20º MOTELX – Dia 1 : Drag, Sicko, Fuck My Son!

EquipaSetembro 4, 2026

Arrancou finalmente a 20ª edição do MOTELX – Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa no Cinema São Jorge. Nas imediações da sala Manoel de Oliveira reuniam-se velhas caras conhecidas num cocktail de boas vindas que abriu as hostes a uma memorável edição com 11 dias de cinema de terror. A cerimónia de abertura foi longa, ou não fosse esta a vigésima edição com muito para celebrar. Por entre histórias do passado e previsões para a presente edição, os discursos foram vários com o entusiasmo de sempre para uma audiência lotada por uma comunidade que se tem vindo a formar ao longo destes 20 anos e que já é paisagem habitual na agenda cultura da capital. Após uma surpreendente exibição dos primeiros 20 minutos do muito aguardado filme Resident Evil, de Zach Cregger, chegou finalmente o prato principal: Drag, de Raviv Ullman e Greg Yagolnitzer, o filme selecionado para abrir as hostilidades. A Tribuna do Cinema esteve presente e, além do filme de abertura, assistimos ainda a Sicko, de Aitore Zholdaskali, e Fuck My Son!, de Todd Rohal.

 

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Drag de Raviv Ullman & Greg Yagolnitzer

Uma comédia negra de terror/suspense coloca duas irmãs assaltantes amadoras no interior da casa de um artista provavelmente milionário. Quando uma delas (Lizzy Caplan) fica imobilizada por uma queda, todas as peripécias que poderiam acontecer acontecem. Drag não é um filme particularmente original ou sequer sagaz dentro do seu tom de comédia arrepiante, por vezes a roçar o sádico, mas é sólido o suficiente para não ultrapassar as linhas que impediriam uma sala lotada de soltar várias gargalhadas uníssonas. O argumento é dotado de uma implausibilidade por vezes grotesca, mas é nessa linguagem slapstick por vezes looney tunesca que melhor se aguenta. Como é evidente o dono da luxuosa moradia esconde algo mais negro do que ser apenas a vítima de um assalto, e o jogo de gato e rato consegue manter-se razoavelmente durante toda a duração do filme. A química entre as duas protagonistas, divertida no início, vai perdendo o gás devido a uma certa insuficiência de diálogo, mas a verdade é que o vilão (?) interpretado por John Stamos dá um novo fôlego à cadência desta comédia negra que faz o espectador deixar um dos olhos fechado e outro aberto nalguns momentos. Só no último terço, ainda assim, quando Lizzy Caplan assume as rédeas, é que Drag consegue finalmente florescer em todo o seu esplendor, capturando o peso da incerteza que o filme de uma forma ou de outra parecia procurar desde o início, mas sempre amarrado aos carris da sua mais ou menos previsível narrativa. Uma boa experiência de comunidade em sala no arranque desta edição do MotelX.

David Bernardino

 

Drag começa com uma ideia que parece ter graça suficiente para aguentar o filme: duas irmãs entram numa casa para roubar e uma delas fica praticamente imobilizada por uma dor nas costas. Durante algum tempo, a limitação física cria uma tensão estranha e até alguma expectativa sobre até onde o filme estará disposto a levar aquela situação. A resposta é: demasiado longe e, ao mesmo tempo, nunca longe o suficiente. A personagem é empurrada, atirada e maltratada numa sucessão de acidentes que querem ser cada vez mais absurdos, mas a repetição vai retirando qualquer crueldade ou surpresa ao gesto. As piadas são insistentes, ruidosas e quase sempre um pouco mais longas do que deveriam. Há qualquer coisa de desesperado na forma como Drag procura a gargalhada, como se aumentar o volume ou prolongar o constrangimento pudesse tornar uma situação automaticamente mais engraçada. Curiosamente, quando chegam outras personagens, o filme respira. A entrada do proprietário e momentos como a conversa em torno das pinturas dão ao absurdo um pouco mais de espaço e deixam entrever uma comédia bastante melhor do que aquela que acaba por existir. Há ainda uma tentativa de dar espessura emocional à protagonista, mas chega tarde. No fim, Drag arrasta-se mais do que devia.

Rita Costa

 

Sicko de Aitore Zholdaskali

Apareceu-me um reel no outro dia a exortar o seguinte: “never forget when Robert Downey Jr. visited Wall Street in 1992 and got horrified ”. No clip, o actor, após uma sequência na azáfama do mercado, afirma: “If money is evil, then that building is hell”. Pensei nessa sentença a ver Sicko, de Aitore Zholdaskali, longa-metragem projectada na Sala 3 do Cinema São Jorge ao mesmo tempo que a grande cerimónia em cima abria o festival. Se o dinheiro é o Mal, este filme passa-se no inferno. Azamat (Ayan Utepbergen) e Tansholpan (Dilnaz Kurmangali) são um casal cheio de dívidas e de esquemas, com agiotas a persegui-los e um azar no dia-a-dia típico de quem está sempre à procura de enganar os outros. Quando têm a ideia, fruto do acaso, de começar um canal nas redes sociais sobre uma recuperação fictícia de um cancro não-existente de Tansholpan, não poderiam imaginar o sucesso que o engodo viria a ter.

O casal passa rapidamente a ser uma sensação em Almaty, cidade no Cazaquistão, facilmente identificáveis, muito além do seu bairro, pela imagem de marca que adoptam (ela, frágil numa cadeira de rodas sempre empurrada por ele, os dois de cabelo rapado). Primeiro, os GoFundMe’s, mais tarde, os brand deals, a correspondência de fãs e admiradores. Em breve, todas as dívidas estão pagas, mas Azamat é um monstro que vive para o dinheiro, um de vários que o filme nos mostra: existe uma oferta de uma instituição para pagar um tratamento especializado na Coreia, tratamento que não pode existir, pois este cancro não existe. O dinheiro que apresentam, esse, é muito. E para tentar obtê-lo na mesma, tal como na fábula do cão que bebeu demasiado do lago para chegar ao reflexo que vê da lua, tudo rebenta, num terceiro acto ainda mais violento, um cerco ainda mais desconfortável do que fora até aí. É um daqueles filmes que faz parte do género “m*rda a ficar cada vez mais f*dida”, tão bons de encontrar sempre no MotelX. Um conto de vigários que não é para os mais sensíveis.

Rafael Fonseca

 

Fuck My Son! de Todd Rohal

Em 1972, Randy Newman reflectia sobre a necessidade do Homem ter um Deus. Imaginava Newman uma divindade que nos olhava cá para baixo com a mesma irreflexão que nós dedicamos às formigas. “I recoil in horror from the foulness of thee, from the squalor and the filth and the misery; how we laugh up here in heaven at the prayers you offer Me“, diz o seu Deus. Numa altura em que o tecnologicamente prolixo nos encoraja a pensar na Inteligência Artificial como a concretização humana de um Deus, são filmes como Fuck My Son! que a operam para reafirmar a obscenidade desse conceito que melhor ilustram os Tempos. Estamos, claro, como próprio título indica, a falar de um registo de mau gosto, de grosseria e instinto básico, de provocação fácil e de valor de choque imediato. A multidão na sala em que vi o filme, no MotelX, já por si com uma longa história de abraçar o vil e o repugnante a caminho de uma afirmação do que é humano, não disfarçou a repulsa. O filme motivou pouquíssimos aplausos e muitíssimas expressões de nojo. Aos olhos do seu realizador, Todd Rohal, imagino que cumpra o seu propósito: de facto, Fuck My Son!, objectivamente um filme em que uma idosa, representada por um homem de meia idade (Robert Longstreet) fortemente caracterizado, rapta uma mulher (Tipper Newton) e a sua filha (Kynzie Colmery) e a força a ter sexo com o seu próprio filho (Steve Little), uma criatura de humanidade irreconhecível e aspecto igualmente repugnante, é chocante. Mas mais do que isso, Fuck My Son!, através do seu abundante uso da Inteligência Artificial divinal, seja para representar o mundo interior de uma criança condenada a todo o tipo de violências, seja para concretizar uma longa jornada de apartes surrealistas que acompanham a interioridade destas repugnantes personagens, força-nos a retirar do absurdo aquilo que é humano. Num de dois finais oferecidos por Rohal, Fuck My Son! mostra Pavarotti, José Carreras e Plácido Domingo, toscamente caracterizados, a cantar para a mulher vitimizada. Tudo isto com um detalhado e assinalável trabalho de efeitos práticos que é cada vez mais raro no cinema americano actual. Para todas as desumanidades que a inteligência artificial nos apresenta, Fuck My Son! chafurda igualmente nas mais básicas imundícies que também nos fazem humanos. Ou não acabasse Randy Newman por cantar que “that’s why I love mankind“.

Hugo Dinis