Considerando a passagem do primeiro quarto do século XXI, a Tribuna do Cinema reuniu-se para eleger aqueles que são os títulos mais marcantes dos correspondentes 25 anos, e do último ano do século XX. Assim, durante 2026, iremos brindar o leitor com um artigo por cada ano, procurando sintetizar a relevância cinematográfica de cada período de 365 dias, e apresentando uma lista dos 10 melhores filmes por nós elegidos. Para a votação, cada membro contribuiu com a seleção de 3 filmes ordenados por preferência.
Antes de nos debruçarmos sobre o ano cinematográfico propriamente dito, importa trazer à discussão a infame controvérsia que divide aqueles que consideram que o ano 2000 já pertence ao século XXI, e os que defendem que o mesmo só inicia no dia 1 de janeiro de 2001. Esta discrepância poderá soar inócua considerando a temática que aqui nos traz, mas é particularmente relevante uma vez que o ano 2000 poderá ser de facto lido como um ano transitório na história da sétima arte.

Com o advento do digital, abriu-se todo um novo mundo de potencialidades (e limitações) ao dispor dos realizadores. Curiosamente, foi em Portugal que surgiu, podemos afirmar com convicção, a proposta mais radical e paradigmática desta conjuntura, que sintomaticamente figura em segundo lugar na nossa lista. João Benárd da Costa foi peremptório, escapando à questão aritmética e afirmando: “o século XXI foi aberto com No Quarto da Vanda”. Pedro Costa terá ficado desagradado com toda a maquinaria de produção cinematográfica com que “invadiu” o bairro das Fontainhas no seu filme anterior (Ossos, 1997). Foi então uma questão de necessidade moral que originou uma distintiva forma de fazer cinema, estabelecendo um novo padrão formal, estético e, fundamentalmente, ético, onde apenas uma pequena câmara digital passou a mediar campo e contracampo.
Outro marco relevante a assinalar surge no quinto lugar da lista. Para além de ser, ainda hoje, provavelmente o filme mais celebrado de Shyamalan, Unbreakable não deixa de se afirmar como uma obra pioneira do género que monopolizou o cinema de Hollywood no século XXI: o filme de super heróis, do qual é dos muitíssimos raros exemplos dignos de registo.

O primeiro classificado dificilmente fugiria ao amplamente celebrado In Mood for Love, nem poderá ser negligenciada a influência que o cinema de Wong Kar-Wai conquistou em todo o panorama cinematográfico mundial. Numa escala inferior em termos de popularidade mas também um dos filmes mais transversalmente estimados pela crítica e pelo público, surge Yi Yi, do taiwanês Edward Yang.
Depois oscilamos entre os populares American Psycho e Memento e os mais obscuros mas vivamente recomendados As I Was Moving Ahead Occasionally I Saw Brief Glimpses of Beauty ou Suzhou River. No fundo uma lista eclética, que retrata a diversidade de opiniões dos membros da Tribuna do Cinema, e que sintetiza este período de charneira de passagem entre o século XX e o século XXI, que, também no cinema, foi premonitório do que havia porvir.
1. In The Mood For Love de Wong Kar-Wai
2. No Quarto da Vanda de Pedro Costa
3. Yi Yi de Edward Yang
4. American Psycho de Mary Harron
5. Unbreakable de M Night Shyamalan
6. Battle Royale (バトル・ロワイアル) de Kinji Fukasaku
7. Memento de Christopher Nolan
8. Werckmeister Harmonies (Werckmeister harmóniák) de Béla Tarr
9. As I Was Moving Ahead Occasionally I Saw Brief Glimpses of Beauty de Jonas Mekas
10. Suzhou River (苏州河, Sūzhōu hé) de Lou Ye
The House of Mirth de Terence Davies
La Fidélité de Andrzej Żuławski




