7th Heaven (1927) de Frank Borzage – Ascensão ao Paraíso

Bruno VictorinoOutubro 16, 2025

Mas, nestes tempos, far-se-á o elogio dos que, para escrever, se sentaram no chão nu, dos que se sentaram entre as pessoas humildes, dos que se sentaram entre os combatentes. Dos que contaram os infortúnios dos pequenos deste mundo, dos que contaram os grandes feitos destes combatentes, com arte, na nobre língua outrora reservada à glorificação dos reis.

Bertolt Brecht

 

Tirando raras e honrosas exceções, é difícil encontrar no panorama cinematográfico contemporâneo, realizadores que se debrucem fundamentalmente sobre pessoas ou comunidades desfavorecidas, sem que o olhar resvale para um miserabilismo panfletário, onde o indivíduo filmado, sempre de cima para baixo, não desperta no espectador qualquer emoção para além da pena. Ocorre-nos Pedro Costa, José Oliveira e Marta Ramos, por exemplo, como exceções que confirmam a regra. Se alargarmos o espectro de observação, voltando o foco para o cinema clássico americano, também não é de caras que apontamos um cineasta com a sensibilidade sugerida por Brecht. Frank Borzage, injustamente esquecido de entre o leque de realizadores norte-americanos canonizados, filho de um pedreiro de uma área agora italiana do antigo Império Austríaco e de uma empregada suíça de uma fábrica de seda, é outra dessas raras exceções.

Para ilustrar essa tal sensibilidade e génio de Borzage, pareceu-nos relevante decompor algumas das cenas mais icónicas de 7th Heaven, confessando desde logo a dificuldade sentida em selecionar as partes sem apresentar o filme por inteiro. Logo nos momentos iniciais, e em menos de três minutos, o realizador consegue estabelecer os alicerces da obra. Somos confrontados pela primeira vez com a recorrente simbologia de estratificação social, entre quem trabalha mais em baixo (limpeza de esgotos) e mais em cima (limpeza de ruas). Também nesta primeira cena se introduzem certas características e trejeitos do protagonista Chico (Charles Farrell), que serão reiteradamente revisitados ao longo da narrativa, como a expressão “I’m a very remarkable fellow”, sugerindo diferentes sentidos mediante as circunstâncias em que é dita.

Entretanto, é-nos apresentada Diane (Janet Gaynor), que acidentalmente se cruza no caminho de Chico. Oprimida pela irmã e vinda de um contexto ainda mais humilde e desfavorecido, Diane é salva por Chico, que lhe oferece guarida na sua casa. E segue-se um dos momentos formalmente mais notáveis do filme, um magistral travelling vertical que acompanha o par até ao sétimo céu, o sétimo andar onde juntos passam a coabitar. É um exemplo paradigmático de como a forma se pode fundir em plena harmonia com o conteúdo. O que muitos realizadores omitiriam através de um corte (elipse), Borzage capta pacientemente, filmando a subida dos seus personagens em direção ao paraíso que os espera. Aqui a subida não está ligada à classe social, como na cena inicial do filme. Trata-se de uma aproximação às estrelas, ao sonho, à felicidade que aquele modesto apartamento encerra.

O casamento improvisado, a despedida para a guerra. São várias as cenas que poderíamos trazer para o artigo, muitas vezes separadas por pouquíssimos minutos, tal é a beleza de cada plano, de cada rosto, e a emoção que permeia cada imagem. Mas no final, o que fica fundamentalmente marcado no espectador, é a ternura e delicadeza com que o realizador filma esta realidade, por mais desfavorecida que ela possa parecer. É impossível não sentirmos vontade de estar no lugar de Chico e Diane, olhar o céu estrelado ou percorrer a pequena tábua de madeira que liga as altas varandas. Mas esta identificação e empatia com os personagens e o seu contexto, deve-se também à forma primorosa com que Frank Borzage insere os signos do melodrama na narrativa. A subtil aproximação que vai ocorrendo entre Diane e Chico, ou a inabalável crença que mais tarde partilham em um dia regressar para os braços um do outro. “Chico – Diane – Heaven!”

Por fim, deixamos-vos com os derradeiros momentos do filme. Novamente as mesmas escadas e o mesmo travelling, desta feita apenas com Chico. A esperança e a fé de Diane no regresso do seu amado estava prestes a sucumbir, confrontada com o seu alegado desaparecimento. Aproximava-se apressadamente da profunda tristeza e miséria com que a conhecemos no início de 7th Heaven. Mas seria uma traição aos seus combatentes, Borzage não lhes reservar um final feliz. A superação de todos os infortúnios que a vida (narrativa) lhes impôs, garante a sublimação de Diane e Chico. Um feixe de luz ilumina por fim os personagens, um definitivo vislumbre do sétimo céu onde eternamente passam a pertencer.

Bruno Victorino