Um oitavo dia de MOTELX sangrento, com os clássicos The Hunger (Tony Scott) e Possession (Andrzej Żuławski) a encher a tela, e a ante-estreia de Bloody Tennis a trazer à conversa o giallo e Suspiria. Alice Maio Mackay regressa com a sua sétima longa-metragem (aos 22 anos), Our Effed Up World, filme apadrinhado por Jane Schoenbrun, mas o destaque vai forçosamente para Game, primeira longa-metragem de John Minton. Um exercício curioso, que reúne Jason Williamson, dos Sleaford Mods, no elenco, e Geoff Barrow, dos Portishead, na escrita e na produção.
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Bloody Tennis de Nikias Chryssos
Suspiria versão ténis? Quero dois, por favor.
Bloody Tennis começa de forma quase igual ao clássico de Dario Argento: uma jovem americana consegue entrar numa prestigiada academia europeia de treino intensivo. Neste caso troca-se a bailarina por uma tenista e, à semelhança de Suspiria, depressa se percebe que há qualquer coisa de muito estranha por trás das paredes da academia. O prémio que espera Sophie (a tenista), no fim é uma passagem automática para Wimbledon, desde que consiga sobreviver ao treino peculiar e às colegas ultra-competitivas.
Bloody Tennis tem a base perfeita para brincar com o desporto de alta competição: a fome necessária para chegar ao topo. Estamos habituados à conversa do sangue, suor e lágrimas, de tudo aquilo que um atleta de elite tem de sacrificar pelo sucesso. O filme pergunta até onde cada uma destas tenistas está disposta a levar a palavra “sacrifício”, e a resposta é mais macabra do que Wimbledon costuma permitir.
Não quero andar a invocar Suspiria a cada cinco minutos, até porque Bloody Tennis é menos colorido e onírico do que o clássico de 77, não deixando contudo de construir uma personalidade sólida por conta própria. Grande parte dela vem da academia. Filmado em widescreen, o filme tira excelente partido da geografia sul europeia pontilhada por courts de ténis, com vermelhos e castanhos saturados a dominar uma imagem onde mesmo a terra batida sob as redes parece preparada para o sangue que há de cair nela. Como recompensa para quem tem um fraquinho pelo cinema de género dos anos 60 e 70, a edição viaja no tempo para ir buscar pequenos tiques que lhe assentam muito bem, incluindo uns crash zooms aqui e ali sem se transformar num pastiche retro. Para lá desses mimos, sabe dar corda ao ritmo quando é preciso, sobretudo nos jogos de ténis, e é uma das razões pelas quais o filme passa tão bem.
Entre as atletas, a academia trata de garantir que amizade e competição nunca podem conviver em harmonia. A rivalidade é alimentada de propósito, com as jogadoras sempre a medir quem está acima ou abaixo e quem pode ocupar a vaga de quem cair. Há uma energia de mean girls de colégio interno que dá graça às relações e perpetua a desconfiança quanto às alianças que se vão formando. Afinal, só uma delas vai chegar a Wimbledon, e ninguém foi parar àquela academia por falta de ambição.
Quando chega a altura de pedir um bocadinho mais de suspensão da descrença, sobretudo na reta final, Bloody Tennis não pede desculpa, e ainda bem. Chryssos não vê qualquer incompatibilidade entre fazer cinema de qualidade e ao mesmo tempo abraçar o seu lado pulpy e gory, seguindo uma linhagem que realizadoras como Julia Ducournau e Coralie Fargeat têm ajudado a manter bem viva.
Bloody Tennis foi uma excelente surpresa desta edição do festival. Tem pinta e, chegada a hora, não tem problema nenhum em arregaçar as mangas e fazer das tripas coração, levando a ideia do sacrifício pelo sucesso até onde um bom filme de terror deve levar estas coisas. Para uma obra tão focada na importância de ter fome, é uma bela refeição.
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Carla Rodrigues
Bloody Tennis é um daqueles filmes de circuito de festival especialmente trabalhados para encorajar críticas de gente no Letterboxd que anseia por usar a expressão “serving cunt” no seu contexto correcto. Infelizmente, nem aqui estas pessoas terão aqui a sua satisfação parassocial. Bloody Tennis serve muito pouco para além da sua premissa pouco gentilmente inspirada por Suspiria de Argento e uma ainda menos cuidada obsessão pelo body horror que tem vindo a ser tendência no cinema de terror mainstream recente. A dar entrada numa draconiana academia de ténis, Sophie (Sandra Guldberg Kampp) encarna as dinâmicas da hipercompetitividade do ténis de alta competição, onde o ar é rarefeito e a solidariedade é proibida. As jovens que com ela competem apresentam-se quase mais como símbolos identitários do que como representações de diferentes personalidades. À partida, Sophie é a apresentada a Heidi (Helena Zengel), uma tenista em busca do nível das restantes e marginalizada por esse estatuto. Heidi elenca as alcunhas que idealizou para cada uma das colegas, não deixando de o fazer também sobre a recém chegada. A velocidade com que Sophie se adapta às regras do jogo, com a leve sugestão de “Wimbledon” a cada momento, mimetiza essa necessidade de um argumento que salte os passos da familiaridade pessoal em direcção às dinâmicas de grupo. Ao contrário de em Challengers (2024), por exemplo, a preocupação do realizador Nikias Chryssos não se prende tanto com a teatralização das cenas de competição no decorrer dos jogos, mas sobretudo numa estilização de gestos e reacções físicas. Os estalares de ossos nos alongamentos, os esgares das lesões, tudo denuncia uma fetichização dos diversos elementos que vão compondo o rumo à destruição corporal. Quando esta surge, não é necessariamente um elemento estranho, mas apresenta-se já certamente como um interesse único e inegociável na montagem de Chryssos. Um Giallo reduzido ao seu mais ínfimo detalhe.
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Hugo Dinis

The Hunger de Tony Scott
Na sessão especial da Antena 3, The Hunger voltou ontem ao grande ecrã com a estranheza e o fascínio intactos. Há filmes que parecem feitos para regressar a uma sala cheia muitos anos depois, já carregados de uma história própria, e este é um deles. Logo no início, com Bauhaus a tocar, Catherine Deneuve e David Bowie entram em cena como duas figuras que pertencem mais à noite do que ao mundo real. Vivem num mundo de excessos: a luz, o fumo, os interiores, os corpos, a montagem. Por baixo dessa superfície muito estilizada está o medo de envelhecer, de perder o desejo do outro, de deixar de ser belo. Quando Bowie começa a envelhecer de forma súbita, o filme deixa durante algum tempo a elegância e torna-se quase triste. Depois chega Susan Sarandon, e a relação com Miriam muda novamente a temperatura do filme. Há sedução, silêncio e uma violência muito contida em Catherine Deneuve, que domina cada plano. Quarenta anos depois, The Hunger continua a ser sobretudo um filme de atmosfera e tão hipnótico porque transforma o medo da morte numa imagem suficientemente bela para nos obrigar a olhar.
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Rita Costa

Out Effed Up World de Alice Maio Makay
Mais uma pequena produção sci-fi lo-fi, ou lá como lhe queiram chamar, com dedo de Jane Schoenbrun (I Saw the TV Glow) na produção a dar ferramentas a Alice Maio Mackay, de apenas 22 anos, para realizar a sua sétima (!) longa metragem. Our Effed Up World alimenta-se da nostalgia pelos anos 80 e os filmes de terror de culto (os cenários têm posters de filmes por todo o lado, desde Halloween III a Killer Clowns From Outer Space), colando-se a essa imagem com argamassa artificial e sem grande substância. Os tiques de linguagem cinematográfica, ou linguagem de uma forma geral, Gen Z são usados e abusados de forma estereotipada para construir um teenager horror movie cheio de buracos narrativos, ausência de lógica interna, e momentos de interpretação absolutamente sofríveis. O filme tem dificuldade em encontrar um tom numa duração tão curta (68 minutos). Entre comédia, drama, terror e sci-fi, a única coerência de Our Effed Up World está mesmo na palete cromática que caracteriza este tipo de produções: vermelho, azul, roxo. Se Alice Maio Mackay é uma “estrela em ascensão”, claramente falta maturidade cinematográfica para alguém tão jovem e que já filmou tanto.
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David Bernardino

Game de John Minton
Um thriller sobre um raver que depois de uma festa tem um acidente automóvel que o deixa de cabeça para baixo à mercê da floresta. Game torna-se icónico ao ser protagonizado por Jason Williamson, carismático vocalista dos Sleaford Mods, mas também por Marc Bessant com uma bela interpretação. O conceito de Game funciona, jogando com a frustração da imobilização do protagonista, que é ao mesmo tempo um adulto infantilizado habituado a não sofrer grandes agruras. Bem, a verdade é que o filme pouco ou nada desenvolve as suas duas personagens, o que é irónico para um filme de 80 minutos em que tão pouco acontece. É evidente que a ideia original para Game caberia numa curta metragem que foi depois esticada o máximo possível para perfazer os 80 minutos de duração que lhe permitiriam chegar às salas, e o filme ressente-se disso. Há poucas ideias, as poucas sequências são prolongadas e recicladas, mas nem por isso o filme de John Minton deixa de ir cumprindo os seus objectivos. Existe uma cena em particular, perto do fim, chamemos-lhe clímax, que justifica a lenta maratona até lá chegar. Uma sequência psicadélica, que textualiza a relação da personagem de Jason Williamson, caçador furtivo, com a natureza que o rodeia, e que por si só consegue justificar a solidez de um pequeno thriller que não arrisca, mas também não erra.
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David Bernardino
Se conduzir, não beba. Ou melhor, se roubar uma catrefada de drogas e dinheiro à saída de uma rave nos anos 90, não conduza. É esta a lição que se retira de Game, um pequeno thriller de baixo orçamento que junta uma grupeta jeitosa de talentos musicais, desde Geoff Barrow dos Portishead na escrita e produção a Jason Williamson dos Sleaford Mods num dos papéis principais, passando pelo realizador estreante John Minton, oriundo do mundo dos videoclips.
Com semelhante pedigree, não admira que tudo comece numa rave clandestina no início dos anos 90. David (Marc Bessant), o nosso protagonista, alivia os bolsos a um companheiro de rave já apagado no parque de estacionamento. Uma decisão questionável, seguida de outra ainda pior: entrar no carro e conduzir depois do cocktail de drogas que ingeriu. Pouco depois, David está de pernas para o ar, ferido e preso pelo cinto de segurança, num carro capotado contra uma árvore no meio de uma floresta inglesa. É uma abertura eficaz, quase sem diálogo, entregue durante largos minutos a Marc Bessant e ao desafio de interpretar uma personagem pendurado de cabeça para baixo (mas ainda com força suficiente para lambiscar os cantos do automóvel à procura de restos de droga).
A eventual visita de um pastor alemão acaba por desencadear de forma bastante cruel o conflito no centro da narrativa. O dono do cão é um caçador que não aprecia ter drogados a patinhar pela floresta e a espantar-lhe a caça, e David transforma-se no alvo perfeito (e indefeso) onde descarregar essas frustrações. A partir daí, Game oscila entre a tensão e o humor negro sem fazer grande cerimónia da mudança, deixando pelo caminho algum comentário sobre duas versões de uma Grã-Bretanha em colisão sem romantizar nenhuma delas. A cultura rave não aparece como eco de uma liberdade perdida, nem a floresta como o último reduto de uma Inglaterra mais pura. De um lado temos egoísmo e hedonismo; do outro, ressentimento e desprezo. Como dizia Ken Watanabe em Godzilla, “Let them fight”.
A cena rave, que podia ser o grande elemento diferenciador do filme, dá o pontapé de saída de Game, mas depressa fica no retrovisor, deixando alguma vontade de passar mais tempo naquele mundo para lá dos flashbacks. É também por essa altura que se dilui um pouco a tensão e a claustrofobia, depois de uma abertura que encontra trezentas maneiras de nos prender a um homem de cabeça para baixo sem precisar de diálogo. Com a chegada do caçador, a narrativa ganha em conversa o que perde de magnetismo e, por estranho que pareça, acabam por deixar saudades os tempos em que David lutava sozinho contra um cinto de segurança. Pelo menos até à reta final, quando a contenção vai às urtigas numa descarga de imagens que faz jus à palavra clímax.
O choque entre a cultura rave e a Inglaterra rural é uma ideia sumarenta, e Game consegue espremê-la sobretudo nas pontas. Entre um início e um fim inspirados, falta-lhe alguma polpa para chegar a ser um grande filme.
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Carla Rodrigues

Family Fears Another Night of Terror de Cristian Ponce
Filme independente Argentino de baixíssimo orçamento, Family Fears Another Night of Terror é um daqueles filmes-conceito que propõe uma lógica interna que vai sendo revelada a pouco e pouco ao espectador. Em cenário único, uma família habita numa estranha casa onde não existem paredes, mas uma escuridão desconcertante. Cada um dos 4 membros da família, cada qual da sua forma suspeitando da sua própria realidade além “escuridão”, propõe sequências fílmicas diferentes. O destaque irá para o jovem adolescente, fã de rock satânico, que proporcionará a cena mais interessante do filme: palavra do Diabo. Apostando numa estética vintage distorcida, o realizador Cristian Ponce consegue capturar imagens aterrorizantes jogando com a nostalgia estética das velhas cassetes de vídeo, bem como com as lendas urbanas que nos anos 80 e 90 se formavam acerca de mensagens subliminares nas gravações das bandas rock mais transgressivas. Num loop de repetição em que progressivamente se vai introduzindo uma nova personagem ao seio familiar, e assim uma nova dinâmica, Family Fears Another Night of Terror consegue ir agarrando balões de oxigénio intrigantes o suficiente para manter o espectador interessado no seu meta conceito e na sua atmosfera pesada e de desconfortável isolamento. Faltou talvez apenas ritmo e um desenlace mais confiante para demonstrar que Cristian Ponce tinha algo mais em mente que apenas uma proposta de cenário.
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David Bernardino



