Hoje, dia 24 de Abril, a distribuidora No Comboio estreia nas salas portuguesas A Savana e a Montanha, o mais recente filme de Paulo Carneiro, que viu a sua estreia mundial na Quinzena dos Cineastas de Cannes. É um retrato da comunidade de Covas do Barroso e da sua luta perante a ameaça que já dura há anos, e que continua presente, da construção de uma exploração de lítio. Seria a maior a céu aberto da Europa, devastadora para a paisagem, para a natureza, para as pessoas e para o modo de vida da região. A luta é muito séria, e pode ser lida com precisão nesta reportagem do Público.
O filme, um documentário em western sonhado, é um filme de Abril e da liberdade: não há qualquer equívoco na data de estreia. No seguimento de um visionamento de imprensa, sentei-me com Paulo Carneiro, no primeiro andar da Cinemateca, para falarmos.

Paulo, estive a fazer alguma leitura sobre o caso. A Savannah Resources, empresa responsável pelo projecto da exploração de lítio, está neste momento a fazer prospecções em terrenos privados. Uma das coisas mais incríveis com que me deparei em relação à luta (reportagem no Jornal Mapa – Jornal de Informação Crítica) foi o bloqueio de sete meses a fio realizado pelas pessoas às máquinas, entre Novembro de 2023 e Maio de 2024, por turnos. “Quando o tempo amainava, jogava-se lá às cartas, fazia-se crochet, depois fez-se uma horta” – lê-se no jornal. As máquinas não se podiam mover. Toda esta história real é obviamente mais intensa, em duração, pessoas envolvidas e drama, do que aquilo que está no teu filme. O filme acaba por ser uma encenação mais representativa, alegórica?
Sim. Eu acho que o filme também não quer ter esse lado, não quer apresentar números. Não quer apresentar a destruição – eu acho que isso também é muito claro. Não é para se desresponsabilizar: nós estamos a trabalhar cinema. Eu estou nos antípodas do Michael Moore, se quiseres. Não sei se saberia fazer o que ele faz. A ideia é sempre, através do cinema, de que forma é que tratamos uma realidade? E sem estar preocupado em ser factual. Quando eu ponho um texto a dizer que é uma reconstituição, é uma reconstituição, mas mesmo ela sonhada, não é? Eles adorariam poder sequestrar um engenheiro da empresa, imaginemos. Essa cena está no filme – mas isso não aconteceu. Mas também não importa, acredito eu.

Para ser um cinema de luta… é uma pergunta que eu te ponho quase a ti – o que é um cinema de luta, isso existe? Existe um estereótipo daquilo que é, mas vamos acabar com esse estereótipo e vamos fazer outra coisa.
Esta luta é uma luta de escritório – isto para ficar muito claro também para a entrevista e para o que vais escrever. Uma luta de escritório: é leitura de papéis específicos por pessoas especializadas, envios de e-mails, discussões de Zoom, porque nem toda a gente está em Covas do Barroso, e é isto a luta – a luta não é práctica. E era importante que a luta fosse práctica para poder ser cinema.
Mas o lado de estar lá, a impedir que a máquina ande, é um acto práctico.
Sim. No momento em que estávamos a fazer o filme, isso não estava a acontecer. Nessa altura que referes, já estávamos na montagem. Filmámos em 2021, 2022, e um bocado de 2023. Mas mesmo as fases que houve de máquinas no monte, que efectivamente eram coisas muito curtas onde não houve esse processo de piquete que estás a ler, é um bocado difícil o cinema ter essa capacidade, se não é uma narrativa muito frágil. Tem de haver uma certa consistência. Com o piquete, sim, o filme poderia, até para fazer ficção, pegar nisso. Mas ainda não estava a acontecer.
Adicionalmente, o cinema não tem essa capacidade de actuar tão rápido, no sentido de se fazer e mostrar. O que causa actuação e a amplifica é também a estratégia de estreia do filme. Se filmasses essa acção e o filme tivesse tido uma estreia apagada, ou fosse só ali mostrado em Boticas [município onde se insere Covas do Barroso], não conseguias ter essa amplificação. O facto do filme ter estreado em Cannes foi uma estratégia que faz com que ele permita também que as pessoas olhem para este sítio e para o que se está a passar de outra forma.

No final do filme, aparece escrito: “Nenhum inimigo foi filmado”. Todos os momentos que vemos são encenados pelas pessoas de Covas do Barroso, por exemplo a cena onde a rapariga vai oferecer chouriços aos operadores das máquinas. Como é que lhes fizeste esta proposta?
Depois da estreia da minha primeira longa-metragem, Bostofrio, que é filmado numa aldeia ali perto, algumas pessoas aproximaram-se de mim a falar-me um pouco do que se passava em Covas do Barroso, apesar de eu já estar informado – o meu pai é da região. Covas do Barroso é uma aldeia na região do Barroso. Dessa região fazem parte os concelhos de Montalegre e de Boticas – é esta região que é denominada Património Agrícola Mundial. É única em Portugal, existem cerca de 30 na Europa, menos de 70 no mundo.
O cinema pode dar voz. Na altura, estava com outro projecto em mãos, mas quando me libertei um pouco mais disso, comecei a fazer um trabalho de recolha de testemunhos e vídeos para as redes sociais, para ajudar um bocado na luta, ter uma contribuição. Não havia ainda a consciência de que ia fazer um filme. Não pode haver uma leveza muito grande em fazer filmes, não é só pegar numa câmara e fazer. Não é qualquer coisa que é um filme, e não era por ser uma luta no Barroso, de onde é o meu pai, que daria um… É preciso encontrar um tom, as pessoas certas, os lugares, os instrumentos.
A proposta foi chegando aos poucos e foi uma coisa também de comunidade. Eu já conhecia as pessoas – foi mais ou menos fácil, mas sempre também com a ideia de não romantizar demasiado o fazer um filme, explicar-lhes que dá trabalho, que não é só uma hora e estar feito.
Eles entram um bocado no jogo do filme, no sentido de perceberem que estamos a fazer um filme de cowboys de certa maneira, que há os maus, os bons tão a espreitar, há uma conspiração – eu tentava contar sempre um bocado do que vinha antes no filme. Havia coisas que tínhamos filmado em 2021 e só um ano depois a cena que viria a seguir. Mesmo a equipa muitas das vezes não sabia o que é que estava a filmar, nesse sentido – quem sabia as peças todas era eu.

Eles estavam entusiasmados em participar disso, nessa dimensão de jogo?
Foi bem difícil, no final, na última fase de rodagem, em que eu dizia-lhes mesmo, olha, precisamos de fazer um grande filme [risos];
Sabes, tens de ser emotivo, de vender uma coisa que não sabes bem o que é que vai ser, mas com confiança naquilo que falas, para as pessoas entenderem a importância. A luta tem altos e baixos, e como tem altos e baixos nem sempre sabes como é que vais encontrar as pessoas. Muitas vezes chegávamos lá e as pessoas estavam desanimadas, desmotivadas. Ao mesmo tempo, o próprio dispositivo do filme é uma ajuda a isso, traz ânimo. Eles começam a perceber, ah, nós somos uns cowboys, a câmara está ali…
A ideia da ironia é uma ideia que o próprio transmontano tem, o meu pai é transmontano e é muito irónico. Eu não tento ser irónico com a câmara, acho. Esta ideia de ironia, da capacidade de se rirem de si mesmos, vem deles, e eu sigo e acabo por surfar a onda, mas sempre com respeito e efectivando esta coisa de elegia às pessoas de Covas do Barroso. Acredito que o penúltimo plano, do cavalo, e o último em que eles estão todos juntos a cantar, mostra isso.

Viste o novo filme do Albert Serra, com os toureiros? É também um filme com uma acção sempre muito distante, ou seja, no que toca à posição da câmara – mas com o som directo muito próximo. Não sei como ele fez aquilo. Como é que foi aqui no teu? Muitas vezes estamos a ver e ouvir coisas de muito longe.
Ainda não vi. Tive uma entrevista com ele no France Culture, mas ainda não vi. Sim, isso está muito presente em todos os meus filmes – é contrariar um bocado a ideia de que tem de ser a câmara a aproximar-se, ainda há muito esse misticismo. Acho esquisito às vezes quando se aproxima demasiado, parece que queres roubar a alma às pessoas – sendo que eu trabalho com não-actores. Ainda há muito este academismo, esta coisa de que tem de ser com a proximidade da câmara que temos a proximidade ao personagem. Este filme é um filme coral, ou seja, não quer mergulhar a fundo numa personagem, de elas serem muito escritas, e é muito superficial – mas não é um equívoco: se quero um retrato coral, no sentido de colectivo, não posso mergulhar profundamente em cada um: o que me interessa é a comunidade – isto está um pouco nos antípodas do que é um guião clássico, e esse é um dos desafios.
O som tem uma tremenda importância, muito mais do que a imagem, vou sempre defender isso; e é preciso começar a ouvir e pensar o som dessa forma. Neste filme, onde vês de uma maneira geral a zona onde se quer impor esta mina, se queres mostrar o que está em causa, o que se está a ameaçar, tens de filmar em planos gerais, porque estás a filmar a paisagem. O som tem essa importância de também passar essa proximidade. Usámos microfones de lapela, muito som construído, muito foley, muitas camadas. O som do documentário… para ser próximo da realidade, tem de ser muito construído. O filme tem efeitos especiais, há cenas em que as pessoas não estão a falar naquele momento e nós metemos as bocas a mexer, dobramos com coisas que elas disseram noutros momentos.

Dá-me um exemplo.
Há uma conversa em que está o Coronel com outro senhor mais velho, dentro de uma espécie de arrecadação, a preparar a carroça para o desfile da Máfia do Lítio. Há momentos em que ele não está a falar e que nós fazemos isso em efeito especial, dobrámos num outro momento. Para não ter de estar a repetir a cena, etc. Toda a gente chama o filme um documentário: é curioso a capacidade que o filme tem para enganar as pessoas, nestes sentidos técnicos.

Mostraste o filme em Agosto do ano passado em Covas do Barroso, no contexto do Acampamento em Defesa do Barroso. Como correu esta exibição?
A primeira vez que as pessoas viram o filme – e eu faço questão que vejam com outras pessoas, para mim isso é importante – foi em Cannes. Mas obviamente não foi toda a gente, convidámos para aí sete ou oito. O Presidente da Câmara também foi. Em Covas do Barroso mostrámos o filme ao ar livre, tenho fotos no Instagram e tudo. Tinha mais pessoas do que em Cannes. Estavam para aí umas 1500 pessoas. Ao ar livre, com uma tela grande e um bom sistema de som. Foi a Câmara que patrocinou, porque é muito caro fazer uma projecção boa ao ar livre. Fui muito cómico a recepção, o filme tinha muita piada para eles, aquela coisa deles a conspirarem… eles não estão todas nas mesmas cenas, não faziam ideia de como se ia desenrolar o filme.
Eu tenho visto muito na imprensa as pessoas dizerem que eles estão a fazer deles próprios. Eles não estão a fazer deles próprios: o Coronel não existe, a Maria não tem uma filha. Há uma série de ligações que não existem. Outra coisa, mas isso também acontece em todos os meus filmes – a geografia é toda mentirosa, percebes? Da esquerda para a direita vais para um sítio que não tem nada a ver. Os campos e contracampos são todos mentirosos, nesse sentido. Mas eu acho que é a mentira para contar a verdade. O cinema é uma mentira, por isso é que dizemos que nos faz sonhar. Eu ainda acredito nisso, é a construção de lugares inexistentes. A não ser que sejas um purista do cinema du réel… em França perguntavam-me: “que cena é que é documentário e que cena é que é ficção?”. Eu acho que nós, por acaso, relacionamo-nos menos com isso.

E eles gostaram?
Eles gostaram de se ver. Foi um evento, não é? Muita gente… Muitos deles já tinham visto, e o que outras pessoas sabiam era o que uns tinham contado a outros… Mas depois é uma reacção muito engraçada. Eu acho que se dão muito conta de que é um retrato de agora, e isso deixava algumas pessoas emocionadas, sabes? Pensarem na possibilidade de Covas do Barroso, como existe no filme, deixar de existir, mesmo que seja mentirosa geograficamente, mesmo na questão das estações do ano que passam ao longo da narrativa.
Achas que o filme vai ter algum efeito práctico na luta?
Já está a ter um efeito práctico: discussão. Muita discussão. Reforçam-se algumas relações. Covas do Barroso está em contacto com algumas associações e movimentos no estrangeiro já. Por exemplo, nós mostrámos o filme em França e apareceram pessoas desses movimentos. Agora, o filme vai ser mostrado no Festival de Documentário de Belgrado onde vai ter um foco importante. A luta dos estudantes na Sérvia é uma coisa extraordinária que está a acontecer agora, e há uma luta muito activa também contra a mineração. Ou seja, serve para reforçar laços, para dar a conhecer a região, amplificar o turismo, porque há pessoas que viram o filme e já foram a Covas do Barroso, e eu acho que tem pelo menos a capacidade de mudar a nossa perspectiva sobre as coisas.
Uma aldeia que é considerada e distinguida como património agrícola mundial… nem estou a falar pelo selo em si: basta ver o filme e perceber as paisagens fabulosas que tem e não é por isso que é contra o progresso. Existem motos que fazem imenso ruído e as pessoas têm carros, têm tractores, têm televisão, têm uma boa vida. Eles não vivem no tempo da Maria Cachucha. Não vivemos na Idade da Pedra. Não lhes falta água, luz, internet, percebes? A ideia de que está tudo certo com este projecto, que uma aldeia como esta deve desaparecer para nós, na cidade, andarmos todos de carros eléctricos… Isto é por causa da indústria automóvel, ponto.
A expansão que eles querem fazer para a mineração é gigante.
É um corte na montanha gigante. As concessões [dadas pelo Estado Português] representam cerca de 600 hectares.

E a história da criação de postos de trabalho…
Quando vês no filme aqueles folhetos – alguns são mais antigos, outros não – no início quando aparece o projecto, diziam que iam criar 500 postos de trabalho. Neste momento são 100 e tal. Está sempre a descer, há reformulações. O projecto tem coisas muito irónicas. Dizem que vão criar uma ajuda aos criadores de gado. A ajuda, só para tu veres o ridículo, são vacinas gratuitas e consultas no veterinário para os cães de gado, durante um ano. Tem coisas assim: era preciso ler esses documentos para as pessoas terem ideia. Por isso é que o filme também é irónico. O filme não dá números, não quer dar números. Quer mostrar que todos juntos, se discutirmos, podemos ter alguma força, e quer mostrar a paisagem daquele lugar.
A Savannah quer avançar com a prospecção e em 2027 começar com a exploração do lítio.
Vai ser difícil, sabes? Está muita coisa em jogo, há muitos processos em tribunal, a luta está mais forte do que nunca. Há muitos financiamentos, este filme também tem ajudado a esse financiamento. Quantas mais pessoas forem ver este filme, mais dinheiro eu consigo angariar para também ajudar. O filme já passou no Parlamento Europeu. Tem sido muito discutido, estreou agora em França, já estreou no Uruguai. Agora estreia em Portugal, depois vai estrear na Argentina, depois na Colômbia, Espanha, Suíça. Quanto mais o filme andar, mais fortes vamos ficar, mas há muitas ramificações da luta neste momento.
A luta está mais forte do que nunca, pode estar difícil, e está, mas está difícil para os dois lados. Também está difícil para a Savannah.
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A Tribuna do Cinema gostaria de agradecer a Paulo Carneiro, a Sandra Lopes e à distribuidora No Comboio, e a Adriano Viçoso, responsável pelas fotografias e gravação da entrevista.



