Foi provavelmente um dos dias mais fortes desta edição do MOTELX. O sétimo dia do festival, 9 de Setembro, foi coroado pela presença de Sergio Martino, para uma conversa que antecedeu a projecção de All the Colours of the Dark. Quase em simultâneo, noutra sala do Cinema São Jorge, passava Chronovisor, de Jack Auen e Kevin Walker, um filme “secreto” que se arrisca a tornar uma das obras do ano para os críticos da Tribuna que tiveram oportunidade de o ver. Outros títulos despertaram também o nosso interesse. It Ends, primeira longa-metragem de Alexander Ullom, parece justificar o entusiasmo que tem vindo, pouco a pouco, a gerar – num ano particularmente fértil em primeiras obras refrescantes no terror. Roma Elastica, de Bertrand Mandico, apresentado nas Séances de Minuit do Festival de Cannes deste ano, aprisionou Marion Cotillard no universo peculiar do cineasta. Veins, de Raymond St-Jean, é um filme que poderia ter ido mais longe, enquanto Gunman, de Cris Tapia Marchiori, thriller criminal argentino, foi uma boa surpresa a fechar o serão.
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It Ends de Alexander Ullom
Se pensávamos que Backrooms ia ser o início e o fim do terror existencial este ano, estávamos enganados. It Ends é mais um buraco no cinto dessa categoria e, embora não seja tão ambicioso, é uma intrigante viagem ao desespero da repetição e àquela sensação animadora de que talvez estejamos todos condenados a fazer mais ou menos a mesma coisa todos os dias até morrermos.
Viagem? Perdão, queria dizer roadtrip.
Juntamo-nos a quatro amigos, acabados de sair da faculdade e ainda naquela fase utópica em que o futuro está cheio de possibilidades, que entram numa estrada e descobrem que não conseguem sair dela. Não importa quanto conduzem, onde viram ou o que tentam fazer: a maldita estrada continua.
It Ends percebe que uma premissa destas só funciona se quisermos passar tempo com as pessoas presas nela. Os quatro amigos são caracterizados de forma simples mas eficaz, com uma química credível. Sentimo-nos investidos nos seus destinos, que parecem cada vez mais amarrados ao percurso agoniante daquela estrada infinita. Um pouco à semelhança do motto de Dory em À Procura de Nemo (just keep swimming), pouco remédio têm senão just keep driving e continuar estrada fora à procura de uma saída que começa a parecer cada vez mais ilusória.
Por razões que nenhum deles consegue explicar, coisas mundanas como combustível ou fome não são problemas. Os dias transformam-se em noites, as noites em dias e, como qualquer grupo de pessoas sensatas perante uma impossibilidade absoluta, começam a atirar teorias à parede. Ficção científica? Inferno? Purgatório? Alucinação coletiva? It Ends diverte-se a considerar as explicações convenientes para depois as despachar, porque descobrir o que raio se passa não é bem o ponto. O filme usa a estrada sisifiana para explorar angústias típicas da entrada na vida adulta, em que cada jovem passa de um futuro pleno de possibilidades para a suspeita de que talvez a vida seja só isto. Ver os dias começarem a parecer iguais enquanto aquela versão de nós que tinha sonhos enormes vai ficando cada vez mais longe no retrovisor.
Com um orçamento ridiculamente baixo, It Ends (a primeira longa-metragem de Alex Ullom) é mais conceito do que entretenimento puro. O ritmo é lento e, apesar de estar filmado com bastante mais talento do que o dinheiro disponível faria prever, há um número limitado de maneiras de filmar quatro pessoas dentro de um carro numa estrada infinita. A monotonia é parte da experiência, e ajuda-nos a sentir o peso da viagem com eles, mas também deixa o filme visualmente um pouco plano e sem grande textura. Porém, mesmo quando as limitações do orçamento se fazem sentir, nunca parece faltar convicção a Ullom sobre o filme que quer fazer. Para um debut tão pequeno, Ullom mostra uma segurança criativa que deixa muita curiosidade para ver o que ele fará quando tiver mais dinheiro para brincar.
São, ainda assim, pequenas queixas perante aquilo que o filme consegue fazer com tão pouco. Quanto mais It Ends avança, mais aquela premissa começa a parecer familiar: continuar a percorrer o mesmo caminho porque parar não é uma opção, sem sabermos se todos os esforços e ambições que carregávamos quando éramos mais novos nos vão levar a algum lado ou se estamos apenas… a conduzir.
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Carla Rodrigues
De uma premissa tão simples quanto contida, It Ends que consegue evitar qualquer explicação ou pretexto narrativo. A acção encontra muito cedo o seu modo definitivo, e os seus sustos são praticamente esgotados no primeiro terço da duração. A meio caminho, com Ullom a permitir-se aligeirar ainda mais a carga narrativa da trama (de quatro, passamos a três), tudo parece ser progressivamente descartado para dar lugar a uma errância cada vez mais entediada pela longa estrada fora. Se as personagens procuram ainda analisar psicologicamente a situação em que se encontram, o próprio filme recusa uma qualquer lógica para além do seu conteúdo programático imediato (conduzir, parar, repetir). De uma construção singularmente afinada (e tão simples), desliza-se progressivamente do horror que se prometera para um hangout, e deste para uma despida interrogação existencial. Como James (Phinehas Yoon), assumimos que isto terá efectivamente de acabar, mas será muito fácil desconfiarmos de que a estrada alguma vez atingirá esse fim. Repetitivo, de uma lassidão que lhe confere um interesse distinto, uma inquietude própria. Um pesadelo que existe pela sua absoluta falta de relevância.
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Miguel Allen

All the Colours of the Dark (1972) de Sergio Martino
All the Colours of the Dark é para mim menos fascinante do que The Strange Vice of Mrs. Wardh, por ser um filme onde as possibilidades se vão fechando ao longo de si, em vez da multiplicação a que assistimos na obra anterior. Aqui, as imagens de assassinato que parecem perseguir Jane nos seus pesadelos desde um acidente e que começam a sangrar para a vida real começarão realmente a tomar conta de tudo, até a um pós-crise ou crise final onde pergunta a Richard, seu namorado, se alguma vez vai conseguir ser como era anteriormente, antes da revelação e erupção do trauma. Mas há também nesta obra vistas e sons incríveis: o condomínio altíssimo e densíssimo de apartamentos em Londres onde tanto da acção se passa, cá fora, em casa, no elevador, nas escadas. A personagem do psicanalista, e a sua casa de retiro no campo onde vivem dois caseiros. A música de Bruno Nicolai, especialmente naquele primeiro plano do filme onde assistimos a todas as cores presentes num anoitecer. George Hilton, aqui em herói. Vitaminas e psicanálise, e a terceira solução para os problemas de Jane que se revela através de uma amiga que desesperadamente precisa, a participação num “Sabba” onde poderá tornar-se e ser livre, até ao momento em que ultrapasse esse estádio para um ainda ulterior, aquele de uma liberdade “para sempre”.
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Rafael Fonseca
Tutti i colori del buio nunca será um filme tão forte quanto a aparente soma final das suas partes. E, se algumas das suas ideias desiguais são muito boas, outras tantas não serão particularmente apelativas. Martino consegue aqui fundir ilusoriamente a realidade com o sonho (adesso non è più un incubo), trabalhando como que através de um plano subjectivo exteriorizado da sua personagem principal. E Edwige Fenech é ideal enquanto protagonista algo abstraída da própria trama do filme. Já tudo o que envolve aquele culto satânico é bastante deselegante, pela forma como se suprime então a ambiguidade das imagens, pela vulgar ausência de nuance. A trama acaba, também por via desse fio menos apelativo, por se resolver de um jeito demasiado cómodo… Fica, por isso, à imagem do seu título sedutor e infinitamente profundo, um filme que parece ganhar mais força quando escondido e relembrado no fundo da nossa mente do que quando discorre (tão) literalmente diante dos nossos olhos.
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Miguel Allen
O título deste filme advém de uma conversa entre a protagonista, Edwige Fenech, tendo recentemente perdido um bebé na sequência de um acidente automóvel, e o seu novo psicólogo, George Rigaud. Pergunta-lhe o homem se Fenech sente receio do escuro. Fenech, que havia vindo a passar noites carregadas de pesadelos, responde-lhe que não. Mas sendo certo que o seu escuro estaria, na verdade, populado por todo o tipo de receios, Fenech é, mais uma vez no cinema de Sergio Martino, uma mulher entregue a si própria. Incompreendida pelo marido (George Hilton), que vê na psicologia uma pseudociência de reptilianos e aldrabões; à margem de uma irmã (Nieves Navarro) que a empurra para o gabinete de Rigaud; aparentemente sem qualquer amigo ou sequer conhecido num prédio de Londres onde mora há mais de quatro meses. Tutti i colori del buio, pelo menos na medida em que se assume como um filme plantado no onírico e no subconsciente, tem um cariz muito mais abstracto que os restantes gialli de Martino. A sua realização segura, a fazer uso expressivo de mise en scènes exuberantes para criar tensão psicológica e sexual, vê-se aqui reduzida a espaços curtos e trocas de olhar. O que Martino descreve em conversa como uma Londres “de postal” esbarra de frente com grande parte da sua construção de exteriores. A Londres de Tutti i colori del buio é, na verdade, tudo menos turística. O apartamento de Fenech e o consultório de Rigaud são, para todos os efeitos, os locais de assombro de uma mulher incapaz de fugir ou de obter refúgio. Se a sua salvação estará num homem, em profundo contraste com Lo strano vizio della Signora Wardh, mais uma vez as conspirações que perseguem Fenech se tornam verdade não apenas por via do absurdo, mas sobretudo pela psicologia das muitas cores que o escuro assume.
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Hugo Dinis

Chronovisor de Jack Auen & Kevin Walker
São várias as dimensões que concorrem para evidenciar a singularidade de Chronovisor. Desde logo, o facto de se tratar da longa-metragem de estreia da dupla de realizadores norte-americanos, Jack Auen e Kevin Walker, o que torna ainda mais surpreendente a maturidade e qualidade reveladas pela obra. Por outro lado, e essa parece-nos a característica mais notável do filme, os cineastas logram prender incessantemente a atenção do espectador, cingindo a sua narrativa à paciente observação da investigação académica da protagonista Béatrice Courte. Sucedem-se no ecrã imagens de artigos, revistas e jornais em diversas línguas, sobre os quais a académica se debruça e onde as passagens de maior relevo vão sendo traduzidas diretamente no papel, sobrepondo-se ou sublinhando a redação. A filmagem granulada em 16mm de ambientes de luz ténue e o aparente minimalismo da narrativa, característicos do cinema independente norte-americano, contrastam com a utilização vincada da banda sonora de suspense e com os macabros detalhes que vamos desvendando acerca do enigmático aparelho que dá título ao filme e do seu inventor Padre Pellegrino Ernetti. Apesar de, naturalmente, não interferir no sucesso do filme, não deixa de ser curioso sublinhar que estamos perante factos que efetivamente aconteceram na realidade, sendo que a busca da personagem principal corresponde frequentemente à busca dos realizadores para a construção do argumento do filme. Mas o que é então isto do chronovisor? É uma máquina com um visor, capaz de captar imagens e sons do passado, onde Ernetti e os seus colaboradores afirmam ter visualizado, entre outros eventos marcantes da história da humanidade, a crucificação de Cristo. É do choque entre o revestimento académico da trama e da encenação com a auspiciosa utilização da música e de elementos experimentais, que culminam esplendidamente no clímax do filme, que Chronovisor encontra o seu apelo. E pouco há de mais cinematográfico (e cinéfilo) do que a procura incessante e obsessiva de uma imagem que materialize o imaginário do espectador. Permaneceremos atentos aos subsequentes passos de Jack Auen e Kevin Walker. Chapeau!
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Bruno Victorino
O silêncio da memória, ou uma outra ideia de cinematógrafo. Trata-se aqui (como noutras obras importantes de cinema neste ano) de pôr em questão a resolução programática de uma narrativa, de ensaiar uma despojada desconstrução desse esqueleto que serve de suporte à prática cinematográfica desde os seus primeiros tempos. Chronovisor refere-se, primeiramente, à desmemoriada invenção de Pellegrino Ernetti, monge beneditino e musicólogo italiano que, nos anos 50, juntamente com um grupo de investigadores, afirmava ter concebido um aparelho que permitia, como se de uma câmara de filmar invertida se tratasse, ver e registar imagens do passado. De uma energia residual legada através do tempo, Béatrice (prodigiosa Anne Laure Sellier) percorre obsessivamente obras literárias e documentos sobre o aparelho e Ernetti, cuja veracidade, ou não, num relato que, para todos os efeitos, vai “inventando” o seu próprio documentário, ser-nos-á pouco relevante.
Chronovisor surge sobretudo como ensaio bibliotecário em cinema, fazendo discorrer extensamente a palavra escrita e a oralidade enquanto desenha uma invulgar imersão no filme de género. Um noir “académico” (numa filiação borgiana assumida pelos autores), cuja trama se recobre de testemunhos abafados e ares de conspiração, evocados sob a penumbra de uma cidade adormecida. Um inquérito solitário sobre uma memória, mas sobretudo a memória enquanto vasto edifício imaginário; os seus espaços “infinitos”, envolvidos de livros e, nisso, depositários do próprio tempo, evocam o método dos loci, que nos é descrito, a partir de Quintiliano, na conversa entre académicos que abre o filme. A progressão dramática da trama sustém-se na investigação de Béatrice, cuja “acumulação” de factos não conduz necessariamente a uma “verdade”, mas essencialmente ao apagamento progressivo da própria personagem (uma única personagem que o filme nos “mostra”) numa ficção que sucessivamente se expande. A informação, condensando o mistério, torna-se aqui matéria sensorial, com a palavra escrita sobre a tela, recordando os intertítulos do cinema mudo, a exigir um tempo de leitura ao próprio espectador.
Defronte de sucessivas portas fechadas, este será um grande filme de silêncios, com uma atenção peculiar e relevante conferida à composição de cada plano, à iluminação da cena e, nomeadamente, à banda sonora construída a partir da música de Gustav Holst. O seu trecho final, qual grito mudo, parece guardar a vertigem de outras odisseias cinematográficas através do espaço e do tempo, cristalizando nesse preciso instante essa outra possibilidade do cinematógrafo. Uma máquina destinada não tanto a registar o presente, mas a potenciar um reencontro com os fantasmas daquilo que passou.
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Miguel Allen
À medida que nos aproximamos da resolução do mistério na base de Chronovisor, vamo-nos apercebendo: tal como as provas de fé, não é possível chegar a uma evidência de facto de que esta máquina poderá existir. A memória é imperfeita, claro está, mas não há nada que o Chronovisor, a máquina que nos mostra o passado através de um eco das memórias, realmente consiga captar o que se propõe captar. Nesse sentido, o Chronovisor não é apenas um mistério, mas essencialmente um mistério da fé. Esta pulsão investigativa está sempre na margem entre a obsessão de De Palma e a relação com o passado de Javier Marías. Numa conhecida entrevista, David Foster Wallace dizia-nos que a actividade da leitura requer “sentarmo-nos numa sala, connosco mesmos, em silêncio… e nem todos somos capazes de o fazer”. Enquanto filme, Chronovisor é uma peça que mal funciona ou mal deveria funcionar. Do ponto de vista formal, encerra-nos numa caixa em formato 4:3, coloca-nos no atafulhamento de uma uma biblioteca ou de um arquivo nacional, apenas para mais tarde nos votar às páginas de jornais, revistas, publicações e documentações escritas nas mais diversas línguas. A memória a que a máquina do padre italiano procura aceder está à vista da nossa investigadora, a neurocientista Beatrice Courte (Anne Laure Sellier). Os arquivos reportam à clareza do registo do ocorrido, mesmo que no mundo do misterioso, mas produzem o mesmo encerramento connosco próprios a que Foster Wallace aludia. É por isso que, quando a investigadora abandona os arquivos para nos abrir ao mundo exterior e à palpabilidade dos objectos investigados, não evitamos sentir uma certa alienação. O mundo de Beatrice Courte é simultaneamente reduzido a palavras, que saltam das páginas para nos chamar a atenção, e expandido à chapada na cara que muitas vezes é o mundo real. O que vemos no fim, a concretização de todas as intrigas e obsessões de Courte, é também aquilo que nós mesmo queremos ver. A memória é um deus em busca de profissões de fé.
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Hugo Dinis

Roma Elastica de Bertrand Mandico
Eddie (Marion Cotillard) é uma jovem atriz de sucesso a quem é diagnosticada uma doença que lhe deixa pouco tempo de vida. Decide continuar a representar, por considerar que o esquecimento é o pior que pode acontecer a uma atriz. O filme divide-se entre o início da rodagem de um filme e a rodagem em si. No início, Eddie é apresentada à cidade de Roma e à equipa do filme, que a idolatram e incomodam. A excentricidade de todos os personagens envolve-a e, aos poucos, Eddie acaba por se deixar levar. Parece assombrada pela experiência de ser mulher em Hollywood e, ao longo do filme, o seu espaço é continuamente desrespeitado por colegas do presente e colegas do passado. A reflexão acerca do presente é acutilante pela sua abstração dos eventos de 2026 em si. Na segunda parte de Roma Elastica, o filme perde o rumo. Passa a tentar trabalhar a relação com Valentina (Noémie Merlant), a fiel maquilhadora da atriz, sem o fazer, já que estamos apenas perante um ultimato. Tenta, também, desenvolver o filme dentro do filme, mas a sua existência era mais curiosa em abstrato e acaba assim por não desenvolver nenhuma das temáticas que foram tão marcantes e imersivas antes do “primeiro final”.
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Maria Inês Opinião

Veins de Raymond St-Jean
Veins tem uma ideia muito boa: a de que a morte não acaba propriamente connosco. O corpo transforma-se, mistura-se com a terra e, de certa forma, a alma continua ali, presa à natureza. Às raízes, às plantas, ao que cresce depois. É provavelmente a parte mais bonita do filme, mas também a mais estranha, porque essa eternidade vem sempre acompanhada por uma transformação bastante física e desagradável. E é por isso que custa ver o filme ficar tão pela superfície. Há material para ir muito mais longe, para fazer alguma coisa realmente inquietante com a ideia de continuar vivo através da natureza, mas Veins acaba por perder demasiado tempo a explicar o que aconteceu e a organizar a história. Os saltos no tempo até ajudam a perceber tudo, mas também tiram algum mistério. Os efeitos práticos são bons, têm textura e há momentos em que a transformação do corpo é muito mais interessante do que tudo o resto.
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Rita Costa

Gunman de Cris Tapia Marchiori
Belíssima surpresa a fechar o sétimo dia do MOTELX. Gunman, no original “Gatillero”, é uma produção independente argentina que, se olhada em termos técnicos, é um pequeno milagre logístico. 80 minutos filmados com poucos cortes (estimam-se apenas dois ou três) de forma a que ilusoriamente estejamos perante um único plano sequência em tempo real, filmado na Isla Maciel, bairro problemático nos arredores de Buenos Aires. El Galgo (grande interpretação de Sergio Podeley) corre, dispara e interage com várias personagens marcantes neste thriller de alta rotação que pisca o olho a Good Time, dos Safdie, ou Athena, de Romain Gavras. A camera flutua e persegue as personagens numa coreografia cuidadosamente montada que consegue sempre manter o realismo e proeza técnica. Por trás da acção Cristian Tapia Marchiori, o realizador, filma um argumento sobre desigualdades sociais e lutas de poder no bairro, entre narcotraficantes e os moradores que procuram uma vida pacata, mas também a polícia. Duas notas de destaque para o discurso de Nelson (Ramiro Blas), um oásis de intenções sociais e também políticas no meio do caos da acção, e para a cena protagonizada por Nilda (Susana Varela), que funciona como figura maternal de grande parte dos moradores do bairro na cantina social. Não é certamente uma obra-prima, mas Gunman não deixa de ser uma pequena maravilha de cinema em carne e osso que nos vai motivando a ir descobrindo pequenas produções como esta que dificilmente serão vistas fora de um festival de género, a bem do entretenimento.
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David Bernardino



