chegado aqui, foi sempre a nossa ambição. Nós começámos o festival de uma maneira muito informal até percebermos que a informalidade tem os seus problemas, e fizemos um grande esforço para tornar o festival numa entidade: tivemos de criar uma associação, alinhar contabilidade, uma série de coisas institucionais para chegar aqui, e apesar de tudo aconteceu mais rápido do que pensámos. Estamos muito orgulhosos, muito contentes e a fazer figas para que corra bem.

Este não deixa de ser um festival mais de nicho, com um âmbito menos alargado do que um Indielisboa, por exemplo. Que dificuldades encontraram ao longo dos anos, inerentes a uma proposta deste tipo?

Bom, desde há duas edições que somos formalmente uma associação. Até aí estávamos agregados a associações, mas éramos um projeto informal, por isso só me consigo “queixar” até certo ponto. Enquanto não és uma entidade, não consegues pedir apoios ou mover-te formalmente, e criar uma associação é uma coisa muito stressante e que tem tudo para correr mal. As candidaturas a apoios são extenuantes, há muitas entidades a concorrer… e depois nós fazemos isto em part time, ninguém vive do festival. Às vezes é difícil consolidares-te com uma equipa tão pequena – somos quatro pessoas na direção. Acho que Lisboa também apresenta muitas dificuldades, é uma capital cheia de atividade e as pessoas têm uma atitude de “se eu perder esta, vou à próxima”. Há tantos eventos, tanta rotatividade de atividade cultural que não sentes urgência em ir.

Há uma dificuldade em atrair público?

Sim, é complicado.

Além do conceito, o que é que na vossa ótica vos distingue desses outros festivais, qual é o fator diferenciador?

Acho que o Triste Para Sempre se baseia sobretudo numa experiência emocional, mais do que na competitividade do cinema. Privilegiamos a experiência do espectador e da narrativa que está a ser apresentada, não somos um fórum de indústria como o Indie, o FEST ou o MotelX. Somos um cantinho reconfortante que convida toda a gente a estar lá um bocadinho, no seu melhor ou no seu pior, e tenta criar uma experiência agradável dentro de sentimentos de desagrado.

 

 

Uma experiência comunitária, também?

Sim. Se bem que reparamos que há muita gente que vem ao Triste sozinha, por acaso.

Porque é que achas que isso acontece?

Bem, nós tentamos pela nossa comunicação dizer às pessoas que é um bom sítio para se ir sozinho. E como é um festival de meios pequenos conseguimos sempre falar com toda a gente, acho que isso também acaba por confortar a pessoa.

Pergunto porque há uma dimensão que me parece interessante num festival dedicado à tristeza, que é esta ideia de catarse no período em que vivemos. Não que não pudesse acontecer noutras épocas, mas talvez ganhe outra pertinência neste tempo complicado para tanta gente. Achas que ajuda a dar outro ênfase ao festival?

Talvez, não sei. Sabes que estando dentro é um bocado difícil ver isso. Claro que tentamos que a nossa programação seja relevante aos tempos que vivemos. Não é sempre possível responder a todos os temas, e também queremos que seja triste, mas não pessimista ou fatalista. Este ano, por exemplo, uma das coisas que nos assolava passava pela inteligência artificial, a industrialização excessiva, meios anti-criativos a contaminar a arte. Por isso é que nos debruçámos muito nesta questão do tradicionalismo, da preservação, do artesanato, porque temos de manter estas coisas vivas e mostrá-las para que não desapareçam totalmente.

E achas que a dimensão do festival pode, num ponto positivo, funcionar como espaço para cineastas emergentes, que estejam a dar os primeiros passos e que não consigam entrar nos grandes eventos? Podem ter maior facilidade em ver os seus filmes exibidos num festival como o Triste Para Sempre?

Acho que sim. Acho que autores que estejam a lançar a sua obra devem debruçar-se sobre festivais pequenos, porque muitas vezes têm uma atenção redobrada sobre os filmes e um público muito mais empenhado nas coisas que vê, e isso é positivo. Quando um festival é pequeno, está à procura de muita coisa. O Indie recebe à volta de 3 mil filmes — quando recebes esta quantidade de obras já não procuras nada, só queres encontrar o que é bom. No nosso caso não, continuamos à procura, vamos aos festivais, vemos um filme que gostamos e pegamos nele, não temos problemas sobre se é um filme de escola ou se foi feito no ano passado. Para nós isso não é um conflito porque a nossa potência não é a da indústria do cinema. Acho que existe lugar para filmes novos de pessoas que estão a experimentar e às vezes conseguem fazer coisas boas. No nosso caso em particular tem é de ser triste, sendo que a tristeza, em termos criativos, é uma coisa difícil de apurar, cai rapidamente num buraco de ser previsível ou foleiro ou exagerado. Mas sim, sem dúvida que acho que os festivais emergentes são bons para autores emergentes, devem os dois andar de mão dada.

 

André Filipe Antunes