O segundo dia de MOTELX foi recheado de sessões e de surpresas. Hugo Dinis, David Bernardino e André Antunes, os nossos enviados ao reino do terror viram filmes que vão desde terapias de casal pouco ortodoxas, a filmes de acção rodados em Lisboa antes do 25 de Abril, passando experimentalismos semi-amadores e até pelo regresso de Aliens, a propósito da presença da produtora Gale Anne Hurd. Deixam-nos agora as suas críticas:
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The Ice Tower / La Tour de Glace de Lucile Hadžihalilović
Secção Prémio Méliès d’argent – Melhor Longa Europeia 2025
Como que preso numa cápsula temporal, La Tour de Glace é um filme sumptuosamente filmado que faz uso da frieza estética rural da montanha para remisturar temas de orfandade e manipulação maternal. Clara Pacini é uma jovem em fuga do orfanato, marcada pelo suicídio da mãe, em busca de uma aventura citadina. O caminho leva-a ao set de filmagens de uma adaptação de “A Rainha da Neve” de Hans Christian Andersen. Fascinada pelo magnetismo intoxicante da protagonista titular (Marion Cotillard), Pacini vê-se impelida pela sua própria necessidade de proximidade face à actriz. Os impulsos tirânicos de Cotillard no set apenas sublinham o seu carácter etéreo aos olhos de Pacini, contudo, La Tour de Glace usa esta relação quasi-maternal para evidenciar até que ponto a intoxicação abusiva de Cotillard se faz conjugar com o vazio da orfandade de Pacini. A realizadora Lucile Hadžihalilović coloca sempre a perspectiva de Pacini em evidência, mas parece permanentemente mais deslumbrada com o impacto imagético das suas composições. Tendo lugar nos anos 70, La Tour de Glace permite também a Hadžihalilović dar largas a um imaginário estético que reforça o bucolismo de toda a envolvência. Mas toda esta elegância é correspondida por um considerável vazio emocional ao centro de todas as relações que Hadžihalilović cria. A personagem de Pacini desenvolve um cariz manipulativo para se aproximar dos outros, que serve apenas de reconhecimento reflexivo para Cotillard. Existe em La Tour de Glace um certo fascínio mórbido pela miséria afectiva em que Pacini se encontra, em particular à medida que o seu percurso se acerca da referência maternal que procura. Esta frieza coliga-se com uma languidez de enredo que parece ter pouco a dizer das suas personagens e muito para se impressionar pelas suas imagens.
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Hugo Dinis

Honey Bunch de Madeleine Sims-Fewer & Dusty Mancinelli
Secção Serviço de Quarto
Um exemplar tipo de cinema de horror de nicho que se foca na relação pouco ortodoxa de um casal, sendo os actores também um casal na vida real (parece ser uma trend). Honey Bunch escolhe, por alguma razão, os anos 70 como pano de fundo estético para a história de uma mulher levada pelo seu marido para uma clínica em jeito de retiro algures na floresta para que esta recupere as suas memórias. O propósito do filme é tão claro desde o início – algo de macabro “tem de” estar por detrás disto – que observá-lo á medida que é construído, uma memória aqui, uma revelação ali, se torna um exercício de alguma paciência do lado do espectador e vaidosice do lado da tela. É só a meio caminho, e felizmente porque podia ter sido só no fim, que o segredo é revelado e a partir daí tudo melhora. O argumento preocupa-se finalmente em dar densidade às suas personagens, criar peripécia, abraçando uma lógica fantasista que é bem-vinda e casa bem com a estética campestre retro que o filme escolhe ter. Honey Bunch, ainda assim, deixa para o seu epílogo o seu melhor momento: uma demonstração de química despudorada e camp que quase existe à parte de tudo o resto e que só por si quase serve para redimir as preguiças e vaidosices.
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David Bernardino

Aliens: Director’s Cut (1986) de James Cameron
“Get away from her, you bitch” é um daqueles gritos de guerra definidores do blockbuster hollywoodesco dos anos 80, essa era onde o dinheiro e a testosterona invadiram a tela americana para não mais sair dela (e, dizem as más línguas, a destruírem). Contudo, (re)encontrar Aliens, de James Cameron, em 2025, é descobrir como é nos silêncios que o filme ganha o seu poder. Seja na prolongada sequência de entrada dos marines na colónia perdida de LV-426, ou na brilhante última meia hora, quase inteiramente montada sem recurso a música, Cameron é um mestre na construção de tensão dramática e suspense com base no vazio sonoro (no espaço ninguém nos ouve gritar, bem entendido).
É também um cineasta de espaços (duplo sentido), talvez o maior exemplo no campo do blockbuster da velha máxima de John Huston, de que todos os grandes realizadores são arquitetos. O controlo que exerce sobre o design de produção e as complexas sequências de ação do filme parece simples, mas não é – ora aí está o truque de magia do cinema. Aliens surge hoje, de resto, como espécie de primeiro ensaio-geral para Exterminador Implacável 2: O Dia do Julgamento, onde Cameron elevaria a outro patamar as obsessões estéticas (o metal e a carne em tonalidades azuis e laranja) e narrativas (o senão do progresso tecnológico, famílias destroçadas e reencontradas) da primeira fase do seu cinema – Linda Hamilton será sempre a sua mais marcante protagonista, mas a fisicalidade de Sigourney Weaver aqui é inegável e espelha as qualidades (força e vulnerabilidade) que fizeram dela uma das poucas mulheres-estrelas de ação do período.
Exibido no MOTELX como parte do programa da merecida homenagem que o festival faz este ano à sua produtora, Gale Anne Hurd, Aliens talvez não seja uma obra-prima, mas é certamente superior ao original – sobretudo um trabalho artístico notável de H.R. Giger posto ao serviço de um dos mais sobrevalorizados realizadores dos últimos 50 anos, Ridley Scott. Alguns efeitos visuais datados, um excesso de foco na equipa militar na metade inicial, e um sentimentalismo que em momentos foge para a pura lamechice (Cameron só aperfeiçoaria o melodrama com Titanic) colocam-no um degrau abaixo dos grandes clássicos de ação do período, filmes como Assalto ao Arranha-Céus ou o primeiro Exterminador. Mas é, certamente, um membro de pleno direito desse cânone.
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André Filipe Antunes

The Killer with a Thousand Eyes / Los Mil Ojos del Asesino (1974) de Juan Bosch
Na senda do cinema de experiência, Los Mil Ojos Del Asesino é uma chapada na cara em formato audiovisual. Um poliziottesco com toda a propriedade, o registo do espanhol Juan Bosch faz com que a Lisboa pré-revolução vibre com toda uma energia frenética que a qualquer lisboeta parecerá alienígena. Perseguições de metralhadora em riste para cima e para baixo na Ponte 25 de Abril, personagens de moralidade duvidosa projectadas do topo do Castelo de São Jorge, mauzões despachados à porta da Igreja de São João de Deus a meio da tarde. Tudo isto far-nos-á duvidar dos nossos olhos de 2025, mas certamente que nos põe a imaginar uma cidade em que os espiões estariam mesmo de passagem e se jogaria o xadrez mundial de que os Táxi viriam a cantar nos anos 80. Los Mil Ojos Del Asesino acompanha o inspector Michael Lawrence (Anthony Steffen) no desmanchar de uma complexíssima teia de influências nefastas que vieram a resultar na morte de um amigo inspector da brigada de narcóticos nas ruas perigosas de Lisboa (mais especificamente, no Parque Mayer). O enredo avança sem contemplações nem reflexões pelos caminhos de um mundo em que se fazem desaparecer testemunhas e se explodem colegas de trabalho antes que estes tenham a oportunidade de revelar a informação preciosa que detinham. A pura força frenética que Juan Bosch se permite desencadear numa cidade outrora parada num tempo de ditadura encosta-se numa candura superficialista sem desculpas. Lawrence é abrasivo e eficaz, qual Harry Callahan da avenida de Roma, mas é sobretudo alguém de quem temos dificuldade de desviar o olhar. Sinuoso e vital, Los Mil Ojos Del Asesino é uma relíquia.
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Hugo Dinis

Bulk de Ben Wheatley
Secção Prémio Méliès d’argent – Melhor Longa Europeia 2025
Ben Wheatley conseguiu o almejado título de autor de cinema, o que aos dias de hoje é dizer muito. A sua filmografia, quase sempre polarizadora (In the Earth, Meg 2), parece ir do projecto independente à grande produção comercial com relativa leveza e fluidez. Bulk será o seu filme, não só mais pessoal, como talvez mais experimental. Com um baixíssimo orçamento, Wheatley pega em 3 actores de relativa alta roda que aceitam sem receio entrar neste carrossel de loucura que cristaliza o conceito de filme amador profissional. Uma comédia negra sci-fi de baixo orçamento, Bulk coloca os seus protagonistas num espaço interdimensional procurando respostas para encontrar o criador de uma experiência científica física falhada. Por entre diálogos com um humor seco, uma montagem inventiva e um elogio directo às maquetes e aos practical effects, Wheatley consegue, sem margem para dúvidas, criar um universo hermético próprio que transpira personalidade, prazer e diversão na arte que é o cinema. Questiona-nos também afinal para quem é que os filmes existem, comprovando que existe espaço e público para o mais absurdista dos projectos.
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David Bernardino

A Pianista de Nuno Bernardo
Cinema que nem na televisão se admite. Imberbe, imbecil, A Pianista é o tipo de produção que dá mau nome ao dito cinema de género em Portugal. Não fosse o (mínimo) cuidado com a imagem e podíamos estar perante um daqueles projetos de amigos, rodados na galhofa ao longo de um fim-de-semana prolongado. Está cá a turma toda: um argumento incoerente e que só dificilmente terá tido mais do que uma primeira versão; personagens absurdas, contraditórias e interpretações dignas de telenovela (a “participação especial” de Catarina Furtado, que dura cerca de um minuto, é honestamente capaz de ser a melhor do elenco); uma mise-en-scène que nem colada a cuspo foi, porque o cuspo ainda sustém qualquer coisa (é o tipo de filme onde o quarto do filho adolescente está decorado com pósteres tão ridículos como “Space Movie” ou “Rock Music”. Sim, a sério). Até termina com um plano de drone a seguir um carro pela estrada, porque claro que termina! Quando as coisas se fazem a brincar, porque isto de fazer filmes “é muito giro”, não tem como correr bem. Os familiares e amigos dos atores e equipa técnica, muitos dos quais certamente estiveram na antestreia e aplaudiram no fim, vão gostar. Para todos os restantes, é fugir a sete pés.
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André Filipe Antunes

Mother’s Baby de Johanna Moder
Secção Prémio Méliès d’argent – Melhor Longa Europeia 2025
Mother’s Baby é um take previsivelmente centro-europeu de Rosemary’s Baby, se deste fosse retirada toda a carga sinistra. Austero e asséptico, o filme da austríaca Johanna Moder coloca na mesa temas familiares e tratamentos ainda menos originais. Marie Leuenberger é uma maestrina de aparente sucesso e uma mãe recente de um filho nascido numa clínica de natalidade chefiada por Claes Bang. As circunstâncias suficientemente dúbias do parto, durante o qual a criança corre risco de vida, servem de gasolina para a paranóia inevitável de Leuenberger no que toca à sua condição de maternidade. Esta convocação da depressão pós-parto enquanto mecanismo de desenvolvimento de enredo parece corresponder mais a uma chamada de atenção do que propriamente a um questionar da condição de mãe de Leuenberger. A presença do recém-nascido na vida da maestrina vem causar uma disrupção no ímpeto do seu percurso profissional. A sua substituição na condução da orquestra que dirige vem reforçar sentimentos de desadequação face à sua condição maternal. Acontece que Moder apenas parece querer encarar Leuenberger enquanto signo representativo de uma espécie de reportagem sobre depressão pós-parto num qualquer talk show matinal. Como consequência, sentimos sempre que conseguimos prever os pontos narrativos que se vão sucedendo até ao inevitável ponto de ebulição de Leuenberger. O conservadorismo de Moder leva-a a optar pela segurança de um final aberto a interpretações mas fechado a qualquer tipo de sentimento ou sensação de perigo. O resultado é um filme anódino, mas, em última análise, desprovido de momentos desafiantes.
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Hugo Dinis
Não é que exista algo de particularmente errado com Mother’s Baby, um filme realizado de forma competente com uma premissa à la Rosemary’s Baby sobre uma mãe que duvida que o bebé que lhe foi entregue no parto seja efectivamente seu. A temática da depressão pós-parto serve de mote, mas Mother’s Baby tem dificuldade em construir um filme à volta da sua apetitosa premissa. Um drama que finge ser thriller lento, carregado de cenas repetidas e esticadas que deviam ter ficado na sala de montagem. A sua aura de mistério, sempre indecisa e tímida entre abraçar a sua mensagem social de forma séria ou resvalar para o thriller de entretenimento, acaba por nunca ser uma coisa nem outra, resumindo-se à sua competência executiva fílmica. Não é suficiente, muito menos quando o novo filme da realizador Johanna Moder nada tem de original. Mother’s Baby parece ser aquele filme que já vimos muitas vezes antes ao longo dos anos, proveniente de vários países e adaptado a várias épocas. Esta nova tentativa infelizmente não tem mesmo mais nada a dizer, e pior: nem tenta sair da sua zona de conforto.
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David Bernardino

Arroio Negro de Lucas de Lima
Secção Prémio MOTELX – Melhor Curta de Terror Portuguesa 2025
Curta-metragem a concurso na secção nacional da edição deste ano do MOTELX, os primeiros momentos de Arroio Negro prometem: imagens evocativas, um presságio de que algo se esconde à vista desarmada. O filme não sustém, infelizmente, esse embalo inicial, perdendo-se numa série de metáforas difusas e num simbolismo óbvio que, nos seus momentos finais, se aproxima de um tom cómico que não parece totalmente intencional. É pena, porque Lucas Lima tem olho para alguma coisa – reconhece, por exemplo, o onirismo estético presente na decadência metálica em tons esverdeados das estações de metro de Lisboa – mas a poesia das imagens deve evocar algo mais plenamente realizado do que aqui se encontra. Ressalva ainda para Joana Barrios no papel principal, que nestas lides de festival consegue ser o raro caso de stunt cast de uma celebridade (ainda que atriz de formação) que consegue ser uma presença interessante no grande ecrã. Vê-la num projeto mais sólido, quem sabe até uma longa-metragem, talvez revelasse mais do seu talento.
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André Filipe Antunes



