25 Anos do Século XXI – Vol. II, 2001

Miguel AllenMaio 29, 2026

 

 

I wonder where you were going?

Um quarto de século depois da entrada no século XXI, a pergunta parece ainda ecoar pelo nosso imaginário. Essa era nova que se prometera, que projectáramos durante tantos anos, como promessa de um certo positivismo tecnológico, como superação dos nossos limites físicos e humanos, começaria, afinal, sob o signo da inquietude. E, por muito arbitrário que possa ser pensar um período através de um simples marco de calendário, passados estes 25 anos de um século que ainda hoje nos parece “por definir”, é tentador regressar a 2001 e questionar que futuro se anunciava verdadeiramente nesse ano em que entrávamos, enfim, no século XXI.

No cinema, o ano 2000 funcionara como um decisivo ponto de charneira, sobretudo no plano formal: um ano em que se prometia, se tentava algo de novo. 2001 surge-nos hoje, em resposta, como um território ocupado pela interrogação. Não tanto um movimento coeso, mas um conjunto disperso de filmes que parece enunciar, a diferentes vozes, a perturbação do cinematógrafo perante esse novo mundo. O apocalipse esperado pelo colapso informático, o célebre bug Y2K, não chegara. No seu lugar, emergia progressivamente uma nova centralidade cultural que transformaria definitivamente os nossos laços sociais e que parece, ainda hoje, ocupar tanto (ou progressivamente mais) o nosso espírito como a nossa arte.

 

 

Pulse” (Kairo), de Kiyoshi Kurosawa, permanece talvez como o grande filme sobre esses espectros digitais de um mundo em rede. Mais do que uma simples reflexão sobre “tecnologia”, uma parábola inquietante sobre a proximidade humana numa realidade que aboliu a distância física. Porque, se a “presença digital” imaginada pelo filme nos parece hoje quase arcaica perante a nossa realidade social contemporânea, a angústia que lhe é inerente mantém-se intacta, ou melhor, reverberada pelos nossos ecrãs. Uma certa ideia de “traição” tecnológica, em vez de transição, que se adensou nas nossas vidas por escolha própria. E um “avanço” que nos conduz a uma perda potencialmente irreparável. No filme de Kurosawa, a tela esvazia-se de corpos e enche-se de fantasmas. Imagens espectrais, cinema da ausência. Talvez só o cinematógrafo possa dar uma forma estética ao vazio potenciado pela dimensão tecnológica das nossas relações humanas. E, se a ideia de um mundo medusado pelos ecrãs se foi banalizando, pouco a pouco, para o bem e para o mal, na produção cinematográfica corrente, poucos souberam dar-lhe expressão como Kurosawa.

De uma outra ausência, de um anseio amoroso pelo cinema, Mulholland Drive, de David Lynch, acomodou-se, pouco a pouco, como o “grande filme deste século”. Se Kurosawa parecia falar-nos dos anos que aí vinham, o filme de Lynch parece seguir um percurso inverso para reencontrar 2001. Quase o canto final de um certo cinema americano. O grande clássico tardio, e talvez o último de uma linhagem que parece esgotar-se ali, perante a história de amor entre duas actrizes. Mulholland Drive nascera de um projecto falhado para se revelar a mais perfeita iteração de um modelo de filme que Lynch perseguira desde muito cedo. De espelhos e sonhos, um filme sobre o despertar da ilusão do cinema e a passagem para algo de mais fragmentário, de mais violento.

 

 

Paradoxalmente ou não, Lynch nunca regressaria a essa encenação sentimental e fantasmática que ainda ensaiava neste último grande filme. Como se a conclusão de Mulholland Drive lhe deixasse uma porta aberta, Lynch acabaria por romper, a partir de então, com o imaginário que ancorara a sua obra numa herança que remontava, nomeadamente, aos anos 40 do século XX. E, se Mulholland Drive ocupa o lugar cimeiro da nossa apreciação deste ano de 2001 – como em tantas outras publicações -, a verdade é que se trata de um filme deliberadamente antiquado. Uma obra que entende o futuro como um abismo através do qual se esgota aquilo que o cinema “construíra” durante o seu primeiro século de vida.

 

On a cru que ça commençait. En fait, ça se terminait.

De uma plasticidade que parece enunciar o cinema de um outro tempo, com Éloge de l’amour Jean-Luc Godard abriria a sua janela, que ainda hoje nos surpreende, sobre o século XXI. Um passado que se encerra e um presente que inquieta, Godard formaliza, no próprio filme, essa transição. O amor, a memória e a própria imagem num tempo suspenso entre o analógico e o digital – interrogação sobre o que se perde e aquilo que ainda pode ser inventado. Éloge de l’amour é um filme de resistência, que evoca o presente a partir de uma mulher que nele se recusa a participar. E um filme que reencontra a força dessa resistência na memória – não como direito, mas como necessidade individual.

De novos começos e do seu fim. Evoca-se o futuro como esse livro em branco que imagináramos conhecer. Comboios que partem e histórias que se perdem. Se a memória perdura através do amor, como fazer este “elogio do amor” numa sociedade onde “o Estado perdeu a capacidade de amar”? Teremos ainda o “direito” de reabrir a memória em tempos dominados pelo capital? Éloge de l’amour é um filme que nos fala da rejeição do passado para avançar, mas também um filme sobre a impossibilidade de esquecer esse passado. Uma memória que perdura e sem a qual não existe, enfim, futuro.

 

 

Godard evoca “quatro tempos” no amor. O quarto, o do reencontro, é o milagre que acontece afinal quando o seu próprio filme regressa, através de uma quase explosão de cor digital, a “um outro tempo”, a “um outro lugar”, dois anos antes, para relembrar a sua história de amor. E nessa história reencontramos a ideia de uma resistência, que nos devolve a primeira parte do filme.

“Onde jaz o teu sorriso?”, perguntava Pedro Costa, confinado com um casal de velhos resistentes numa sala de montagem nos subúrbios de Paris. O digital filmando o analógico, um momento em que o cinema vislumbrou caminhos que acabariam por não se cumprir plenamente. Talvez seja por isso que regressamos a 2001, para reencontrar as suas interrogações. Em três tempos, e através de três gestos cinematográficos. Fechar o século passado (Mulholland Drive), um olhar desolado sobre o presente (Kairo) e o ensaio de uma reflexão, ainda em aberto e profundamente ambivalente, sobre o futuro (Éloge de l’amour).

A nossa lista dos filmes do ano 2001 :

 

1. Mulholland Drive de David Lynch

2. “A Viagem de Chihiro” (千と千尋の神隠し) de Hayao Miyazaki

3. “Pulse” / Kairo (回路) de Kiyoshi Kurosawa

4. La Pianiste de Michael Haneke

5. Éloge de l’amour de Jean-Luc Godard

6. A.I. Artificial Intelligence de Steven Spielberg

7. Onde Jaz o Teu Sorriso de Pedro Costa

8. El Espinazo del Diablo de Guillermo del Toro

    Suicide Club de Sion Sono

10. Ocean’s Eleven de Steven Soderbergh

 

Miguel Allen