20° MOTELX – Dias 9, 10 e 11 : The Furious, Fall 2: Deadpoint, House of Usher, Kinki e os Grandes Vencedores

EquipaSetembro 14, 2026

Terminou a 20ª Edição do MOTELX. Foram 11 dias de uma cobertura intensiva da Tribuna do Cinema, com críticas a dezenas de filmes que compuseram a programação deste que talvez seja o festival de cinema em Portugal que atrai a maior quantidade de público. A sessão de encerramento apresentou Fall 2: Deadpoint, mas antes disso os discursos e os vencedores das várias competições encheram de orgulho uma sala cheia de fiéis adeptos deste ritual anual dedicado ao terror.

A Hora do Chico!, de João Severo e Rafael Sá Carneiro, venceu o Prémio MOTELX – Melhor Curta de Terror Portuguesa, numa distinção onde Consumido, de [carrozo] recebeu ainda uma Menção Honrosa. O Prémio Méliès d’argent – Melhor Curta Europeia consagrou Mancave, do realizador norueguês Fredrik S. Hana. No Rest for the Wicked, do dinamarquês Kasper Kalle, foi o filme distinguido com o Prémio Méliès d’argent – Melhor Longa-Metragem Europeia. Quanto ao Prémio MOTELX – Melhor Guião de Terror Português sorriu a Miguel Monteiro Rico com Hóspede e houve lugar ainda uma Menção Honrosa para A Ostra, de Pedro Garrido. Lexi, filme de produção espanhola realizado pelo português Bruno Simões, foi o vencedor do Prémio Lobo Mau. E o Prémio do Público ficou nas mãos de Gunman, do argentino Cris Tapia Marchiori.

Neste último apanhado de críticas há ainda espaço para The Furious, a acção trepidante de Kenji Tanigaki de Hong Kong; Kinki, o novo filme de terror do japonês Koji Shiraishi; e House of Usher, do lendário Roger Corman.

*

 

The Furious de Kenji Tanigaki

Supus que, para um filme de artes marciais fazer parte do cardápio do MOTELX, tinha de ser uma coisa especial. Sem assassinos em série, tensões psicossexuais, possessões, mitologias, criaturas sobrenaturais ou monstros, o que é que The Furious podia trazer a uma mesa já tão bem servida? A resposta é: baldes de sangue e porrada de criar bicho.

The Furious foca-se num pai biscateiro (Xie Miao) que leva uma vida pacata com a filha até que uma rede de tráfico humano rapta a miúda. Erro crasso. Ninguém sabe que por baixo daquela existência pacífica se esconde um exímio lutador de kung fu disposto a fazer a vida negra a todo e qualquer gandulo que se lhe atravesse à frente. Pelo caminho encontra outro justiceiro (Joe Taslim, repetente nestas andanças), que por sua vez procura a sua mulher, desaparecida enquanto investigava a mesma organização criminosa, e os dois acabam a distribuir pancada pelo Sudeste Asiático fora.

O argumento, diga-se já, cabe num guardanapo. Está lá só para ser a tela onde Xie Miao e Joe Taslim vão pintar com sangue o fim de um grupo de meliantes tão cruel quanto variado, organizado como se fosse um beat’em up onde cada novo adversário vem com o seu próprio look ou estilo de luta. Temos o mau de afro, o mau gordo, o mau de chapéu, o mau do arco e flecha, o mau que nem parece mau porque usa óculos. Só falta uma barra de energia no fundo do ecrã. Graças a essa lógica de videojogo, e em vez de depender do pálido argumento para se empurrar para a frente, The Furious progride através dos confrontos. Kenji Tanigaki tem à disposição atletas capazes de fazer coisas com o corpo que me fazem suspeitar que os meus joelhos e os deles não são feitos da mesma coisa e, abençoada direcção de fotografia, deixa-nos ver tudo. A câmara não anda desesperada a esconder os movimentos atrás de cortes e tremeliques; mantém sempre os corpos legíveis dentro do plano. As coreografias têm espaço para que se perceba onde cada golpe começa e acaba e quantos ossos poderá ter partido pelo caminho. Algumas sequências parecem um bailado pela precisão com que vários corpos entram e saem do movimento uns dos outros.

Se a expressão “bailado” tiver passado a ideia de que existe aqui algum tipo de elegância asséptica, desenganem-se. Desde martelos e marretas a chover na cabeça ou nas costelas de algum desgraçado ou flechas a transformar pessoas em almofadas de alfinetes, há poucas coisas que não têm lugar. A violência é frenética e muito variada, incluindo as próprias artes marciais. Do kung fu ao pencak silat e muay thai, os estilos fluem uns com os outros e garantem que a porrada nunca sabe toda ao mesmo, com uma brutalidade tão táctil que no fim do filme apetece pôr a mão em cada uma das nossas rótulas só para confirmar que ainda estão inteiras.

O problema de passar duas horas a tentar superar a última tareia é que, a certa altura, já vimos praticamente todas as maneiras imagináveis de um ser humano bater noutro. A sequência final prolonga-se imenso e chega quando o filme já gastou tantos cartuchos que custa encontrar uma nova velocidade para acabar nos píncaros. O argumento é ralo e por vezes risível, mas o filme tem uma compreensão cristalina daquilo que veio fazer e gente com talento suficiente para o fazer muito bem. The Furious é uma obra tão cinética e explosiva que parece que saímos da sala com o cérebro a chocalhar dentro do crânio. Imperdível para quem achou que The Raid foi morninho.

Carla Rodrigues

 

É capaz de ter sido o filme que mais galvanizou a sala nesta edição do MOTELX. The Furious, de Kenji Tanigaki, é um daqueles filmes de acção de Hong Kong de uma escala coreográfica avassaladora, que provavelmente não terá paralelo em mais nada do que se faz ou fez em qualquer parte do Mundo. Sem rodeios, é um filme de “porrada” sem limites, altamente teatralizado, e superlativamente coreografado. Nesta história em que um pai mudo, mestre de kung fu, se alia a um jornalista também lutador, para salvar a sua filha raptada por um grupo de tráfico humano, a narrativa serve apenas como dispositivo móvel para a acção sem escrúpulos, e Kenji Tanigaki está bem consciente disso. O filme nunca se leva a sério, jogando com o seu irrealismo desmedido e a sua montagem por vezes digna de videojogo beat’em up de 16 bits da Sega Mega Drive para soltar gargalhadas do espectador interessado em ver até onde vai a loucura e o exagero destas sequências de luta a alta velocidade. Nesse campo, que é o mais importante, a acção, The Furious é uma das melhores coisas que já agraciou um ecrã, mas nem apenas disso se faz um filme. The Furious está longe do carisma e personalidade que acompanham um John Wick ou Nobody. Por outro lado, a imagem é suja, cinzenta, carregada por uma pós-produção demasiado visível que mancha a ilusão de movimento real, por vezes impossível (embora bem-vindo) que as suas personagens executam. Só essa componente o impede de chegar a patamares mais elevados, mas nem por isso deixará de se tornar um filme de culto.

David Bernardino

 

Fall 2: Deadpoint de Michael Spierig & Peter Spierig

O filme escolhido para encerrar a 20ª Edição do MOTELX foi Fall 2: Deadpoint, prometendo provocar uma rara sensação de ansiedade e vertigem que tantos fãs de cinema de género procuram. Nesse campo, Fall 2 cumpre: duas jovens que decidem fazer uma escalada ilegalmente perigosa na Tailândia ficam presas num pequeno espaço a uma vertiginosa altitude. As mãos suam e a ilusão de vertigem consegue capturar a audiência, mas existe sempre algo a poluir a imagem, excessivamente trabalhada com uma camada de efeitos especiais que tira algum (não todo) do realismo. O original Fall (2022) é aí particularmente mais bem sucedido. Quanto a este Deadpoint, a dada altura parece querer abraçar o série B irrealista. As protagonistas superam-se individualmente, com toques dramáticos que derrotam os medos e limites, e de repente à espreita está um vilão inesperado. Abraçando o seu irrealismo, Fall 2: Deadpoint introduz elementos narrativos e uma montagem de imagem demasiado rídiculos que conseguem soltar a gargalhada do espectador que estará sempre no limite de acreditar ou não se aquela “cheesyness” é propositada. Bem, não é muito importante.

.

David Bernardino

 

Confesso que não vi o primeiro Fall. Entrei em Fall 2 sem contexto, sem ligação às personagens e sem qualquer ideia muito concreta do que esperar. Talvez tenha ajudado, porque ao fim de pouco tempo percebi que o filme também não estava particularmente a pedir ser levado muito a sério. Duas mulheres ficam presas numa situação de sobrevivência a uma altura absurda, e a partir daí o filme transforma-se numa espécie de competição para descobrir qual será o próximo desastre. E há um ponto em que tudo chega a um nível tão ridículo que se torna impossível não achar graça. Cada novo problema parece mais improvável do que o anterior, as decisões das personagens vão ficando mais discutíveis e o filme continua a subir com uma confiança quase admirável. É cinema feito à base de vertigem, sustos, gritos e “não podia ser pior”, imediatamente seguido por alguma coisa que prova que, afinal, pode. Dramaticamente, é fraco. As tentativas de dar profundidade emocional às personagens parecem uma obrigação entre duas sequências de perigo, e os diálogos raramente ajudam. Mas também seria injusto fingir que não me diverti. Há qualquer coisa de bastante eficaz num filme que abraça progressivamente o absurdo e transforma tensão em gargalhada coletiva na sala. Não é bom, propriamente dito, mas é suficientemente disparatado para entreter.

Rita Costa

 

House of Usher (1960) de Roger Corman

Um filme, também ele, de uma morbid acuteness of the senses. House of Usher prolonga-se e abisma-se nessa interrogação de Philip Winthrop (Mark Damon) perante a maldição daquela família, que Roderick Usher (Vincent Price) teatralmente lhe explica – e na qual a irmã, Madeline Usher (Myrna Fahey), parece acreditar. Longa expiação de um espaço maldito, em sussurro – a pedido do anfitrião, dada uma agudíssima sensibilidade a todo o tipo de som -, o filme funciona através da ininterrupta exploração de uma arquitectura que nos conta aquela família. Winthrop procura resgatar Madeline e levá-la para Boston, enquanto a velha casa, como que abandonada pelos próprios moradores, se vai fissurando em seu torno. Este é, afinal, um filme “obcecado com imagens de morte”, de gritos horrendos abafados pela penumbra crescente dos espaços. Algo que um honrado e prosaico Winthrop simplesmente não poderá aceitar. Infatigavelmente, tenta abrir o campo de Madeline à purificadora luz do sol, mas as raízes daquele mal são difíceis de desbastar. A casa sacode-o, os objectos assaltam-no, enquanto tudo se afunda, pouco a pouco, na bruma do pântano. O signo dos Usher, ou as maquinações do seu anfitrião (pouco importa…), levam-nos ao mais profundo dos pesadelos. Uma sequência terrífica, de todas as cores se formam os fantasmas que pareciam fitar-nos através das telas macabras de Roderick. Se as chamas finais tratarão de purgar enfim a visão de Winthrop – pensamos em Rebecca, de Hitchcock -, o pântano mudo eternizará um mistério que a casa sempre pareceu evocar.

Uso belíssimo da arquitectura do plano, e um magnífico filme para sempre perdido dentro dela. Perdoamos-lhe o romance algo barato que embala a trama. O cinema de Corman, que nasce de uma penúria, alimenta-se de sentidos (morbidamente) tão mais apurados. Numa sensibilidade próxima daquela que Bava levaria mais longe na obra-prima La frusta e il corpo, Corman faz da escassez da trama um profundo ensaio sobre sugestão e abismo.

Miguel Allen

 

Kinki de Koji Shiraishi

Grande expectativa para Kinki, que muitos apelidavam como um regresso triunfal de Koji Shiraishi ao terror found footage 21 anos depois do arrepiante Noroi: The Curse. Kinki começa bem, quando dois jornalistas de uma revista dedicada ao oculto, prestes a encerrar, pegam no trabalho inacabado de um colega que misteriosamente desapareceu durante as suas pesquisas. Visionando vídeos e cassetes de forma a construir o mistério da entidade “sob análise”, o filme é particularmente eficaz nesse primeiro terço, onde o mistério desconcertante das imagens nostálgicas e distorcidas consegue agarrar o espectador da mesma forma que Noroi fez há duas décadas. Infelizmente, à medida que a narrativa progride, os elementos são adicionados como tijolos adornados por uma componente dramática inter-personagem supérflua que nunca consegue capturar a atenção do espectador da mesma forma, nunca conseguindo recuperar a mística do seu primeiro terço. A dada altura, Kinki parece preferir abraçar a fantasia, sem grande gravidade ou clímax que justifiquem o investimento do espectador. Sempre sólido, mas raramente interessante, o novo filme de Koji Shiraishi desilude.

David Bernardino