20° MOTELX – Dias 2 e 3 : Poultry Farm, Colony, Gaua, Cramps, Nervous

EquipaSetembro 7, 2026

Segundo e terceiro dias da 20.ª edição do MOTELX, em que a variedade da oferta demonstra bem o carácter singular deste festival. Um aviário no Irão, um centro comercial atacado por uma colónia de zombies na Coreia do Sul ou um salão de beleza queer nos Estados Unidos dos anos 60. Foram dois dias “estranhos”, como não podia deixar de ser, em que, embora os filmes não tenham conquistado a preferência da Tribuna, as surpresas não deixaram de nos entusiasmar. Aqui ficam as críticas aos filmes dos dias 2 e 3 do MOTELX deste ano, respectivamente, 4 e 5 de Setembro: Poultry Farm, Colony, Gaua, Cramps! A Period Piece e Nervous.

 

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Poultry Farm de Mohammadreza Ardalan

Na forma como faz questão de afirmar as suas individualidades, Poultry Farm é um filme claramente informado pela guerra entre Irão e Iraque dos anos 80. Hawaz (cujo nome nos diz significar “choro”) é um jovem iraniano órfão dela pela perseguição baathista aos pais que chega a um aviário fora de Teerão para trabalhar sob o jugo de um patrão reclusivo e sinistro, um ajudante submisso e um mercenário dividido entre novo e velho chefe. A vulnerabilidade imediata de Hawaz coloca-o desde logo sob a ameaça de uma condição descartável, inserido numa teia de relações feudais com quem o controla. A figura do patrão é sobretudo macabra. Após o nascimento de três filhos portadores de deficiência mental significativa, o peso da vergonha auto-imposta terá levado à sua dependência de ópio e a mulher à loucura. O fardo da sua ira indiscriminada recai, pois, nos subordinados. Para o realizador Mohammadreza Ardalan, esta reconstrução do passado recente iraniano sob a forma de um registo de survivalismo corresponde a uma necessidade de repensar as relações laborais arcaicas do país. Toda a criação de personagens parece ter sido tomada como preocupação central em detrimento do encadeamento de significados que elas pudessem montar. Nesse sentido, quando os gatilhos da acção se concretizam, Ardalan pouco parece ter a acrescentar para além da necessidade de sobrevivência dos mais susceptíveis. As montanhas que cercam o aviário amontoam-se de corpos, mais ou menos animalescos. Um retrato de um país dilacerado.

 

Colony de Yeon Sang-ho

Em virtude do assinalar de dez anos de Train To Busan (2016), é apenas natural que este Colony esteja a ser celebrado como um regresso à boa forma por parte do seu realizador, Yeon Sang-ho. As semelhanças são aparentemente evidentes: zombies! em espaço confinado! Na verdade, não é tanto que Colony não consiga ser uma remistura das credenciais de culto do seu antecessor, mas antes que se revele incapaz de ser mais do que um enorme ruído de fundo de ataques, contra-ataques, fúrias indistintas e espirrares de sangue e vómito ininterrupto que concretize algo mais do que apenas isso. Do ponto de vista formal, a colocação da libertação do vírus mortal no contexto de um arranha-céus permite a Yeon saber dosear intervalos de tréguas e explosões de violência. O que acabamos por interrogar à medida que nos aproximamos do final dos seus intermináveis 123 minutos de duração, contudo, é porque é que nos importamos com tudo isto. Os acessos de brutalidade são competentemente coreografados com ângulos de visão criativos, câmaras instáveis e representações corporais atraentes, é certo. Mas Yeon raramente parece resistir à tentação de adicionar mais uma ou outra instalação de matança estilizada como aquele extremo que não resiste a mais uma finta antes de cruzar a bola para a área. As sequências sucedem-se até à absoluta perda de qualquer propulsividade e significado, muito para lá de qualquer crítica que se possa fazer a um argumento que parece fazer mais para acomodar essas peças do que para reter algum tipo de inteligibilidade. Ora, se este tipo de filme não é capaz de, pelo menos, saber reter a atenção do seu espectador, então qual será o seu propósito?

Hugo Dinis

 

Não consegui tirar CeCe Peniston da cabeça. Mudando a letra, ficaria “Colony, it’s happened to me, right in front of my face…“. E tal poderia ter sido, finalmente, um recurso interessante num filme em que a “coreografia” será seguramente um dos seus melhores atributos. Aquele torcer dos corpos deformados e o efeito cinético que Sang-ho produz a partir dos seus zombies. Infelizmente, Colony é bem menos do que essa sua qualidade de espectáculo físico. Não sendo longo, é um filme demorado e, se nos perde sempre que se interessa por algo para além dos seus brain-dead famintos, revela também uma manifesta incapacidade para fazer progredir narrativamente – ou cinematograficamente – as suas criaturas em cena. Os dados são lançados muito cedo, com o terrorista perverso a anunciar o seu crime e a própria identidade à polícia pelo telefone (era necessário conter o espaço de acção de alguma maneira) para, depois de uma conveniente e aborrecida conferência de biotecnologia, sobre inteligência colectiva, atacar o CEO de uma empresa que, pelo que diz, lhe roubou o trabalho de investigação científica. O motivo do crime será mais vasto do que esse simples ataque ao patriarcado capitalista mas, se Sang-ho tenta desastradamente construir essa revelação ao longo do filme, o resultado dificilmente poderia ser mais anti-climático. Pelo meio, temos muita violência, corpos deformados e animalescos cobertos de sangue e de uma nhanha que se vai espalhando também pelas paredes do edifício. Nada de mal, mas é um conceito que se vai esgotando na relativa previsibilidade em que a trama sucessivamente tropeça. Sim, este é apenas “mais um filme de zombies“, mas sobretudo um filme que não sabe exactamente o que fazer do seu Dawn of the Dead quando o grupo de sobreviventes se vê enclausurado num centro comercial. Se por momentos imaginamos que assim será, não, o espaço cénico não servirá de comentário à sociedade de consumo, como acontecia com Romero, e, apesar das múltiplas possibilidades, Colony evita qualquer recurso humorístico com que poderia fortalecer o seu absurdo. É o fim do mundo, e o melhor é, aparentemente, tomar todas as más decisões. Enfim, a ideia de uma colónia de seres que, como o bolor, como as formigas, se fortalece e aprende a partir de informação partilhada – aqui num estado de transe, precedido por um estranho uivo – poderia ser interessante, mas não ajuda que estes zombies sejam sempre mais interessantes quanto mais primitivos. A quatro patas e a arfar, agressivamente aos saltos sobre uma qualquer figura humana, seja ela bi ou tridimensional, de plástico ou de cartão. Será que devia ter visto Train to Busan antes deste? Mas onde é que fica Busan, afinal? São ideias que nos assaltam a cabeça enquanto discorre o filme. O cinema tem de reaprender a ser menos inteligente. “Dun, dun, da, da, yeah, yeah, ow.“

 

Gaua de Paul Urkijo Alijo

Na apresentação do seu mais recente trabalho profundamente enredado no misticismo basco folclórico, o realizador Paul Urkijo Alijo coloca uma bifurcação. A noite é para as criaturas nocturnas, o dia para os restantes. A introdução servirá sobretudo para carregar o filme firmemente para o campo do nocturno: vemos uma mulher inquieta a preparar o jantar para o marido, como uma luz que irrompe pelo breu da escuridão, mas que sobretudo se encontra a maquinar a forma de a ele poder escapar. Esse é, de resto, apenas um de vários capítulos da história de Gaua e de Alijo. A estrutura rígida permite a fácil identificação das personagens no denso mundo basco de Alijo, mas também contribui para colocar areia na engrenagem de Gaua. À medida que acompanhamos o enredo da vila, encoberto pela ameaça do catolicismo inquisitorial e do misticismo local, Gaua surge-nos em episódios, avanços e recuos, falsas partidas e pequenas janelas.

Kattalin (Yune Nogueiras) escapa às garras de um marido abusivo, atormentado pela própria limitação física motora (a representação de homens possessivos e beligerantes com as mulheres já teve melhores dias e sobretudo mais interessantes subtilezas), e depara-se com um conjunto de mulheres que usa o pretexto de lavar roupa para dirimir os boatos du jour na vila. Na verdade, Kattalin não foge tanto quanto assume um destino: o seu desejo de escapar está menos motivado por qualquer tipo de consciência de vitimização do que por profunda vontade de conhecer uma vida em conjunto com Maritxu (Erika Olaizola).

O obscurantismo é, em Gaua, o principal aliado de um patriarcado religioso e conservador que vigora na ruralidade basca. O padre local auto-mutila-se em nome da carne fraca que professa, e encontra na Inquisição um escape. Gaua é, contudo, o abraço da noite como fuga a um dia que tantas vezes será mais negro que a perspectiva da escuridão, ainda assim. Alijo vê esperança para as amantes condenadas no seu misticismo de pesca de arrasto. Se as pessoas encontram a sua liberdade e expressão plena apenas no mundo da bruxaria, então venha de lá essa noite. Até lá, restam-nos as palavras finais de Alijo: uma promessa de vingança, no conforto dos mitos e das lendas.

Hugo Dinis

 

Cramps! A Period Piece de Brooke H. Cellars

A combinação perfeita de ingredientes nem sempre resulta no bolo perfeito. E lá porque um bolo não é perfeito, também não quer dizer que saiba mal. Provavelmente até sabe bem na mesma. Tem açúcar, é docinho, dá-nos aquele brilhozinho nos olhos de quem acabou de comer uma gulodice e sabe que não precisava. Cramps! A Period Piece é um bocado isso, em versão cinema.

Com uma abordagem technicolor e kitsch às dores de cabeça da menstruação, é uma period piece em dois sentidos: um filme de época, passado nos anos 60, e um filme dedicado às agruras do período. Acompanhamos Agnes, uma jovem sufocada por uma mãe ultraconservadora, quando arranja emprego num salão de cabeleireiro que parece saído da cabeça de John Waters. Ao mesmo tempo, Agnes começa a sofrer cólicas menstruais violentíssimas que talvez não façam parte do funcionamento habitual do aparelho reprodutor feminino.

Enquanto Agnes tenta perceber o que raio se passa com o seu corpo e provar o seu valor no salão, nós vamos sendo entretidos pelo caleidoscópio de cores que nos entra pelos olhos dentro e pela pura paixão que transparece de tudo isto. Cramps! é um daqueles filmes de pequenito orçamento em que há meia dúzia de cenários, uma mão cheia de props, e talvez alguém fora de cena a segurar uma parede para ela não cair. Mas também é um daqueles filmes em que se nota que toda a gente embarcou de corpo e alma num conceito mirabolante, sem grandes meios além da vontade de fazer acontecer. Há poucas coisas de que goste mais no cinema do que sentir que por trás de um filme existe aquele drive meio irracional de ter uma ideia absurda e, contra dinheiro e bom senso, transformá-la num objeto que existe no mundo. Em Cramps! essa aura é evidente e conquistou a minha estima.

Porém, entristece-me dizer que paixão não resolve tudo. Cramps! tem vários problemas, sendo os maiores culpados o ritmo e a dificuldade em fazer coexistir o desenvolvimento de Agnes, o dia-a-dia do salão e o body horror que a premissa nos promete. Percebe-se o que o filme quer dizer ao tocar em tópicos como o controlo do corpo feminino, a vergonha, o conservadorismo e o patriarcado, e há qualquer coisa mesmo muito simpática na forma como manda tudo isso às favas sempre com um sorriso. Daí até criar uma narrativa coesa são outros quinhentos.

Cramps! também precisava de ter empurrado mais os limites da tolerância. Menstruação, repressão sexual, conservadorismo dos anos 60, body horror, cores garridas, estética camp: tinha tudo preparado para ser um pequeno grand guignol feminista cheio de sangue e mau gosto (no melhor sentido), só que, com exceção de uns breves mas divertidos acenos nessa direção, o filme nunca se chega a render ao exagero que o conceito pedia.

Apesar de falhar o potencial, há filmes muito melhores do que Cramps! pelos quais senti muito menos carinho. Para além do coração no sítio certo, este tem alguma piada e personalidade a rodos. Só gostava que, depois de juntar ingredientes tão bons, tivéssemos direito a um bolo melhor. Enfim, açúcar é açúcar.

Carla Rodrigues

 

Agnes Applewhite (Lauren Kitchen) inicia a sua emancipação da mãe (Brooklyn Woods) e da irmã (Harlie Madison) ao entrar para o salão da drag queen Laverne (Martini Bear), onde trabalham Holiday (Michelle Malentina), conhecida por queimar o cabelo das clientes, e Teddy (Wicken Taylor), que não esconde a sua adoração a Satanás. Este percurso é interrompido por uma crise de dores menstruais que impede Agnes de viver como desejaria. A segunda parte do título – “a period piece” – parece um modo banal de justificar o localização temporal do filme nos anos 60, mas sintetiza a essência da obra tão eficazmente que a questão se evapora. Brooke H. Cellars materializa perfeitamente o quão debilitante e enigmática pode ser a endometriose, numa alegoria campy e trashy bem-sucedida, em que se destacam os diálogos hilariantes e a direção de arte. Aliás, é refrescante finalmente ver um filme verdadeiramente camp, depois de tantas tentativas que surgiram na década de 2020.

No entanto, a construção visual das personagens e dos espaços é pouco aproveitada. Os planos são simplistas e, quando arriscam, são derivativos de outros filmes. Não somos enganados, já que o filme abre com Agnes em modo Ann-Margret no Bye-Bye Birdie (George Sidney, 1963). Ainda assim, Cellars está determinada no cinema que pretende construir, afastando-se o suficiente das suas influências para se tornar numa voz única.

Maria Inês Opinião

 

Nervous de Abner Pastoll

Compromisso. Por vezes, é assustador, não é? Às vezes apenas enquanto conceito. Então imagine-se o susto que será mudar para a Coreia com o novo marido que nos foi infiel. Sem surpresa, esta é a premissa de mais um filme de terror (ou será apenas suspense? onde estará a fronteira?) em 2026. Um realizador como o sul-africano Abner Pastoll agarrou a oportunidade e viu aqui a forma ideal de criar um filme que se serve de forma praticamente única da gestão do som para concretizar tensões. A mulher, representada por Sarah Bolger, é guiada, de venda nos olhos, pelo marido (Sungsoo Yune) para a nova casa do casal nas imediações de Seul. A introdução, é certo, está longe de ser idílica, mas o par decide investir. Encontram uma casa deserta, por mobilar, à beira da delapidação, a pedir para que lhe seja concedida a vida em comum de um par de seres humanos. Os problemas deste par em particular, contudo, não podiam ser mais estereotipados. O marido rotineiramente minimiza e trivializa as preocupações de Bolger, uma antiga mulher de carreira agora convertida em doméstica por admissão própria. Já Bolger vê em Sungsoo a hesitação de uma série de preocupações empurradas para o fundo da própria mente, e cedo simplesmente deixa de ouvir o marido e os homens em geral para se dedicar por inteiro a uma relação com uma vizinha misteriosa (Ko Asung).

O que nos traz à edição de som como principal muleta para as improvisações padronizadas de Pastoll. À medida que vemos Bolger a debater-se com a rejeição de um mundo que lhe é literalmente estrangeiro, a sua audição torna-se cada vez mais selectiva e, se este conceito não soa já suficientemente grosseiro, lança-se numa espiral auto-destrutiva que inevitavelmente culminará em violência catártica. Nervous é, de resto, um filme de foco singular nesse objectivo: a chegada de Bolger a uma vida conjugal partilhada sob o alicerce da desconfiança é descortinada pela ausência de som. Não faltam, pois, momentos em que Bolger explica ao espectador que o som praticamente silencioso que julga ouvir de uma velha grafonola escondida na casa do casal não é a ausência de som, mas sim um “cursed sound”. Morta e enterrada que está qualquer expectativa de sofisticação na entrega da sua mensagem, resta a Nervous voltar ao início e perguntar-se se o compromisso não será mesmo assustador. Parece que é capaz de ser.

Hugo Dinis