Entre os krimis da Alemanha Ocidental e os gialli italianos, em meados do século passado Hollywood mantinha-se sob o rígido Código Hays que via o cinema como um guia moral a ser seguido pelos espectadores e a si próprio como um regulador da ordem pública, proibindo gestos íntimos ou violência explícita. Em 1960, Alfred Hitchcock consegue lançar Psycho à revelia do Código, que perdia a sua força. O sucesso do filme antecipa o movimento slasher, que nasce “oficialmente” com The Texas Chain Saw Massacre (1974) e Black Christmas (1974). Estima-se que tenham saído cerca de 100 slashers entre 1978 e 1984. O resultado foi um cansaço generalizado do grande público em relação aos filmes do psicopata que persegue e mata adolescentes. Tendo-se estreado no cinema exploitation, com The Last House On The Left (1972), é em Nightmare on Elm Street (1984) que Wes Craven renova um género que acabará por se limitar a repetir as mesmas fórmulas que inundavam as salas de cinema. Nesse filme, Freddy Krueger é um vilão cujo passado ambíguo lhe traz a máscara que usa para atormentar os sonhos dos jovens de Elm Street. Mas esta seria apenas a primeira vez que o realizador revisitaria o slasher.
Em 1996, e celebrando 30 anos este ano, Craven lança Scream. Escrito por Kevin Williamson em 1994 e vendido à Miramax, chegou às mãos de um realizador que só o aceitou depois do fracasso de alguns filmes e do cancelamento de outros projectos, lançando-se, pela primeira vez, na sátira.
A subversão está até presente no material promocional do filme. Quando Drew Barrymore, uma das atrizes mais aclamadas dos anos 90, demonstra interesse no papel principal em Scream, ela torna-se imediatamente em Sidney Prescott. A popular actriz de filmes de comédia viria a acabar por ser substituída por Neve Campbell no papel. Contudo, não faria sentido desperdiçar uma das atrizes mais proeminentes dos anos 90, pelo que ela se mantém no filme com um papel muito reduzido. Ainda assim, aparece em lugar de destaque no trailer, nos cartazes oficiais, e na press tour. Os primeiros 12 minutos do filme são completamente seus, ainda que culminem com a sua morte, à data revolucionária para o género: afinal, ninguém estava a salvo. A sua Casey Becker não desiste da sobrevivência, tal como não o faz Tatum Riley (Rose McGowan), mas é Sidney Prescott (Neve Campbell) quem reverte a ideia de que uma scream queen sobrevive por sorte ou por ser salva. Prescott atira uma televisão a Stu Macher e mata Billy Loomis, o seu namorado, com um tiro na cabeça, dando origem a uma nova geração de sobreviventes que se salvam a si próprias, que inclui Mia Goth (X, 2022) ou Samara Weaving (Ready or Not, 2019).
Se Williamson crescera com e estudara os slashers, Craven tornara-se num mestre. Juntos conseguem transformar as regras não escritas numa parte ativa da narrativa. Ou seja, quando a primeira rapariga recebe uma chamada, ela sabe exatamente o que vai acontecer – arranjam-se desculpas para todas as vítimas a partir desse ponto. Fora das personagens mais centrais, surge um especialista que ajuda o grupo, como Randy Meeks (Jamie Kennedy), Robbie Mercer (Erik Knudsen), Charlie Walker (Rory Culkin) e Mindy Meeks-Martin (Jasmin Savoy Brown). Depois de duas décadas de slashers, a audiência tinha as fórmulas presentes em mente. Quando Randy Meeks as enumera, algo se quebra, como se este fosse um segredo onde o filme não poderia entrar. Este mecanismo não só cria o meta-terror, como o torna real, fazendo com que os assassinos tomem a forma de Billy Loomis e Stu Macher – o namorado da protagonista e o seu melhor amigo respectivamente, dando origem ao antagonista trapalhão que acaba por falar demais. Não são apenas as vítimas que cometem erros em Scream. Aqui também o fazem os assassinos.
Assim, se Scream (1996) comenta as regras que vai seguir, aproximando as personagens do espectador e do seu amor pelo género, Scream 2 (1997) cria um meta-franchise baseado na verdadeira história de Sidney Prescott que influencia diretamente a narrativa dos filmes seguintes. Em Scream 3 (2000), o trio de protagonistas é novamente chamado até Hollywood. O novo Ghostface vitimiza agora a namorada de Cotton Weary (injustamente condenado pela morte de Maureen Prescott) e começa a perseguir o elenco e equipa de Stab 3: Return to Woodsboro, o filme imaginado que serve de pano de fundo para os acontecimentos. É introduzida a personagem de Angelina Tyler, Sydney Prescott na ficcção (Emily Mortimer). Ultrapassando as teorias de que seria uma segunda Ghostface que conseguiu não ser desmascarada, como previa o argumento original, a sua storyline parece criar mais uma meta-narrativa, desta vez uma de denúncia, quando a personagem revela que dormiu com o produtor para conseguir o papel. Até 2011, os Scream foram produzidos pela Dimension Films, encabeçada por Bob e Harvey Weinstein, cujas acusações de assédio e violação viriam a abanar a indústria em 2017. Rose McGowan (Tatum Riley, a destemida melhor amiga de Sidney no Scream original) será uma das primeiras actrizes a formalizar acusação contra o produtor, datando as agressões de 1997.
Relacionando-se ou não com os eventos do filme anterior, Wes Craven apresenta limitações criativas impostas pela produção em Scream 4 (2011), o seu último filme do franchise, apesar de não ter fechado a possibilidade de continuar a trilogia. O filme acaba por deter o registo de bilheteira mais baixo de toda a franchise, não atingindo sequer a marca dos 100 milhões de dólares, determinando o interregno da franquia. Ainda assim, Scream 4 acaba por se tornar num filme de culto, sendo por muitos considerado o melhor do conjunto.

O franchise Scream projectou, de facto, algumas das atrizes que marcaram as últimas décadas do terror. Neve Campbell acaba por se afastar destes, mas Rose McGowan (Tatum Riley) fica entre os thrillers e as comédias negras. A explosão de Sarah Michelle Gellar (Cici Cooper), consagrada scream queen e eterna Buffy, surge exatamente em 1997 com a estreia de Scream 2, mas, principalmente, de Buffy, The Vampire Slayer (1997-2003) e I Know What You Did Last Summer (1997), que conta não só com Kevin Williamson no argumento, como foi o primeiro filme a beneficiar do sucesso de Scream e do retumbante regresso do slasher. Por outro lado, Scream 3 (2000) não revela nenhum nome maior, já que Parker Posey (Jennifer Jolie) tinha a sua carreira já estabelecida. Contudo, Scream 4, projecta mais uma scream queen, desta feita Emma Roberts (Jill Roberts, a única ghostface da lista), que, aos 20, se tentava afastar da imagem que o público tinha dela; era conhecida de seis temporadas de American Horror Story (2013-presente) e Scream Queens (2015-2016).
Em Scream 5 (2022) repete-se a história, com Jenna Ortega (Tara Carpenter), que, apesar de ser já conhecida do terror com You (2018-2025) e The Babysitter: Killer Queen (2022), é catapultada para o reconhecimento geral com o auxílio de Tim Burton em Wednesday (2022-), e, para o género, com o de Ti West, em X (2022). Em menor escala, Jasmin Savoy Brown (Mindy Meeks-Martin) era já a Taissa Turner de Yellowjackets (2021-), que regressa em Scream 7 (2026) e tem já um outro slasher na manga para o futuro próximo. Curiosamente, é o único registo Scream a contar com um futuro vencedor de Óscar: Mikey Madison com Anora, de Sean Baker. Em relação à nova estreia, apenas o tempo dirá se Isabel May (Tatum Evans) e Celeste O’Connor (Chloe Parker) se manterão pelas ruas do terror, já que McKenna Grace parece ter todos os caminhos abertos.
Se na trilogia original contamos com nomes notáveis dos anos 90 (Drew Barrymore, Jada Pinkett e Kelly Rutherford), a tendência perde-se nos seguintes, tornando as aberturas menos marcantes, já que se perde a cara associada. A única excepção é Scream 5, já que Tara (Jenna Ortega) sobrevive.
Os últimos Scream têm estado envoltos em controvérsia. Neve Campbell não participou da aventura em Nova Iorque por sentir que o valor que lhe fora oferecido não representava o valor da sua personagem. No final de 2023, Melissa Barrera torna-se ativa na defesa do povo palestino e é, por isso, despedida. Não se trata de uma especulação, já que tanto a atriz como a produtora Spyglass assumiram o motivo. Jenna Ortega despede-se, não escondendo que não queria continuar caso não contracenasse com Barrera. Sem elas, o realizador Christopher Landon não tem interesse em prosseguir. Os fãs apoiam as atrizes e consideram a decisão desastrosa, enquanto Jasmine Savoy-Brown e McKenna Grace são criticadas por se manterem no projeto.

Esta situação culmina naquela que considero a segunda trilogia não terminada ainda que, oficialmente, assim esteja. Mesmo que Skeet Ulrich (Billy Loomis) não tivesse confirmado que o plano original para Scream 7 implicava o seu regresso, é notório que a ligação entre Sam Carpenter (Melissa Barrera) e o seu pai não estava ainda completamente explorada, permanecendo ainda aberta a possibilidade de ela continuar a lutar contra a sua herança ou, por outro lado, de a abraçar.
O sucesso do franchise e, principalmente, do Scream de 1994, redirecciona o caminho do cinema de terror para algo não só satírico como sarcástico, cujos herdeiros roçam a caricatura. Os exemplos mais prementes serão os Scary Movies, paródias assumidas que recuperam o nome original do filme. Já Urban Legend (Jamie Blanks, 1998), Final Destination (2000), The Cabin in The Woods (Drew Goddard, 2011) ou Bodies, Bodies, Bodies (Halina Reijn, 2022) podem ser considerados seus herdeiros diretos. A sua influência é tanta que, por volta dos anos 2010, o género sofre uma nova reformulação, a do “elevated horror” (“terror elevado”, traduzido à letra), que terá tido início com The Babadook (Jennifer Kent, 2014), e ao qual se associam regularmente nomes como Robert Eggers, Ari Aster e Jordan Peele. Esta expressão não define um género em si, mas uma estratégia de marketing que visa afastar a meta-narrativa e a ironia de Craven daqueles que não a compreendem.






