19º MOTELX: Entrevista aos Directores Pedro Souto e João Monteiro

David BernardinoSetembro 2, 2025

Este ano a Tribuna do Cinema é orgulhosa parceira de comunicação do 19º MOTELX. Não que mude alguma coisa: o nosso entusiasmo, dedicação e cobertura para com este que é um dos maiores festivais de cinema em Portugal iria sempre acontecer. Em jeito de antevisão David Bernardino volta a sentar-se à mesa com os directores Pedro Souto e João Monteiro para tentar descortinar estados de espírito, expectativas e destaques para esta 19ª edição que promete ser absolutamente diabólica.

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David Bernardino: Olá Pedro Souto e João Monteiro! Voltamos a encontrar-nos para falar sobre a próxima edição do MOTELX, a 19ª, que irá decorrer no cinema São Jorge de 9 a 15 de Setembro 2025. Como se sentem quase 20 anos volvidos ao ver que o MOTELX é provavelmente o festival de cinema com mais público em Portugal?

Pedro Souto e João Monteiro: Assim de repente? Talvez um pouco envelhecidos. Mas, para sermos sinceros, nunca olhamos muito para trás — seguimos sempre a velha máxima futebolística do “jogo a jogo”. Cada edição é uma vitória, sobretudo tendo em conta os desafios de financiamento e o aumento constante dos custos. Por isso, vamos deixar essa pergunta para o ano que vem.

Voltamos a ter uma vasta seleção de curtas portuguesas a competir pelo Prémio MOTELX – Melhor Curta de Terror Portuguesa 2025, o maior em Portugal no valor de 5000€. O que pensam da colheita deste ano? Como avaliam a evolução destas produções ano após ano?

São 12 curtas — um número bastante interessante, especialmente se considerarmos que muitas foram feitas propositadamente para concorrer ao MOTELX. Procuramos sempre garantir variedade temática e formal entre os finalistas, e creio que este ano voltamos a conseguir isso. A nível técnico, as produções estão cada vez mais sólidas, e há até filmes de escola que acabam por ser seleccionados para a competição internacional, graças à sua qualidade. Acreditamos que a principal fragilidade ainda está nas narrativas: muitas vezes há uma preocupação excessiva em seguir à risca as convenções do género, em vez de explorar verdadeiramente o subconsciente nacional. Mas tudo a seu tempo.

Temos ainda o Prémio MOTELX – Melhor Guião de Terror Português 2025, uma secção mais recente do festival. Porque é que decidiram criar esta competição e como descreveriam as propostas deste ano?

Esta decisão está alinhada com o que referimos na resposta anterior — acreditamos que se trata de uma lacuna que importa colmatar. Tudo começou quando acolhemos o festival GUIÕES e estreámos, em parceria, uma competição dedicada a argumentos. Este ano, apesar da ausência do GUIÕES, decidimos manter essa secção ativa. Queremos continuar a perceber que tipo de histórias os nossos futuros autores privilegiam.

The Home, de James DeMonaco

Existem longas metragens de peso anunciadas, nomeadamente a sessão de abertura e de encerramento, com The Long Walk, uma aparente metáfora para o que muitos preveem que seja um futuro totalitário nos Estados Unidos, e The Home, um filme de terror talvez mais clássico com um lar de idosos como pano de fundo. Têm observado o cinema de género a estar cada vez mais em contacto com a realidade contemporânea?

O terror sempre se alimentou do medo coletivo — é essa a sua grande força desde há mais de 100 anos. Basta lembrar como o expressionismo alemão, no cinema, antecipou a ascensão do partido de Hitler. Os filmes de terror que realmente causam impacto social têm essa característica em comum: estão profundamente ligados aos mal-estares da sua época. Foi o caso, mais recentemente, de Get Out. Por isso, não surpreende que vejamos, tanto nas obras deste ano como nas que aí vêm, temas como o aquecimento global, o crescimento da extrema-direita, a inteligência artificial ou a guerra.

As temáticas abordadas no cinema de género são um factor que têm em consideração na vossa programação?

Claro que sim. Queremos que o MOTELX seja também um local de discussão em torno de temas contemporâneos e nesse âmbito destaco filmes como Enterre seus Mortos, Dragonfly, Don’t Leave the Kids Alone ou Zero como filmes que reflectem a actual realidade sócio-cultural do mundo.

Dragonfly, de Paul Andrew Williams

De entre os filmes anunciados, quais os que pensam que irão atrair mais público e quais é que pessoalmente mais vos entusiasmam?

A reação do público é sempre uma surpresa, mas destacamos alguns filmes em competição que prometem marcar, como Hallow Road de Babak Anvari — um folk horror passado dentro de um carro — e o novo e experimental Bulk de Ben Wheatley. Na secção Serviço de Quarto, temos o apocalíptico Enterre Seus Mortos, de Marco Dutra, o remake do clássico da Troma The Toxic Avenger e o britânico Dragonfly, um duelo de interpretação entre duas atrizes fabulosas: Brenda Blethyn e Andrea Riseborough.

Bulk, de Ben Wheatley

Nas sessões “fora da caixa”, estamos curiosos pelo filme interativo The Run e pela maratona nipónica Chime / New Group / Hotspring Sharkattack. Já nas retrospectivas, destaco a versão redux da série Finisterra, que isola o conteúdo de terror, e a projeção em 35mm de Crime de Aldeia Velha na sala Manoel de Oliveira

Uma das secções mais interessantes do festival sempre foi o Quarto Perdido, que recupera o cinema português de terror, ou de género, quer antigo, quer contemporâneo. Este ano teremos o clássico O Crime da Aldeia Velha (1964, de Manuel Guimarães), A Maldição de Marialva (1989, de António Macedo que estreou O Segredo das Pedras Vivas no MOTELX em 2016), e também A Noite de Walpurgis (1983) de Noémia Delgado, uma das pioneiras do cinema de género em Portugal. Como chegaram a esta colheita para este ano?

Primeiro definimos o tema — este ano, a representação da bruxa no cinema português — e depois procurámos filmes em que estas personagens são protagonistas. O que esta seleção nos revela é que a bruxaria fez, e continua a fazer, parte do quotidiano português, seja através de filmes baseados em histórias verídicas, como Crime de Aldeia Velha e Finisterra, ou em memórias de infância, como Alma Viva.

A Maldição de Marialva (1989) de António Macedo

Outra novidade é precisamente o prémio Noémia Delgado, que distingue as Mulheres Notáveis no Terror. A primeira galardoada será Gale Anne Hurd, convidada de honra desta edição do MOTELX, produtora de filmes icónicos como Aliens, Terminator 2 ou The Abyss. Porque é que escolheram a Gale Anne Hurd, e como é que chegaram até ela?

Este prémio estava nos nossos planos há muito tempo, mas faltava um nome de peso para dar o impulso inicial que precisava. No ano passado, apresentámos o livro I Spit on Your Celluloid, da autora Heidi Honeycutt, que aborda o trabalho das mulheres profissionais no terror e, curiosamente, menciona a obra de Noémia Delgado. Heidi, amiga de Gale Anne Hurd, ofereceu-se para ser o ponto de contacto entre ambas, e assim surgiu uma parceria perfeita.

Aliens (1986), de James Cameron – produzido por Gale Anne Hurd

Temos ainda uma misteriosa nova secção nesta 19ª edição do MOTELX chamada Suite 13. Do que se trata?

Este desafio veio de um contributo externo do Carlos Carrilho, académico e programador com quem já colaborámos anteriormente. Ele combina pesquisa académica com ideias de programação, uma abordagem que nos agrada muito. Com base no seu vasto conhecimento do cinema série B e exploitation dos anos 60 e 70, sugeriu que revisitássemos títulos e autores que, vistos hoje, ganham nova relevância face aos tempos atuais. Por isso, o pai do gore, Herschell Gordon Lewis, revela-se o melhor comentador da América contemporânea.

The Wizard of Gore (1970) de Herschell Gordon Lewis

Para finalizar, algum sonho que queiram concretizar na 20ª edição?

Sim, mas não podemos revelar.

 

David Bernardino