19º MOTELX – Dia 1 : The Long Walk e Hallow Road

EquipaSetembro 10, 2025

Casa como sempre cheia para acolher a Cerimónia de Abertura da 19ª Edição do MOTELX – Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa, no Cinema São Jorge em Lisboa. Pedro Souto e João Monteiro fizeram as honras habituais apresentando o programa deste ano, sendo que o grande destaque foi para a entrega do primeiro prémio Noémia Delgado para mulheres notáveis no terror. A galardoada, e convidada de honra desta edição, foi Gale Anne Hurd, produtora de filmes icónicos como Aliens, Terminator ou Tremors. Gale fez um belo discurso sobre a sua experiência enquanto mulher no cinema de terror, dedicando o prémio à sua grande amiga Debra Hill, produtora e argumentista de Halloween, de John Carpenter, falecida há 20 anos. Foi assim que arregaçamos as mangas para acompanhar mais uma maratona de terror que poderão acompanhar diariamente na Tribuna do Cinema. O primeiro foi The Long Walk, filme escolhido para abrir as hostes, baseado num livro do mestre Stephen King. Vimos também o claustrofóbico Hallow Road, novo filme de Babak Anvari (Under the Shadow), com Rosamund Pike e Matthew Rhys, à meia-noite.

 

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The Long Walk de Francis Lawrence

Curioso trio o que está por trás de The Long Walk. Ao leme temos Francis Lawrence, realizador da saga Hunger Games, que aqui assume particular relevância temática: um futuro distópico onde os EUA estão transformados num regime totalitário (inserir evidente “relevância contemporânea”) e um grupo de 50 jovens participa numa espécie de concurso onde tem que andar sem parar até só um se aguentar. A temática reminiscente de Hunger Games não é o único ponto em comum entre ambas as obras. O espírito juvenil associado a um certo voyeurismo sádico (como de resto no japonês Battle Royale, vastamente superior) serão o mote que prende o interesse neste thriller que, com os bons actores e argumento que tem, não tem como ser ineficaz. O argumentista JT Mollner (realizador de Strange Darling) é talvez o principal responsável por essa eficácia. A relação entre personagens e a sua densidade, ainda que juvenil, tem o condão de conseguir agarrar o espectador nos seus planos e lógicas repetitivas que poderiam facilmente cair no aborrecimento, ainda que não possamos esquecer a premissa apetecível do filme. Por fim Stephen King, autor do livro no qual se baseia o filme, e que é curiosamente o primeiro livro que escreveu ainda em tenra idade, no ano de 1966/67, o que apenas reforça a intemporalidade da sua mensagem de apelo à revolução do povo. Como filme, The Long Walk nunca é mais do que aquilo que se espera que seja, um guilty pleasure de alto orçamento bem executado nas suas várias vertentes, que tem dificuldade, tal como um jovem Stephen King, em equilibrar a superficialidade de alguns dos seus momentos com o simbolismo que esses momentos podem, ou não, acarretar. Tornar isso um guilty pleasure tem também um nome: produto.

David Bernardino

 

The Long Walk transporta a parábola anti-Vietname do livro de Stephen King para o caldo cultural dos dias de hoje, num futuro(?) em que o declínio económico e cultural dos EUA e a ascensão de uma sociedade fascista militarizada redundou, de algum modo, numa competição até à morte onde 50 jovens adultos têm de caminhar por uma estrada sem fim à vista, até apenas um deles restar. O salto de lógica terá de ser aceite a priori, até porque o filme de Francis Lawrence (realizador da saga Hunger Games, cuja influência clara paira sobre o filme) tem pouco interesse em explorar as ramificações políticas e sociais deste mundo, para lá de platitudes generalizadas sobre o quão “injusta” e “macabra” é a situação.

O interesse de Lawrence e do argumentista JT Mollner é sobretudo o de um chamber piece a céu aberto, um estudo de personagens enclausuradas numa situação limite. Aí, mérito seja feito, o filme cumpre no mais importante: prender o interesse do espectador a uma estrutura altamente repetitiva — os atores andam e falam, o pouco mais que acontece (essencialmente um breve flashback) é supérfluo e desinteressante —, graças a personagens bem conseguidas e dotadas de vida interior e a uma certa qualidade rítmica, quase musical nos diálogos, que consegue manter o ímpeto da obra ao longo de quase duas horas.

A qualidade de interpretação do jovem elenco (com Cooper Hoffman e especialmente David Jonsson à cabeça) ajuda — os diálogos destes rapazes soam bem, irrespectivamente de aquilo que têm para dizer ser ou não (não é) particularmente interessante. Pena este último ponto, já que nas mãos de cineastas mais “adultos” talvez houvesse aqui outra substância que permitisse ao filme elevar-se acima dos vícios do género YA, dos quais nunca escapa realmente. Isso, e um final abrupto e demasiado vago, impedem The Long Walk de chegar totalmente a bom porto. Mas a caminhada até lá é prazerosa, pelo menos.

André Filipe Antunes

 


Hallow Road de Babak Anvari

Mais um refrescante take ao conceito thriller “pessoas num carro a falar ao telefone e a conduzir”. Babak Anvari, realizador britânico e iraniano capaz do melhor (fantástico Under the Shadow, filmado na Jordânia) e do pior (Wounds), parece ter regressado à boa forma. Rosamund Pike e Matthew Rhys carregam este thriller stressante acerca de dois pais a tentar resolver o acidente de viação provocado pela filha numa floresta isolada. O argumento, que num filme de localização única será sempre o ponto mais importante, aguenta-se forte, racional e clínico durante um bom período. Pike, a mãe pragmática, realista, moral, divide as rédeas com o pai Rhys, guiado pelo lado emocional, neste suspense à distância através do telemóvel em alta voz. A dada altura, o filme inclina-se para um lado mais sombrio e misterioso, positivamente desconcertante, que aguça o interesse do espectador perante algo incontrolável. Infelizmente Hallow Road não se consegue aguentar nas sequências finais, que apesar de argumentativamente coesas (nem lógica a mais, nem lógica a menos, cara personagem de Rosamund Pike), desvirtuam o mistério e seriedade do filme até então, deixando mais perguntas do que respostas por razões puramente virtuosas.

David Bernardino

 

A parentalidade é uma longa e demorada batalha por controlo, na qual o ímpeto pela proteção dos filhos se cruza com a necessidade da sua responsabilização. Não sou eu que o digo, mas Babak Anvari e William Gillies que o explicitam por diversas vezes neste Hallow Road. Fazendo uso de uma emergência para esgrimir essa tensão na claustrofobia de um espaço fechado, Matthew Rhys e Rosamund Pike são colocados no caldeirão de um carro em socorro da filha, que terá atropelado uma rapariga na floresta. Esta restrição do espaço permite a Anvari e Gillies desenvolverem uma dinâmica de tensão incremental que se junta à exposição do enredo por portas travessas. Nesse sentido, Anvari coloca-nos à mercê das personagens e das performances de Rhys e Pike, colocando em evidência as suas diferenças enquanto figuras de autoridade na vida da filha (Rhys o pai protector, Pike a mãe responsabilizadora). Mas, ao fazê-lo, também secundariza toda a trama que envolve a situação de perigo em que a filha se vê envolvida enquanto espera pelo socorro do par. Hallow Road é um drama que se disfarça de thriller e se enrola na atração pelo sobrenatural. Anvari faz uso da metáfora do bucolismo enquanto revelação introspectiva para colocar em evidência um jogo de espelhos que procura sempre ter mais a dizer sobre pais do que sobre filhos. À medida que a filha vai sendo interpelada por uma personagem tão repelente como misteriosa pelos ouvidos da interminável chamada telefónica com Rhys e Pike, também a tensão propulsiva se vai dissipando para dar lugar a respostas e explicações que não pareciam necessárias. Hallow Road perde força e mistério quando toma essa decisão, mas sobretudo parece ganhar pouco mais do que apenas exposição e clareza.

Hugo Dinis