Terminou ontem, dia 28 de Junho, a 22º Edição do FEST – New Directors New Films Festival, em Espinho, com o anúncio dos vencedores das secções competitivas: Lince de Ouro, que se centra nas primeiras e segundas longas-metragens de figuras em ascensão no panorama internacional – e foram Chicas Tristes, de Fernanda Tovar, na Ficção, The Ground Beneath Our Feet, de Yrsa Roca Fannberg, no Documentário; Grande Prémio Nacional, dedicado às novas curtas-metragens portuguesas – MOFO, de Carly Hanna; Lince de Prata, para as curtas internacionais – Nobody Knows the World, de Roddy Dextre, na Ficção, Their Eyes, de Nicolas Goulart, no Documentário, Poor Marciano, de Alex Rey, na Animação, Water Sports, de Whammy Alcazaren, no Experimental; e NEXXT – filmes de escola, competição que convoca uma espantosa rede de estabelecimentos de ensino de todo o mundo: este ano venceu First Summer, de Heo Gayoung, da Coreia do Sul. Houve também uma série de menções honrosas atribuídas, que podem ser consultadas nas redes do festival.
Além da programação de Cinema, o FEST é sobejamente conhecido pelos inúmeros eventos, palestras, masterclasses e iniciativas dedicadas à aprendizagem e à indústria, direccionada a realizadores, produtores, intérpretes, artistas sonoros e curiosos.
Para o artigo sobre esta edição, reunimos os nossos redactores para uma exploração do conjunto de longas-metragens que estiveram em Espinho, saídas directamente da Berlinale, de Roterdão e de alguns dos outros maiores festivais do mundo. Abrimos com uma pequena introdução sobre a experiência de estar presente no FEST este ano, assinada por Rafael Fonseca, que nos apresenta também a curta vencedora do Grande Prémio Nacional.
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Comparar felicidades é muito difícil e não faz grande sentido. Não consigo por isso garantir que de todos os festivais de cinema onde já estive em Portugal, é de Espinho que saí o mais feliz. O que consigo dizer, com certeza, é que no assunto da felicidade é tiro e queda – ela abre-se perante nós, certinha, todos os anos. Não há festival desta dimensão no país onde se vive melhor do que aqui: com todas as salas a dez minutos a pé, alguns dos restaurantes mais saborosos do Norte, o auditório mais icónico e alcatifado; com parcerias que trazem gente dos quatro cantos do mundo e festas que juntam todos os nossos amigos e amigas na mesma praia, todas as noites – tudo isto, e de facto imensa coisa mais: as experiências são muito memoráveis, e são um tesouro, aquele DJ set em 2024, como aquela sessão de curtas em ‘25, o pôr-do-sol em grupo este ano, ou tantos outros momentos, que são assim guardados devido à alegria que se vive no FEST com uma facilidade que é notável e desarmante. Há alguma coisa a oferecer da parte do festival a qualquer estudante, cinéfilo, cineasta, profissional da indústria, em qualquer nível de carreira: vejo aspirantes saídos do secundário a ganhar tanto com a semana passada aqui do que os produtores que o visitam pela vigésima iteração. Este ditirambo não é um postal de férias: acho importante dizer que o FEST presta um serviço indispensável todos os anos para a nossa pequena indústria: é das melhores coisas que acontece, de forma renovada, ao cinema português. Desejo-lhe a maior vida longa, a mais comprida possível, e que a possamos acompanhar durante muitos anos.
Rafael Fonseca

Chicas Tristes de Fernanda Tovar
Competição Lince de Ouro Ficção – vencedor
É quase ofensivo descobrir que Chicas Tristes é uma estreia na realização. Para quem, assim como eu, não resiste a uma boa narrativa de amadurecimento, Fernanda Tovar dá-nos uma das obras mais ternas e complexas dos últimos tempos. O idílio de uma dupla de amigas magnética (representada com tal naturalidade que se parece alongar para além da tela) é estilhaçado contra uma parede quando o fantasma da agressão sexual entra em cena. Talvez esta premissa faça revirar os olhos, à espera do melodrama barato a que o cinema tantas vezes nos condena quando estes ingredientes estão na receita. Mas descansem. Em vez de cair no ardil do dramalhão fácil, Chicas Tristes prefere estudar a forma como o trauma pode tanto pulverizar quanto blindar uma ligação. Tovar faz os pratos dessa balança oscilar de uma forma credível, para nossa angústia.
Ainda assim, o filme recusa-se a ser um exercício de masoquismo emocional. A gravidade da situação nunca deixa de estar em foco, mas combinada, a espaços, com uma leveza agridoce (que flutua entre a candura e a curiosidade dos diálogos adolescentes) e uma fotografia impecável, onde cada enquadramento e escolha cromática são virtualmente perfeitos. No fundo, é um manifesto sobre a amizade feminina como um kit de primeiros socorros indispensável à existência. O nome Fernanda Tovar é para guardar: temos nova promessa do cinema Mexicano.
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Carla Rodrigues

Truly Naked de Muriel d’Ansembourg
Competição Lince de Ouro Ficção – menção honrosa
Sem se afastar da temática que tem vindo a explorar nas suas curtas-metragens mais recentes – a intimidade e os seus contornos –Muriel d‘Ansembourg estreia-se no formato de longa e aponta o seu aparelho diegético para Alec (Caolán O’Gorman), um adolescente introvertido habituado a trabalhar como operador de câmara nas produções pornográficas do seu pai, e que se vê inapto a lidar com relações reais. Numa sociedade cada vez mais segregada e manchada pela onda crescente de misoginia e alienação – especialmente em esferas sociais de rapazes adolescentes e jovens adultos – Truly Naked surge como um filme cuja premissa se revela particularmente urgente, embora a matéria que o compõe nem sempre esteja ao nível da sua proposta.
Apesar de contaminado pelas suas circunstâncias, Alec apresenta-se como uma personagem sensata e consciente da sua própria condição. No entanto, o seu desenvolvimento narrativo ao longo do filme acaba por se revelar, de certa forma, demasiado inconsequente – talvez pelo desejo de o manter no estatuto de “bom da fita”; talvez pelo receio de representar certos grupos indesejados de rapazes frustrados. Blindado por um protagonismo que o impede de enfrentar consequências verdadeiramente transformadoras, Alec é guiado por uma história que se constrói a partir de eventos artificialmente moldados para lhe ensinarem uma lição, sem que essa aprendizagem implique uma efetiva responsabilização pelas suas ações. Situações realmente preocupantes e abusos evidentes são tratados como pequenos constrangimentos de inocência e inexperiência juvenil, e as diversas personagens acabam por ser representadas exclusivamente como produtos do seu meio – um ponto de vista justo, mas que, quando levado ao extremo, acaba por impedir qualquer grau de responsabilização e verdadeira evolução.
A ousadia visual, característica do tema, mantém-se constante, mas acaba ofuscada por uma acumulação de preocupações narrativas que nunca parecem merecer um aprofundamento significativo. Cheio de propostas, temas e críticas morais que o mantêm preso num impasse narrativo, o filme vê-se impedido de avançar de forma concisa. Desde o vício em pornografia, à representação da mulher na indústria porno, a alienação sexual, o patriarcado e à relação amorosa adolescente, Truly Naked acaba por se afogar na sua imensidão de temáticas interligadas. Embora importantes, as ideias e os valores que o filme propõe, e até mesmo os que ataca, são tratados sem subtileza e atirados para o texto como discursos panfletários e moralistas – com a pressa de os fazer encaixar em uma hora e quarenta minutos –, o que resulta em certos diálogos tão próximos de conversas reais quanto a pornografia o é do sexo.
Truly Naked pode ser paradoxalmente classificado como um filme que merece ser visto pelo mérito da sua proposta e pela importância da sua mensagem, enquanto, ao mesmo tempo, se revela uma tentativa pouco eficiente de trazer profundidade ao tema. Em última instância, trata-se de um passo maior do que a perna.
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Paulo Ventura

Jörðin undir fótum okkar / “The Ground Beneath Our Feet“ de Yrsa Roca Fannberg
Competição Lince de Ouro Documentário – vencedor
Será porventura uma questão inevitável ao cinema, este confronto directo com a nossa própria mortalidade. Uma arte que vive do registo de algo que continuamente passa, que continuamente se desfaz. Num dos planos iniciais do filme, Yrsa Roca Fannberg diz a uma das figuras do seu filme que este é um filme “sobre a vida”, corrigindo-se rapidamente: este é um filme sobre a vida “nesta sua fase”. Mas o que será afinal a vida para um conjunto de idosos num lar em Reiquiavique, senão algo que existe nessa proximidade constante e estrita com a morte? É uma pergunta que o filme parece colocar desde cedo. Se lhe falta hoje voz para cantar, o coração dessa primeira mulher, deitada, bate ainda, forte e regular. Mas, pela janela, vemos passar uma maca com um corpo coberto. Unhas gretadas sob o verniz vermelho, o tempo daqueles “beijinhos” prometidos à “mais bela das esposas”, que se pretendera eternizar, parece, enfim, ter passado e, ali, o que importa é quanto tempo ainda nos resta. As ideias vão-se escapando entre duas bocas, a atenção desvanece-se com o sono. E aquelas mãos de pele enrugada, que vemos de tão perto, continuam a ser uma fonte essencial dessa humanidade a que todos aspiramos. Filmado em 16 mm, com uma bonita fotografia, carregada de grão, de Wojciech Staroń, “The Ground Beneath Our Feet“ acompanha livremente diferentes residentes de um lar de idosos, ao longo de mais de um ano. O registo relembra Wiseman, mas este é um filme que se constrói, de forma mais sentimental, a partir de uma certa fragilidade, tanto material como de conteúdo. Aquele simulacro de uma “casa”, onde se repetem hábitos antigos, onde se encena um lar, enquanto, pouco a pouco, se perdem as referências. O sol desce lentamente, o frio instala-se, ensaiam-se canções de Natal em grupo. Uma paisagem virtual relembra um outro dia. E é com alguma tristeza que o filme se desvela, entre amantes e amigos que se apoiam, mas cujas capacidades mútuas se vão desvanecendo de forma desigual. Numa cama, um homem cansado pergunta à mulher se ela ainda ali está, se ainda vive. E, pelo jornal, percorrem-se os nomes daqueles que partiram na semana passada. As fotografias de família pelas mesas e paredes relembram outros dias, outros corpos mais jovens. Um respirar possante e um olhar que se perde. Naqueles últimos momentos antes de vaguear, enfim, pela noite escura que se aproxima.
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Miguel Allen

Comparsa de Vickie Curtis e Doug Anderson
Competição Lince de Ouro Documentário
“Mandem mensagem quando chegarem a casa!”
O eco dessa frase, já hábito para tantas de nós, ganha contornos de urgência na Guatemala, um dos países com piores índices de femicídio. Ouvimo-la neste documentário, filmado em Ciudad Peronia. É lá, num tabuleiro de violência de género, que Lesli e a irmã Lupe decidem devolver a voz às mulheres, através da organização de uma Comparsa, um manifesto-barra-celebração que combina a energia do carnaval com o protesto pacífico. Lesli é uma força da natureza que lida de forma muito direta com as cicatrizes da violência de género. Isso não a limita. Ela assume todas as frentes da Comparsa: mobiliza a comunidade, constrói figurinos, pinta, motiva, defende e chega a cuspir fogo nas atuações. Contudo, o verdadeiro poder é a capacidade de receber o testemunho da solidariedade feminina e continuar a propagá-lo.
O documentário capta muito bem a dualidade da Comparsa. Os realizadores equilibram a euforia das cores, dos raps, das marionetas, das andas e dos tambores com a melancolia e o medo muito concretos que assombram o quotidiano daquelas ruas. Há poesia visual na mesma medida em que há dor. Os sapatos transformados em vasos de flores evocam as ausências, as pinturas corporais servem de armadura para exteriorizar traumas. O filme recusa-se a romantizar a luta (o medo de falar e as retaliações são reais) e é o otimismo feroz destas mulheres que rouba a cena. Uma belíssima e compacta lição sobre como transmutar a tragédia em ação coletiva.
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Carla Rodrigues

River Dreams de Kristina Mikhailova
Competição Lince de Ouro Documentário
Em River Dreams, Kristina Mikhailova parte de uma pergunta simples e quase infantil: se fosses um rio, que rio serias? A partir dessa ideia, constrói um documentário de escuta, feito de vozes femininas, memórias, margens e confissões. O rio deixa de ser apenas paisagem e torna-se uma espécie de espelho interior, atravessado por histórias de fuga, ferida, sobrevivência e desejo de autonomia. As mulheres que o filme acompanha falam de amor, violência, família, cansaço e resistência. Há uma fragilidade evidente nestes testemunhos, mas Mikhailova não os reduz apenas à dor. O que interessa é também aquilo que continua a mover estas mulheres: a possibilidade de imaginar outra vida, outro corpo, outro caminho.
O filme é mais forte quando se deixa ficar junto dos rostos, dos gestos e dos silêncios, sem tentar embelezar demasiado aquilo que já tem peso por si só. Ainda assim, há momentos em que confia demasiado na sua dimensão poética, tornando algumas imagens mais solenes do que precisavam de ser. Mesmo com essas hesitações, River Dreams mantém uma atenção sincera às pessoas que filma. É um documentário sensível, delicado e politicamente claro, que encontra na escuta a sua maior força.
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Rita Costa

MOFO de Carly Hanna
Grande Prémio Nacional / Curtas – vencedor
É engraçada a palavra mofo – penso que se aplicará um daqueles recursos estilísticos dos mais raros (ou não existe e estou eu a inventá-lo) onde a própria pronúncia de uma palavra parece receber características condizentes com a sua definição: “mofo” são dois fonemas consideravelmente abafados e bafientos; o seu uso é de resto algo restrito: costuma-se dizer que algo cheira a mofo, mas guardamos para a encarnação visual da coisa o mais elaborado “bolor”, bom, tenho essa ideia, pelo menos. De qualquer maneira, é engraçado, isso de “mofo”, se o repetirmos algumas vezes. Acontece algo do género nesta pequena curta-metragem de onze minutos, de resto um episódio clássico de uma situação onde irmã (Ana Vilela da Costa) e irmão estão a arrumar a casa do falecido pai, a confrontarem-se com as suas coisas, numa decoupage de cuidadosa e trabalhada economia – a acção passa-se essencialmente numa única sala, acrescentando-se a qualidade de todas as portas que vemos estarem escandaradas. Acontece, dizia, que o filho (José Pimentão), vai espreitar a memória interna de um camcorder funcional que encontra do pai. O que encontra nesses vídeos, com um levíssimo, levíssimo toque de terror para o filme – estou a falar de segmentos de alguns segundos, uma pitada – são filmagens de bolor nas paredes, algumas até bastante abstractas; o pai a queixar-se daquilo. Esta queixa, e a imagem do pai velho em tronco nu, operam uma pequena compulsão para a revisita, e para a ruminação, que no final já é deixada alastrar, pelo menos um bocadinho, o suficiente para dar aspecto, movimento e uma frase à inquietação que é a do luto e a de ver num corpo mais velho o nosso espelhado. É de um marcado cuidado estético e técnico este exercício final de mestrado, e demonstra grande capacidade da parte da realizadora. Parabéns!
Rafael Fonseca



