19º MOTELX – Dia 4 : Freaky Tales, A Useful Ghost, Touch Me, The Toxic Avenger

EquipaSetembro 13, 2025

Quarto dia do MOTELX, marcado por uma verdadeira panóplia de propostas. Da Tailândia chegou a comédia negra anti-revisionista A Useful Ghost, em mais uma parceria com a Embaixada Tailandesa, já a mais longa união na programação do festival. O prato forte ficaria para depois do jantar, com Freaky Tales, antologia retro de terror norte-americano que conta (também) com Pedro Pascal no elenco. Entretanto, enquanto na Sala Manoel de Oliveira decorria a sessão dupla de The Toxic Avenger – o clássico original e o recente remake com Peter Dinklage -, a Sala 3 recebia, à meia-noite, Touch Me, comédia negra repleta de practical effects. Leiam as críticas de David Bernardino, Hugo Dinis, Rafael Fonseca e Francisco Sousa.

 

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Freaky Tales de  Anna Boden & Ryan Fleck
Secção Serviço de Quarto

À saída, um colega apontou com justeza que Freaky Tales mostra ser uma celebração de um intervalo no espaço e no tempo: Oakland, California em 1987. Como não percebo muito de pop culture, não sou fã de basquetebol, e acima de tudo como as sensibilidades americanas são cada vez mais repelentes, é díficil dizer que estaria à partida interessado neste sítio e nesta altura — estava disponível, no entanto, para mudar de ideias. O filme sustenta-se nestes alicerces: um cameo de Tom Hanks vê o actor interpretar o dono de um clube de vídeo e dissertar sobre os hits da altura; “Sleepy Floyd”, jogador da vida real dos Golden State Warriors neste ano, acaba por ser o protagonista principal desta ficção; e todo o humor, todos os thrills e todos os quadros existem compreendidos dentro dessa coisa que é um filme dos Estados Unidos em 2025, algo mais insalubre do que era em 1987.

Nesse ano, cenas muito maradas estavam a acontecer, havia quase uma luminescência verde no ar, a atrair e a ser atraída por situações extravagantes. Esta é a premissa do filme, que nos mostra quatro situações interligadas: a vingança de um grupo de malta punk contra os skinheads locais, a inesperada vitória de um duo de battle rappers contra o tipo mais pesado da cidade, o último trabalho de um hitman interpretado por Pedro Pascal e a vingança do jogador Sleepy Floyd depois de um assalto cometido à sua casa. Todos os episódios estão intimamente interligados, e a coisa mais engraçada do argumento é observar de facto as muitas conexões. Os melhores segmentos são aqueles com os actores de maior qualidade: Pascal e Ben Mendelsohn levantam o filme de uma geleia indie à Festival Sundance em que se encontra nos dois primeiros capítulos.

O conceito mostra-se de qualquer forma condenado: este brincar à natureza recursiva que se faz nos Estados Unidos, este throwback ao passado, bomber jacket do Heaven’s Gate, a loja de hambúrgueres e de batidos, já não cola. O filme parece querer dizer algo politicamente, por isso devemos observá-lo à altura: no segmento final, por exemplo, uma das personagens mata dezenas de nazis todos juntos numa casa. Este número grande não comporta, atenção, nenhuma hermenêutica adicional (estou a pensar no videojogo Hotline Miami, como exemplo, onde a Máfia é infinita). O feel-good que o filme parece querer transmitir é que o fascismo é derrotado com pujança pelo povo diverso da Califórnia, pelo basquetebol, e pelo bom velho espírito americano, como se essas coisas não existissem em cumplicidade lá, agora, neste momento. Abonecado e paternalista — é tapar o sol com a peneira, não dá para ignorar. Faziam-se melhores filmes na altura, e ainda deve dar para encontrar as cassetes.

Rafael Fonseca

 

O filme de Anna Boden e Ryan Fleck aposta numa estrutura fragmentada para explorar múltiplas narrativas interligadas em Oakland dos anos 80, oscilando entre o realismo sujo e a fantasia pop. A energia das suas personagens, dos skaters punks aos cobradores de dívidas, confere ao filme uma pulsação irregular mas sempre curiosa, com momentos em que a irreverência transborda em pura loucura cinematográfica. Não é difícil reconhecer a influência de Tarantino, tanto na construção de diálogos afiados como na violência estilizada que evoca Django Unchained ou mesmo o exagero coreográfico de Kill Bill. Duas ou três sequências particularmente inventivas atingem uma estranheza magnética, onde se sente a mão dos realizadores a brincar com as regras do género. Freaky Tales acaba por afirmar-se como uma obra vibrante e imprevisível, que encontra a sua força na mistura de referências e na forma como reinventa o cinema de género com energia renovada.

Francisco Sousa

 

A Useful Ghost de Ratchapoom Boonbunchachoke
Secção Serviço de Quarto

A Useful Ghost apresenta-se a início como uma comédia absurdista sobre temas sérios. A morte dos nossos entes queridos, que persistem na memória dos que os lembram, e cujo fantasma desaparece à medida que vão sendo esquecidos. Nessa primeira metade, acompanhamos um ladyboy que compra um aspirador possuído por um fantasma, e é quando o reparador chega a casa para ver o que se passa que se torna narrador da história que constrói o Mundo que viria a ser apresentado na sua segunda metade. Os aspiradores possuídos por fantasmas também têm sentimentos, são capazes de fazer sexo (amor) com os vivos e até de esperar pacientemente nas salas de espera dos hospitais, elevando o tom absurdo de belo efeito que arranca gargalhadas na audiência, espaçadas pelo ritmo lento de um filme que é francamente longo. Como que se metamorfoseando, esta “comédia negra” transforma-se num retrato social sobre a memória política da própria Tailândia, da opressão da classe trabalhadora e do capitalismo, cujos fantasmas, através da possessão de electrodomésticos, procuram a vingança. Não se pode dizer que o filme não seja coeso, mas uma boa mensagem não faz um filme. Para um filme com tantos sentimentos, a execução podia dificilmente ser mais linear. Um filme encaixado de forma plástica, com sérios problemas de ritmo e tom, construindo-se de forma fantasista e pouco séria para depois abraçar um clímax seríssimo, executado de uma forma sensacionalista e catártica que dificilmente reflecte a beleza e harmonia das memórias invocadas pelas belas imagens apresentadas ao longo das mais de duas horas. Percebe-se a ideia, mas dificilmente a mensagem passará a quem não estava à partida à procura dela.

David Bernardino

 

Touch Me de Addison Heimann
Secção Serviço de Quarto

Um filme que imprime quase a papel químico o espírito e sentido de humor gen z. Um rapaz e uma rapariga que vivem juntos, viciados em drogas e em não assumir as suas responsabilidades, conhecem um alienígena rico e narcisista que vive na Terra e que aparenta estar cheio de boas intenções. A comédia que gira à volta de trauma, sexo, adição e temas queer, acaba por ser inesperadamente coesa e bem executada dentro de um baixo orçamento que faz das suas fraquezas a sua força: efeitos visuais práticos à anos 70/80 fantásticos, zero utilização do digital, atingindo com eficácia uma tangibilidade real que tanto faz falta ao cinema actual. Isso e ter três cenas de pornografia hentai com tentáculos feita em live action. Apesar dos seus temas, Touch Me nunca se leva demasiado a sério, abraçando uma personalidade série B frenética, de grande entretenimento e ritmo, cristalizando o espírito indie contemporâneo com particular boa execução.

David Bernardino

 

The Toxic Avenger Unrated de Macon Blair
Secção Serviço de Quarto

Não deixa de ser algo representativo do cinema de super heróis moderno que uma das peças culturais mais subversivas do género na década de 80 tenha sido transformada num registo convencional inteiramente assexual mas decididamente bastante mais violento que o seu original. Este The Toxic Avenger Unrated gaba-se de um elenco de reconhecimento elevado, desde Peter Dinklage enquanto Toxie até Kevin Bacon no papel de magnata vilão, e de valores de produção infinitamente superiores ao original independente. Com Macon Blair na realização, colaborador habitual de Jeremy Saulnier, o Avenger está agora adaptado aos tempos: a combater o desleixo moral das mega empresas americanas, a colocar um drama familiar no centro da trama, e a lançar um olhar a um sistema de cuidados de saúde disfuncional. As mudanças de perspectiva e as actualizações que o tempo trouxe servem, contudo, para retirar muita da magia e do espírito original do Avenger. Desde logo, a sensibilidade dramática de Peter Dinklage parece estar pouco relacionada com a ideia de um Avenger que tem tanto de repugnante como de magnético. Na verdade, este The Toxic Avenger Unrated não se fica por aí, na medida em que a tentação de trazer o super herói idiossincrático para o século XXI resulta numa complicação geral do enredo que se aproxima muito mais a um qualquer produto aleatório da Marvel do que do espírito iconoclasta e independente que associamos ao Avenger (com direito a cena pós-créditos e tudo!). O Avenger de Dinklage está agora a braços com a tarefa de manter de pé uma relação ambivalente com o seu filho adoptivo (Jacob Tremblay), fazendo uso dos habituais mecanismos de “armadura de enredo” que normalmente associamos a subprodutos Marvel. Toda esta construção extra-Avenger da personagem de Dinklage acaba por retirar o imediatismo frenético a que procura apontar, e conceder-lhe uma convencionalidade que não lhe serve. Ou a banalização do mito, uma especialidade da Hollywood actual.

Hugo Dinis

 

The Toxic Avenger (1984) de Michael Herz & Lloyd Kaufman

A América de Reagan teve o condão de criar uma cultura própria do seu tempo. Uma cultura homogeneizante e normativa, mas que se impôs com uma simplicidade tão brutal quanto aparentemente natural. The Toxic Avenger era, em pleno reaganismo de 1984, um super herói (ou qualquer coisa que o valha) da sua comunidade fictícia de Tromaville em New Jersey. Mas ao invés de um super herói que se debate com um vilão de carne e osso, o antagonista de The Toxic Avenger é essa cultura normativa da América dos eighties. Na verdade, é o mesmo vilão de um They Live de Carpenter ou um Breakfast Club de Hughes. The Toxic Avenger coloca os termos do debate cultural num maximalismo atroz, contudo. Os jocks de Hughes são aqui manadas assassinas em puro delírio macabro, enquanto que as estruturas de autoridade de Carpenter são corporizadas por uma força policial neonazi e uma classe política abertamente corrupta. Esse maximalismo torna-se um activo de The Toxic Avenger na forma como é empregue a violência ao longo das peripécias. A força da crueldade das hordas de bullies que ajudam a defenestrar o pobre Melvin rumo ao seu destino tóxico são confrontadas com a mesma brutalidade violenta em troca das suas acções pelo próprio Toxic Avenger. O mesmo “monster hero” que arranca braços de membros de gangs, contudo, dedica-se igualmente a ajudar velhinhas a atravessar a rua. É nesta duplicidade humorística e satírica que reside a maior subversividade de The Toxic Avenger. Os realizadores Lloyd Kaufman e Michael Herz colocam o tom dos acontecimentos numa raiz absurdista desde o início a partir da ampliação das tendências violências latentes na sociedade americana, fazendo do elemento da poluição resultante do “progresso tecnológico” alegado na sua voz off inicial o veneno que se entranha nas relações sociais. Será o Toxic Avenger o super herói que a América merecia em 1984? Não sei, mas é possível que tenha sido aquele que precisasse.

Hugo Dinis