Ao terceiro dia de MOTELX, os destaques vão para Anything That Moves e Missing Child Videotape, que convenceram os tribunos Hugo Dinis e David Bernardino, respectivamente. Vimos ainda Her Will Be Done, com legítimas pretensões a levar para casa o prémio de “melhor longa-metragem de terror europeia”. Houve ainda espaço para uma interpretação sul-coreana de John Wick com The Old Woman With the Knife e para o psicológico e desconfortável Buzzheart. A jornada continua.
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Buzzheart de Dennis Iliadis
Secção Prémio Méliès d’argent – Melhor Longa Europeia 2025
A partir da premissa de exploração dos excessos do behaviorismo nas suas experiências animais, Dennis Iliadis salta para a conclusão mais óbvia possível: e se isto fosse feito a humanos? Na realidade, o entendimento de Iliadis deste campo da psicologia parece ser primitivo e isso não interessa propriamente ao caso. Buzzheart faz referência a um peluche revestido com um aparelho que dá choques eléctricos a quem a ele se abraça. Evelina Papoulia e Yorgos Liantos formam um casal obcecado pela força da aplicação das ideias do behaviorismo ao contexto de humanos, em especial à sua própria filha. Iliadis celebra a condução que Papoulia e Liantos dão às suas experiências caseiras em behaviorismo aplicado, na esperança que o espectador as veja como intrigantes ou macabras. Infelizmente, Buzzheart não é nenhuma das duas coisas. A visita do aparente namorado da filha (Claudio Kaya) à casa de campo do casal em tempo de quaresma serve de mote para a condução de experiências a fim de avaliar a aptidão do rapaz enquanto potencial companheiro. Iliadis faz uso da perspectiva de Kaya enquanto outsider para que a condução das incidências tenha algum impacto emocional. Ainda assim, ao esbarrar nas expressões vazias do namorado, estas experiências raramente arrancam para além do levemente inconveniente no que diz respeito às convenções sociais que evoca. A evidente crueldade de Papoulia e Liantos é apresentada, pois, enquanto fait accompli de uma história com vilões declarados e referências transparentes (Get Out ou Dogtooth). Esta tendência de Iliadis para o manifesto repercute-se numa acção largamente estéril e tão fascinada com a força da obsessão behaviorista quanto incapaz de ilustrar o seu encanto nefasto. Na mediocridade de praticamente todas as performances aqui (excepção seja feita a Konstantina Messini, a filha do casal), as incidências experimentais parecem revestir-se mais de um desconforto social humorístico do que de uma crueldade de implicações latentes. Seja como for, à questão colocada por Iliadis sobre a aplicação das experiências behavioristas a humanos, a resposta também nos surge ao ver este Buzzheart: e então?
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Hugo Dinis
A premissa de Buzzheart é deliciosa e prometedora: um jovem que acaba de conhecer uma rapariga vai passar o fim de semana à casa de campo dos pais dela, sendo apresentado como namorado. Nada é o que parece, claro, e os pais têm uma série de testes preparados para ter a certeza que este é o homem certo para a sua filha. O background de experiência científica em animais que paira sobre o filme permite adivinhar com grande antecipação que algo de horripilante se prepara para acontecer, mas Buzzheart é na verdade pouco mais que a sobreposição de interações sociais familiares com uma pitada de estranheza e desconforto, ao de leve, como tempero. O longo caminho trilhado, e as evidentes más escolhas de edição num filme que poderia ser mais curto, não entrega nenhum resultado minimamente satisfatório, mas antes um clímax confuso, pela rama e com sabor a desilusão face ao que prometia.
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David Bernardino

The Old Woman with the Knife de Kyu-dong Min
Secção Serviço de Quarto
Já há vários anos que o cinema sul-coreano é conhecido precisamente por filmes como The Old Woman With the Knife. Um thriller de acção escorreito, bem executado, bem pensado por profissionais cuja prioridade é produzir um filme rentável e de qualidade que consiga apelar ao público em geral. O filme de Min Kyu-dong vai beber directamente a John Wick, como tantos outros (podemos culpá-lo?). Uma mercenária de meia idade que pertence a uma organização secreta de assassinos cuja missão é limpar a sociedade dos pequenos micro-parasitas que “merecem pagá-las”. Apesar deste sentido justiceiro, The Old Woman With the Knife está bem ciente da sua amoralidade, recusando a colocar os seus protagonistas directos no papel de herói ou vilão. Antes Hornclaw, a protagonista, e Bullfight, o jovem novo membro do grupo, derivam à berma das suas acções, consequentes e inconsequentes em igual medida. Sobram as belas coreografias, acção competente, ainda que escassa. Um bom filme que compõe o recheio dos bons filmes que nada de novo trazem à arte do cinema, antes talvez uma localização do conceito john-wickiano ao mercado sul-coreano.
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David Bernardino

Her Will Be Done / Que Ma Volonté Soit Faite de Julia Kowalski
Secção Prémio Méliès d’argent – Melhor Longa Europeia 2025
O filme de Julia Kowalski faz um excelente trabalho a construir uma atmosfera semi-contemplativa, focada numa interpretação daquilo que é uma jovem bruxa em potência algures na França rural, no seio de uma família imigrante polaca. Personagens interessantes dão azo a duas cenas de grande efeito dramático que são cinema arrepiante, e isso será o melhor de Her Will Be Done. A forma como Kowalski filma a vida rural, particularmente os animais, imprime no filme um interesse superior que não é fácil de capturar. No entanto, o filme parece estar tão preso aos códigos do cinema político contemporâneo que a sua preocupação didáctica parece querer sobrepor-se a tudo o resto, fazendo um retrato demonizador e bacoco do povo rural, porventura simples e conservador, mas longe de se resumir à paranoia colectiva com instintos de violação.
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David Bernardino

Anything That Moves de Alex Phillips
Secção Serviço de Quarto
Uma das propostas ainda primordiais da reconhecida distribuidora americana independente Vinegar Syndrome é este neo-noir simultaneamente urgente e satírico de Alex Phillips, Anything That Moves. Filmado inteiramente em 16mm, Phillips conta a história de um par de trabalhadores sexuais de Chicago (Hal Baum e Jiana Nicole) que se vêem envolvidos numa teia de assassinatos a visar os seus clientes. Profunda e permanentemente engenhoso, Anything That Moves coloca no ecrã uma agilidade sexual que irradia inventividade, sensação de aventura, transgressão, e abertura que simplesmente pouco se vê na representação das relações sexuais no cinema contemporâneo. Phillips dá espaço a uma candura desarmante na forma como aborda kinks e preferências sexuais, e a sua lente faz sempre questão de procurar encontrar a beleza e o humor nelas. As ruas de Chicago dão respaldo a uma representação do inusitado e do íntimo nas relações solidárias: ainda que Baum e Nicole façam das ligações fugazes a sua forma de vida, estão profundamente enraizados numa comunidade de clientes e profissionais do sexo que cerram fileiras face à ameaça mortal. Anything That Moves pisa sempre a linha entre a sinceridade na representação das relações de Baum e Nicole e a sátira social face ao elemento antagonista. É nesse aspecto que podemos compreender o quão apropriadas serão as comparações com o trabalho pioneiro de John Waters. Phillips constrói uma Chicago enredada numa realidade verdadeiramente transgressora pela forma honesta como apresenta as suas imagens e a sua linguagem de rua. O duo de polícias que investiga os assassinatos é disso o maior exemplo. A essência do elemento policial, repugnado pela degenerescência social e a responder ao desejo de crueldade redentora religiosa, é retratada por Phillips por meio de uma parelha ao estilo Starsky and Hutch, que tem tanto de patética como de aviltante. Essa caracterização da polícia subverte também a lógica convencional do noir, ao colocar o espectador no lugar da presa e não do perseguidor ou sequer do predador. Pela sua própria ambição, Anything That Moves é uma parábola social que retrata a ambivalência com que colectivamente convivemos com o sexo enquanto forma de contacto humano. Na linha ténue entre a beleza e a brutalidade.
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Hugo Dinis

Missing Child Videotape de Ryota Kondo
Secção Serviço de Quarto
Uma bela surpresa este Missing Child Videotape, primeira longa metragem de Ryota Kondo. Claramente aprendiz atento do cinema Kiyoshi Kurosawa (Pulse, Cure, Chime), Kondo assina um slow-burner que vive e respira atmosfera de desconforto. A palete de cores pálida, entre o branco e o azul claro, os cenários assépticos e minimalistas, as sombras, os planos fixos. Chamem-lhe um clone de Kurosawa, mas Missing Child Videotape, ciente da sua lentidão que pode desafiar o espectador mais cansado, constrói a sua atmosfera sem mácula, piscando até o olho ao conceito de edging (estamos quase lá, mas o clímax nunca chega). Talvez seja essa a faca de dois gumes do filme, e que no fundo coloca a nú o grande dilema do cinema de terror desde praticamente a sua génese: revelar ou não revelar o mistério? Dar ou não dar resposta. Missing Child Videotape será sobretudo uma estética, mas o cinema também é isso, principalmente no cinema de género.
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David Bernardino



